Retrospectiva Marvel #3 | Homem de Ferro 2

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière e estou seguindo adiante com a Retrospectiva Marvel. Pela terceira vez, me reuni com meus colegas – Mãe Serpente, Adelfa e Náusea – para riscarmos mais uma semana na contagem regressiva para a estreia de Vingadores: Guerra Infinita, no final de abril. Dessa vez, nós assistimos Homem de Ferro 2 (Iron Man 2), filme de 2010 que foi dirigido novamente por Jon Favreau (uma das poucas repetições de diretores do Universo Marvel) e roteirizado por Justin Theroux, figura meio difícil de decifrar por ser responsável pelos roteiros de Trovão Tropical (Tropic Thunder, 2008) e também Rock of Ages: O Filme (Rock of Ages, 2012). Homem de Ferro 2 começa exatamente de onde o filme original parou: com Tony Stark (Robert Downey Jr.) anunciando para a imprensa – e para o mundo – que é o Homem de Ferro. Isso acaba atraindo a atenção de quem ele não esperava. Assista ao trailer e leia nossas impressões abaixo:

Homem de Ferro 2 | Comentários


Vinheta do Professor LumièreNa época em que o filme estreou, não tínhamos muito com o que comparar, razão pela qual muita gente detestou essa segunda aventura de Tony Stark. Na época eu detestei, pois o filme indiscutivelmente empalidece diante do original, mas a cada vez que revisito meu desgosto se desvai um pouco. Dessa vez, consegui determinar exatamente o que me agrada no filme. Theroux e Favreau conseguem estabelecer uma trama sólida: Tony em conflito com o governo norte-americano, um vilão russo que parece ser extremamente perigoso e a arrogância de Stark finalmente lhe causando sérios problemas com todos ao seu redor. O problema é que tudo que foi estabelecido no primeiro ato são promessas de boas tramas que o resto do filme não consegue cumprir. O conflito com o governo fica em segundo plano, Ivan Vanko (Mickey Rourke) passa dois terços do filme apertando botões aleatórios num teclado e, de forma similar ao protagonista, Homem de Ferro 2 confia demais em si mesmo a ponto de não conseguir enxergar as próprias falhas.

Mas ainda gosto bastante do primeiro ato e a cena de Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) derrubando capangas ainda me empolga como na primeira vez. Lembro que quando ela surgiu um filme da Viúva Negra era um sonho distante e hoje, quase oito anos depois… continua sendo.


Vinheta da Mãe SerpenteHomem de Ferro 2 é ruim. Existe um grande consenso em relação a isso. O mais surpreendente é observar que Jon Favreau continua como diretor, depois do excelente trabalho que ele fez no primeiro Homem de Ferro. Favreau se sentiu tão sabotado ao longo da produção de Homem de Ferro 2, e ficou tão decepcionado com o resultado final, que se recusou a dirigir o terceiro capítulo da saga. Jogou a toalha e seguiu adiante. Além dos problemas com o roteiro e inclusão da S.H.I.E.L.D., como o Náusea aponta ali embaixo, Favreau também teve que lidar com caprichos de atores. Já se perguntou por que o vilão Ivan Vanko tem um pássaro de estimação com tanta importância no filme? Porque o ator Mickey Rourke queria. O mesmo vale para os dentes de ouro do físico brilhante, ex-presidiário, que vive na aparente pobreza. Mickey Rourke também fez um trabalho de pesquisa profundo com presidiários reais na Rússia para definir todas suas tatuagens, e no fim das contas esse é um dos vilões mais aleatórios do MCU. E isso é dizer muita coisa, já que a Marvel, como regra, não sabe criar vilões. Como destruir a reputação de Tony Stark? Que tal mostrar os documentos que mostram que o pai dele teve ajuda de um russo na construção de sua tecnologia mais importante? Não? Ok, melhor atacá-lo em uma corrida de carros que você sabia que iria acontecer, mesmo que Tony tenha decidido participar de última hora. Pobre Jon Favreau.


Vinheta de AdelfaPois bem, sementinhas, devo começar com um lindo “não gosto desse filme”? Acho grosseiro, mas é a verdade. Para ser mais direta, um dos motivos pelo qual não animava de assistir a esse filme novamente começa com “Ham” e terminar com “mer” (Sam Rockwell). QUE CARA FORÇADAMENTE CHATO! Para quê?! Em certos momentos, eu só queria que Ivan batesse nele durante aqueles diálogos que mais pareciam um monodrama. É difícil pensar o que levou a esse erro. Talvez tenha sido um roteiro que priorizou diálogos vazios ou a direção que não soube bem pesar as prioridades. Isso se arrasta tanto que dá sono. Definitivamente Hammer dá vergonha alheia (que diabos foi aquela dancinha no final?!)

“Mas, Adelfa, qual o problema de diálogos longos?” Então, o problema é que eles são mais longos do que os arcos de ação ou demais diálogos que deveriam ser realmente priorizados dentro do filme. Arcos importantes como a luta final. Se espera que em um filme de herói haverá um confronto final com o “vilão”, o ápice do desafio do protagonista. Esse ápice não existiu durante muito tempo no filme. Vamos a um exemplo: só pegar o diálogo mais curto e inútil (redundante demais) tanto do Hammer com Ivan ou do Tony com Pepper (Gwyneth Paltrow) que qualquer um durou mais do que a cena de ação final. Uma luta rápida e boba, sem emoção. O que é bem estranho, pois essa última luta vem após uma sequência de cenas de ação do Tony com Jim, explosões e suor… Para simplesmente ser broxante no final.


Vinheta do NáuseaNão dá pra negar que o primeiro Homem de Ferro e, principalmente, O Incrível Hulk, eram filmes que pretendiam ser mais sérios, mais densos, bem diferentes das produções mais recentes da Marvel Studios. Hoje reconhecemos o jeitão Marvel de fazer filmes, mas depois de tanto tempo é fácil esquecer que essa mudança de direção não foi um processo gradual e muito menos foi por acaso: em 2009, a Disney comprou a Marvel, numa operação que chacoalhou o mundo da cultura pop pra sempre e acabou ditando o tom dos filmes que vieram depois, pro mal e pro bem. Mas o maior prejudicado com essa compra foi mesmo Homem de Ferro 2, que estava literalmente no meio das filmagens quando tudo aconteceu e acabou apressando a saída do diretor Jon Favreau logo depois.

Isso porque existia um arco de história muito bem amarrado, que já estava previsto desde o primeiro filme – a relação problemática de Tony Stark com a bebida alcoólica. Você lembra disso: Stark estava a todo momento com um copo de whisky na mão, levou um minibar pro meio do deserto do Afeganistão, enfim. Estava tudo lá, pronto pra ser o tema central do segundo filme e tomando como inspiração uma saga de 1978 dos gibis, chamada Demônio na Garrafa – pra quem diz que a Marvel não tem clássicos, vai por mim, esse é um deles.

A imagem para a Retrospectiva Homem de Ferro 2 mostra a capa do gibi Iron Man, número 128, de 1978. Abaixo do título da revista, com letras vermelhas, o personagem Tony Stark , o Homem de Ferro, se olha no espelho com uma expressão de medo e apreensão. Ele usa um terno cinza por cima da armadura vermelha. A Sua esquerda uma garrafa de whisky e a sua frente o capacete de seu uniforme de super herói.

A saga se espalhou por nove edições da revista mensal do Homem de Ferro e pela capa você já vê que o bagulho é sério. É um arco bastante tenso, onde Stark tem que confrontar a si mesmo, antes que pessoas próximas sejam colocadas em risco. Histórias mais sérias como essa não eram nada comuns na época e até hoje Demônio na Garrafa se mantém como uma das iniciativas mais corajosas da editora. Se interessar, a Salvat lançou por aqui em forma de encadernado na Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel.

Só que a Disney não permitiria uma abordagem dessas com o “seu” personagem nem a caralho, então começaram as mudanças de roteiro, refilmagens, suavizações e tudo mais. O alcoolismo de Tony, por exemplo, foi permanentemente esquecido e deu lugar a uma “intoxicação química”, causada pelo uso do reator Arc no seu peito. No final, Jon Favreau entregou um filme confuso, infantilóide, raso, com péssimos vilões e uma luta final constrangedora, que mais parecia um desenho ruim. Vale destacar que Mickey Rourke, que assim como Downey Jr. exagerou no cherolaine nas antigas e tinha acabado de ressurgir das cinzas, graças ao sensacional O Lutador (The Wrestler, 2008), entregou um Ivan Vanko sem pé nem cabeça e voltou para o ostracismo. Só derrota.