Falange Resenha | West of Loathing

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Vinheta da Mãe SerpenteAlguns cenários de ficção se tornaram tão marcados na memória coletiva do Ocidente que oferecem ampla possibilidade para a sátira. Personagens, locais e situações se tornaram tão frequentes que é fácil fazer piadas com a certeza de que elas serão compreendidas. Com isso em mente, West of Loathing, da Asymmetric Publications, escolheu um dos cenários mais batidos da cultura pop para criar seu RPG de humor pastelão: o Velho Oeste. Mas não deixe que os bonecos de palito e a perspectiva de piadas soem como simplicidade. West of Loathing é uma aventura extremamente bem escrita, e mesmo com todo o absurdo de sua narrativa, nunca se torna cansativo graças à maestria de seus escritores em criar uma das melhores experiências de humor em muitos anos.

Kingdom West of Loathing

Os visuais em preto e branco e os bonecos de palito são a primeira indicação de que West of Loathing se passa no mesmo universo que Kingdom of Loathing, a experiência online da Assymetric que está viva desde 2003 graças ao seu excelente bom humor. Depois de pouco tempo, no entanto, é possível perceber outras ligações, como o uso de carne como moeda de troca e goblins estranhos como inimigos do jogo. Existe até mesmo boatos de um necromancer desde o início da trama, e portais para o inferno são elementos retirados diretamente da fantasia medieval. Os demônios fugitivos, no entanto, estão mais adequados ao Velho Oeste, já que são vacas e palhaços de rodeio.

Imagem do jogo West of Loathing, da Asymmetric Publications. A imagem mostra uma boneca de palito explorando uma caverna escura com uma lanterna.
Mesmo que os gráficos sejam desenhados como rabiscos simples, existe um cuidado com a composição dos cenários, que inclui sombras que reagem a focos de luz.

Completamente absurdo em sua premissa, West of Loathing não perde nenhuma oportunidade de criar uma estória engraçada com sua própria temática, e com a cultura popular em geral. E isso começa na escolha da classe de personagem, do parceiro que irá te acompanhar pelas aventuras, e até mesmo nas opções de menu. É possível escolher fazer o jogo se adaptar à fonte padrão Arial (maldita ABNT!), adequar o jogo em preto e branco para daltônicos, e inclusive desbloquear a opção de tornar o movimento do jogador em uma caminhada boba. Só pela citação a Monty Python já é possível perceber que West of Loathing está determinado a buscar o que há de melhor na comédia.

Cada novo local, pessoa ou item encontrado evoca o mesmo objetivo, de ser uma sátira perfeita do Velho Oeste, ao mesmo tempo em que repete seus clichês. O jovem que segue em busca de aventura, ou riqueza, a Oeste de seu lar, e precisa ajudar uma locomotiva a cruzar o país. Os malfeitores, com pôsteres de procurado, que podem ser trazidos à justiça vivos ou mortos em troca de recompensas. As minas de carvão que escondem tesouros enterrados por velhos loucos da cidade. Com tanto conteúdo que é impossível aproveitar tudo o que o jogo oferece em uma única aventura, West of Loathing pede para ser rejogado, para que se possa encontrar toda piada possível, como agulhas em um palheiro. Não, é sério, todo palheiro do jogo guarda uma agulha.

Simples e funcional

Em relação à sua jogabilidade, West of Loathing não difere muito do que se espera de um RPG clássico. O combate por turnos é simplificado, de modo que cada batalha termine em apenas alguns turnos, seja o resultado a derrota ou a vitória, e as barras de vida e os pontos de magia necessários para utilizar habilidades especiais sempre se renovam a cada nova batalha. A experiência adquirida pode ser utilizada para melhorar atributos e as próprias habilidades especiais, de forma manual ou automática. Isso porque uma das opções do menu permite que a experiência seja realocada de forma equilibrada sem a escolha do jogador depois de cada combate, e assim não é necessário planejar a progressão da personagem; ideal para economizar o tempo do jogador ao reiniciar o jogo, caso ele queria ir diretamente rumo àquilo que deixou para trás na primeira vez.

Imagem do jogo West of Loathing, da Asymmetric Publications. A imagem mostra uma cripta com uma caveira vestida de papa.
Missões secundárias precisam ser encontradas para se aproveitar algumas das melhores cenas do jogo, como ver uma caveira fingindo ser o papa.

Outras opções também ajudam a tornar a experiência de West of Loathing mais acelerada, e foram pensadas para minimizar tudo aquilo que torna um RPG tedioso quando precisa ser rejogado. É possível escolher a velocidade das animações de batalha, e a velocidade da animação de deslocamento no mapa principal. É possível também escolher um destino no mapa principal independente de onde se esteja em um cenário; não é necessário procurar uma saída. Por fim, todos os textos de West of Loathing, e eles são muitos, podem ser pulados rapidamente. Todo o jogo, então, funciona de forma perfeita para que sua experiência possa ser repetida em pouco tempo, embora a primeira aventura leve uma média de 10 horas para ser concluída, principalmente quando o mapa de West of Loathing tem tanto para ver.

Enquanto segue em direção a um novo cenário, além de encontros aleatórios, novos caminhos podem ser descobertos. Alguns destinos estão associados a missões, e surgem no mapa depois de um NPC mencionar sua existência; outros locais são habilitados ao se falar com frequência com seu companheiro, escolhido no início do jogo. Além de descobrir novos locais no mapa, o companheiro também possui vantagens únicas em combate, e serve como um lembrete ambulante de sua missão atual. Dessa forma, é possível se perder à vontade entre coleta de itens e descoberta de locais novos sem nunca deixar de lado as missões principais do jogo. Isso é extremamente importante em West of Loathing, já que as centenas de itens diferentes possíveis de serem coletados no jogo podem parecer aleatórios, mas sempre encontram um local certo para ser entregue, ou ajudam a concluir uma missão secundária que o jogador só irá descobrir depois de horas de jogo.

Imagem do jogo West of Loathing, da Asymmetric Publications. A imagem mostra um mapa com dezenas de locais marcados.
Cada local descoberto se torna um desenho no mapa, e pode ser revisitado com um clique e uma pequena animação. Mesmo com dezenas de locais diferente para visitar, a mobilidade de ‘West of Loathing’ é perfeita para evitar o tédio.

O planejamento extremamente cuidadoso da programação de West of Loathing faz com que todo o mundo seja ligado por meio de seus itens e personagens, e aos poucos o jogador é cada vez mais absorvido pela ideia de um universo vivo, que reage às suas escolhas. Tudo o que um jogador de RPG precisa para sua imersão está aqui, apesar de todos os cenários serem rabiscos, e do fluxo incessante de piadas jogadas na tela, sem nunca perderem a graça. Infelizmente, West of Loathing só pode ser aproveitado por quem compreende bem o inglês, já que sem isso o humor do jogo, seu ponto mais forte, será perdido. Não há previsão para uma tradução oficial, já que, segundo os próprios desenvolvedores, a quantidade de texto do jogo torna o processo extremamente caro, e fora do que a Assymetric pode pagar no momento. Resta esperar que um fã brasileiro faça uma tradução não-oficial do jogo.