O Dia do Curinga | Encontro de uma carta perdida

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vinheta_ismaliaVenham todos! Hoje é O Dia do Curinga.

Encontros e desencontros, o curinga fugidio vagueia junto comigo pelos sonhos que não foram, por ilhas tragadas pelo mar. Encontros e desencontros, uma carta perdida.

Prometi à Bastille uma outra estória, mas essa encontra-se num outro espaço-tempo que ainda não terminei de explorar. Hoje, porém, decidi lhes apresentar ao Curinga. Antes de falar do seu livro, eu preciso contar a nossa longa-breve história de vida e não-acasos juntos. Eu o conheci num canto triste, o danado veio cheio de luz e irreverência, e eu lhe dei adeus, não podia encontrar com ele, eu ainda tinha outros mundos mais tortos para perambular antes. Nos desencontramos durante muito tempo incontável, até o dia em que numa estante estufada de livros e esquecimento, eu o encontrei sorrindo e me desafiando a acompanhar o seu passo.

Quem quer entender o destino, tem de sobreviver a ele.

O Dia do Curinga é um livro de Jostein Gaarder, um escritor e filósofo norueguês, mais conhecido através do seu livro O Mundo de Sofia. O Curinga traz consigo a história do menino Hans-Thomas que sai de Arendal, uma pequena cidade norueguesa, em direção à Grécia junto de seu pai alcoólatra “à procura da mulher que os deixou oito anos antes”, uma mãe-esposa que se perdeu no mundo para se encontrar, e nesse trajeto dentro de um velho fiat vermelho cruzando o Velho Continente até a Antiga Grécia dos olimpianos e das musas, o garoto participa de conversas com seu pai-alcoólatra-filósofo a cada “pausa para um cigarro”, e esses têtes-à-têtes vão desde maldições de família à desolação da bocarra de ferro do Tempo que devora a tudo e a todos. Conforme eu ia lendo as suas páginas, o Curinga me inquietava e ria, “quem quer entender o destino, tem de sobreviver a ele”, dizia num mantra interminável. Como enlouqueci, o destino se transformou num turbilhão espiralado, e eu fui não-compreender outras coisas.

Voltando a Hans-Thomas. O menino também descobre a bebida púrpura e os peixinhos coloridos na sua passagem pelos Alpes, e recebe – devido aos acasos bem planejados do Destino – dois pequeninos presentes que o acompanham ao longo da viagem: um pequeno livrinho com letras minúsculas e ilegíveis, e um pedaço de vidro que lhe cai como uma lupa.

É através do livrinho que se descobre a história do Curinga que é dentro de uma história dentro de outra história, que no fim de tudo vem a se encaixar como cartas espalhadas aleatoriamente pelo mundo, mas que são organizadas por uma mão invisível que trança as vidas no Destino, assim como trançou a minha com a do Curinga.

Toda aquela carta estranha, toda aquela figura que não se encaixa em nenhum baralho, toda aquela loucura que só cantarola em certas cabeças, tudo aquilo que some e aparece e some e reaparece (e some) é curinga.

Eu vou te dizer, falangeira e falangeiro e falanges não identificadas, que a história de Hans-Thomas, dos peixinhos, da bebida, das cartas de paciência de Frode e o próprio Curinga são bem reais, tão reais que você se pega emaranhado nessa trança invisível que atravessa todo o mundo e a existência. Eu também preciso dizer outra coisa que é muito bonita para quem gosta de baralho: cada capítulo dessa história do Curinga é uma carta do baralho, cada carta é um pedaço de história e a carta do curinga traz o verdadeiro ponto de revolução, um ponto muito anterior a Hans-Thomas mas que tudo tem a ver com o garoto.

Pus o livrinho de lado e olhei para o mar. O que acabara de ler havia me colocado diante de tantas perguntas que eu não tinha a menor idéia do lugar por onde começar a buscar uma resposta.

(p.137)

O Curinga foi (e não foi) embora. Ele sempre vai reaparecer para mim ou para qualquer pessoa que se dá ao prazer de observar esse – e todos os outros – mundo, que tem no lugar dos olhos uma lupa que é capaz de enxergar a beleza – e também o terror, quem sabe – daquilo de mais ininteligível, que é mais uma carta fora e dentro do baralho.

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