Retrospectiva Marvel #5 | Capitão América: O Primeiro Vingador

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière e mais uma vez chamei meus colegas para um novo capítulo da nossa Retrospectiva Marvel! O filme da vez é Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, 2011), a última parte das aventuras-solo dos heróis antes da primeira reunião de todos em Os Vingadores (The Avengers, 2011). O filme foi dirigido por Joe Johnston (Jumanji, 1995). Assista ao trailer abaixo e em seguida confira nossos comentários sobre a primeira aventura do líder do grupo de super-heróis:

Capitão América: O Primeiro Vingador | Comentários


Vinheta do Professor LumièreEu realmente não ligo para o Capitão América. Então minha primeira abordagem para o filme em 2011 não foi das mais agradáveis, admito. No entanto, revisitar Capitão América: O Primeiro Vingador após todos esses anos é um exercício interessante pois prova não só que Steve Rogers (Chris Evans) possui a franquia-solo mais coerente do Universo Marvel, mas também que o mote de “filme de espionagem” que permeia todas as aventuras do Capitão América já havia sido estabelecido desde o longa original. Johnston conduz uma trama no melhor estilo de thriller dos anos 40-50, com uma fotografia ligeiramente dessaturada e tons de sépia. O Bem e o Mal são bem definidos e não há muito espaço para uma área cinzenta (o que muda aos poucos nos filmes seguintes quando Steve tem acesso ao mundo moderno), o vilão é megalomaníaco e há muitas alavancas sendo puxadas e botões sendo apertados.

O único elemento que me incomoda muito neste filme é a dependência excessiva de computação gráfica. A mais óbvia delas é a decisão de inserir o rosto de Chris Evans no corpo de um dublê, o que causa uma estranheza permanente e acaba se tornando mais uma distração do que qualquer outra coisa. A composição de Evans também falha em não tentar utilizar uma voz mais frágil para a primeira versão de Rogers, o que acaba destoando completamente da aparência do personagem. Além disso, certas cenas simples (como o diálogo de Steve com Bucky pouco antes que ele se alistasse pela última vez) foram filmadas diante de uma desnecessária tela verde, o que distrai ainda mais da história do filme. Johnston também falha na montagem de algumas cenas de ação, esquecendo de incluir planos-detalhe que deixariam as sequências menos confusas – quando Steve invade a base da Hydra de moto, por exemplo, em certo momento o veículo tem acesso a uma rampa que teoricamente seria bem difícil de alcançar, mas nunca vemos como ele conseguiu subir no local. Apesar desses problemas pontuais, Capitão América: O Primeiro Vingador fica lado a lado com Homem de Ferro como o melhor capítulo da Fase Um do Universo Marvel.


Vinheta da Mãe SerpenteA essa altura da Retrospectiva Marvel, já deu para entender que a Casa das Ideias tem poucos heróis conhecidos pelo grande público, principalmente pela ausência de séries animadas. Se os X-Men, o Homem-Aranha e a Liga da Justiça possuem tantos fãs, é também porque durante décadas várias gerações assistiram a seus desenhos animados. O mesmo não aconteceu com Homem de Ferro, Thor e mesmo Capitão América, pouco conhecidos antes do MCU. Capitão América ainda tinha uma grande desvantagem em relação aos outros: seu nome e seu uniforme. Quem não tem o hábito de ler quadrinhos e vê qualquer imagem do Capitão pensa que ele é apenas um defensor do modo de vida dos Estados Unidos, um dos países mais odiados do mundo, com motivos de sobra para isso. A decisão de um subtítulo para o filme, O Primeiro Vingador, teve como uma de suas motivações principais evitar utilizar o nome do herói nas campanhas de marketing fora dos EUA. Em muitos países, apenas o título O Primeiro Vingador foi divulgado. Uma clara indicação de que a Marvel e a Disney, naquele momento, achavam o seu produto arriscado, por mais que fosse necessário para a coerência do MCU a presença do Capitão.

Toda a insegurança se provou desnecessária. Capitão América: O Primeiro Vingador é até hoje um dos melhores filmes do MCU. Mais do que isso, o arco de personagem do Capitão, ao longo de três filmes próprios e de dois filmes dos Vingadores, é o mais coerente e emocionante. Apesar de um ótimo primeiro filme, o Homem de Ferro e seus aliados sofreram muito com continuações. Já o universo do Hulk, devido a uma briga entre distribuidoras, nunca pôde ser explorado a fundo. Por sua vez, Thor já nasceu como uma franquia mediana, que só recuperou o fôlego em Ragnarok (2017). Os filmes do Capitão América, no entanto, sempre conseguiram ter um tom próprio, mais afastado do padrão Marvel; e cada novo filme com o Capitão mostra mudanças profundas em suas relações com o mundo e com os colegas. Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War) promete um desfecho para a personagem, e se a conclusão da estória do Capitão for tão boa quanto as outras etapas de seu desenvolvimento, já temos uma subtrama excelente no terceiro filme dos Vingadores.


Vinheta de BastilleBonjour! Algo que faz o Capitão América e seus filmes melhores do que muitos outros, na minha opinião, é a parte dramática que o cerca. Isto é, a relação de Steve Rogers com sua própria mudança, com a mudança do mundo, e principalmente sua relação com outras pessoas. Em Capitão América: O Primeiro Vingador, dois personagens muito importantes para o herói são introduzidos: Bucky Barnes (Sebastian Stan) e Peggy Carter (Hayley Atwell). Existe uma dúvida entre os fãs sobre qual dos dois é o verdadeiro amor de Steve. Acho que Stucky é mais shippado…

O relacionamento de Steve com Bucky é uma amizade fraternal, que é fácil de entender mesmo depois de poucas cenas compartilhadas pelos dois. O Primeiro Vingador é essencial para estabelecer esta ligação do Capitão com Bucky, que passa a ser central na trama de outros filmes do MCU. A outra pessoa importante para Steve, a agente do SSR Peggy Carter, o acompanha desde seu alistamento até o sacrifício final do filme, e é uma das poucas pessoas que acreditava nele antes mesmo de tomar o soro. Eu gosto da forma como construíram o relacionamento deles, com vários detalhes divertidos, como o Capitão ignorando o significado de fondue e achando que há algo entre Peggy e Howard Stark (Dominic Cooper). Ou quando Steve pergunta para Peggy o que ela acha de seu escudo, e como resposta recebe alguns tiros seguidos de um “acho que funciona”. Apesar das implicâncias, Steve e Peggy claramente se amam. Uma pena que eles mal têm tempo de se conhecerem e se apaixonarem, uma vez que o Capitão “morre” para acordar 70 anos depois… quando ela está em seu leito de morte.

Amo a Peggy e principalmente o que fizeram com a personagem em sua própria série, Agent Carter (2015-2016). Por mais que ela seja associada ao Capitão e ao seu relacionamento amoroso com o herói, ela existe por conta própria, sendo entre outras coisas cofundadora da S.H.I.E.L.D.. Uma mulher forte que virou um símbolo feminista, em um mundo de heróis que ainda é majoritariamente masculino.

Imagem mostra a Agente Peggy Carter (Agent Carter), interesse amoroso do Capitão América.
Que mulher! A atriz Hayley Atwell faz uma Peggy Carter perfeita.

Vinheta de AdelfaAcho que Capitão América: O Primeiro Vingador é meu filme favorito citado até agora nessa retrospectiva. Além de ser divertido, com personagens que tornam possível a empatia por eles, tem o roteiro focado na personagem principal e ponto. Se preocupa com os dramas pessoais dela e seu desenvolvimento ao longo do filme sem se preocupar em trabalhar personagens que preenchem ligações com outros filmes. Nem preciso dizer que é simplesmente ótimo não tentarem enfiar agentes aleatórios da S.H.I.E.L.D. de qualquer forma no meio da história só para ligar o filme do Capitão América aos Vingadores, por exemplo.

Devo dizer que, assim como em Homem de Ferro 2, o confronto final entre o Capitão América e o Caveira Vermelha é desanimador. Não por ser ruim, mas pelo fato de não ter o peso que esperamos ao longo do percurso. As lutas anteriores foram bem mais emocionantes e com mais ação. O Caveira Vermelha, um personagem que poderia ser muito aproveitado, teve um final rápido demais.


Vinheta do NáuseaRapaz, Capitão América: O Primeiro Vingador era tratado como a cereja do bolo do início do MCU. Lembro dos graudões da Marvel dizendo várias vezes que “não poderiam errar” com o Capitão América, muito por conta da visão que o público médio pretensamente tinha do personagem e também do momento político do mundo naquele momento. A Marvel estava cheia de dedos com esse título e com toda razão.

Estranhamente eu também lembro de um boato que quase virou fato, ainda na época anterior à compra da Marvel pela Disney: o papel do Capitão teria sido oferecido a Will Smith, que até hoje nunca confirmou nem negou. Não só não duvido, como vejo muito sentido nessa história. Basta manter na cabeça o “ranço” contra o personagem que a Mãe já comentou aí em cima e o fato de Barack Obama ter sido eleito presidente nos EUA um pouco antes. Lembrem também do que já mencionei nas resenhas anteriores: a Disney acabou interrompendo um caminho de histórias mais densas para o MCU que já começava a se desenhar. Eu inclusive acredito que nesse universo paralelo não teríamos Steve Rogers, mas sim Isaiah Bradley, o Capitão América negro, que surgiu na interessantíssima minissérie Verdade: Vermelho, Branco e Negro (Truth: Red, White & Black, 2003). Prometo que falo sobre ela no futuro; agora deixa eu fechar esse parênteses imenso.

No fim das contas, a Marvel entregou um filme bastante coeso, com uma boa participação de Hugo Weaving no papel de Caveira Vermelha; um uniforme fodão, brilhantemente inspirado no Capitão América do Universo Ultimate, misturando o visual clássico com o aparato militar mais “normal”; uma boa adaptação do Bucky – que deixa de ser o “Robin” do Capitão na sua versão dos cinemas; uma atuação passável de Chris Evans – que até hoje eu não engoli no papel, foi mal aê; além da triste constatação que Steve Rogers “morreu” virgem. Revi e ainda continuo achando legal. Bjundas!