Falange Resenha | Star Wars VIII – Os Últimos Jedi

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Vinheta da Mãe SerpenteO sétimo episódio de uma das franquias mais queridas do cinema reacendeu a paixão internacional por Star Wars. O Despertar da Força (The Force Awakens, 2015) introduz novas personagens, cria momentos de tensão para fãs, e reproduz grande parte do roteiro original. Como uma homenagem extremamente bem produzida, e visualmente deslumbrante, O Despertar da Força é uma excelente introdução de novatos ao universo da franquia, ao mesmo tempo que apela para fãs de longa data, ao atualizar o roteiro de Uma Nova Esperança (A New Hope, 1977). Por mais que relembrar o passado seja sempre uma fórmula segura, é preciso também inovar para garantir a longevidade de um universo. E depois da divulgação de uma logo vermelha, surgiu certo receio de que Os Últimos Jedi (The Last Jedi) pudesse ser também uma atualização de O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980). Agora que Star Wars VIII finalmente foi lançado para o público, a primeira coisa que a Mãe quer dizer é que a nova trilogia consegue superar o peso do passado, e cria seu próprio caminho rumo a um futuro inédito.

Ainda que o roteiro de Os Últimos Jedi tenha que lidar com problemas do filme anterior, e mais alguns contratempos criados por conta própria, o filme trata do peso do passado de uma forma quase auto-crítica. E apesar da correria que algumas cenas exigem, e de falhas óbvias na montagem, o resultado final faz jus à arrecadação multibilionária dos filmes produzidos sob controle da Disney, e havia décadas que o futuro de Star Wars não parecia tão promissor.

Separados nós caímos

O final de O Despertar da Força faz com que as personagens principais se separem, em busca de objetivos próprios, apesar de concordantes. Os Últimos Jedi, então, já tem logo de cara a difícil tarefa de desenvolver várias subtramas sem uma conexão óbvia, e manter o interesse do público em cada núcleo diferente. Nem sempre isso é possível. Ao mesmo tempo que Rey (Daisy Ridley) encontra Luke Skywalker (Mark Hamill), é necessário lidar com o destino de Leia (Carrie Fisher) e da Resistência, criar novos espaços para Poe Daemon (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega), e acompanhar o desenvolvimento de Kylo Ren (Adam Driver) junto à Primeira Ordem. O desenrolar dos núcleos mais interessantes é interrompido, dessa forma, por desdobramentos menores, que parecem deslocados no meio do caminho.

Essa sensação piora no meio do filme, quando, para dificultar ainda mais as idas e vindas da narrativa, uma subtrama confusa e desnecessária é introduzida com o único objetivo de mostrar criaturas e cenários fantásticos, cheios de maquiagem e próteses. Uma marca registrada da série, mas que torna o segundo grande arco do filme cansativo, já que pouco acrescenta para o resultado final. É difícil também para a trama manter sua coerência interna por conta da decisão de criar um cronograma bem definido para todas as ações que ocorrem.

A personagem Rey olha para o oceano, em imagem do filme Star Wars VIII The Last Jedi, Os Últimos Jedi
Saber das reviravoltas políticas da Resistência é legal, mas se o tempo de tela precisa ser dividido com a expansão da mitologia Jedi, Rey e Luke Skywalker, é óbvio o núcleo que vai mais agradar aos fãs.

Após uma apresentação maravilhosa de todos os núcleos, Os Últimos Jedi define um prazo de poucas horas para que o desfecho derradeiro da batalha da Primeira Ordem contra a Resistência ocorra. É um período de tempo muito curto para que tudo o que foi previsto aconteça, e as reviravoltas e novas relações construídas nesse intervalo soam artificiais, prejudicando a verossimilhança e a imersão. Existe também a necessidade de que todas as personagens se encontrem em um local e momento exatos, apesar dos dois principais núcleos possuírem um óbvio afastamento espacial e temporal. Essa exigência, junto da pressa, muitas vezes faz com que a montagem deixe a desejar. Cenas são colocadas em sequência para permitir confrontos e batalhas épicas, sem grande preocupação com a coerência do filme.

Mesmo com falhas marcantes, assim como em Rogue One (2016), é o terceiro ato que mostra o quão brilhante Star Wars pode ser. No fim das contas, os erros serão facilmente perdoados, já que as viradas na estória compensam qualquer problema que se possa ter com o filme.

Surpresa, superação e os últimos Jedi

Já faz dois anos que dezenas de teorias foram criadas, compartilhadas e discutidas sobre os novos elementos introduzidos em O Despertar da Força. Os Últimos Jedi faz o melhor que pode para responder às principais perguntas dos fãs, e muitas das revelações vão além de todas as expectativas. A relação de Luke com a Academia Jedi antes de Ben assumir o manto de Kylo Ren dá uma nova perspectiva para personagens conhecidas, e a revelação final da ascendência de Rey é perfeitamente apropriada para o que a série traça como futuro.

Os Últimos Jedi, em seu cerne, é um filme sobre o passado, e como nossa vida é afetada por escolhas e decisões de outra hora. Personagens e filme, então, se encontram em uma mesma jornada, com o objetivo de se livrar de todas as amarras para buscar um futuro melhor. Sem desrespeitar em nada o cânone de Star Wars, Os Últimos Jedi dá mais complexidade para ambos os lados do conflito, e é possível conhecer mais das intenções, objetivos e disputas tanto da Resistência quanto da Primeira Ordem. É um esforço recente da Lucasfilm de superar a simplicidade do bem contra o mal, e mostrar que grande parte de todo conflito passa por diferentes perspectivas de como resolver o mesmo problema.

Imagem do filme Star Wars The Last Jedi, Os Últimos Jedi que Luke Skywalker em uma biblioteca dentro de uma árvore.
Ao invés de centrado, o Luke Skywalker de ‘Os Últimos Jedi’ apresenta os conflitos da Ordem Jedi, e com isso torna a mitologia mais interessante.

Mais do que o bem e o mal puros, Os Últimos Jedi fala sobre equilíbrio, e a necessidade de forças opostas se balancearem. Os dois lados do conflito, então, terão vitórias, e derrotas, ao longo do filme, enquanto qualquer necessidade de se basear em obras passadas é superada por decisões ousadas do roteiro, que subvertem as expectativas até mesmo de quem passou o ano inteiro discutindo o futuro da franquia. Os Últimos Jedi consegue dar um final satisfatório para todas suas personagens, elimina os excessos deixados para trás em O Despertar da Força e prepara terreno para um conclusão épica com o Episódio IX. Algumas das perguntas em aberto deveriam ter sido respondidas aqui; porém, considerando a quantidade de elementos que foram trabalhados no filme, Os Últimos Jedi tem um resultado mais do que satisfatório, sendo um dos melhores filmes da série.

Sobre beleza, fofura e humor

Não é nenhuma novidade que Star Wars tenha uma grande preocupação com seus efeitos visuais. Não só porque é um blockbuster feito para impressionar um imenso número de pessoas, mas porque desde 1977 a franquia se estabeleceu por visuais impressionantes. Os Últimos Jedi toma para si o desafio de ser ainda mais belo que os filmes anteriores, e algumas de suas cenas estão entre as tomadas mais bonitas já criadas pelo cinema. O combate final, sobre um deserto de sal vermelho, usa ao máximo do efeito de partículas para construir a profundidade da cena. E uma explosão em silêncio representa uma subversão rara na fórmula da série, com um resultado de tirar o fôlego. São momentos fáceis de identificar, e que merecem uma atenção maior nos cinemas.

Outra marca registrada da série, a introdução de criaturas carismáticas é essencial para alimentar o mercado de brinquedos e outros produtos derivados. Nesse aspecto, BB-8 perdeu o posto de personagem mais fofa da nova trilogia, e não vai demorar muito para que versões em pelúcia dos porgs invadam todas as casas do planeta. Os bichinhos ainda abrem espaço para muitos dos momentos de humor do filme, tornando as duas horas e meia de Os Últimos Jedi uma experiência mais leve. Infelizmente, o uso de humor segue a tendência de filmes mais recentes de super-heróis, e momentos de tensão se veem invadidos por risadas inadequadas.

Imagem do filme Star Wars The Last Jedi, Os Últimos Jedi que mostra um porg.
Oi, eu sou um porg! E você vai se apaixonar por mim!

Para o bem ou para o mal, Os Últimos Jedi é também o filme mais engraçado de Star Wars, com piadas e momentos cômicos inseridos em cenas dedicadas ao confronto e aos sentimentos conflituosos das personagens. Se o bom humor é necessário, é preciso também respeitar as ocasiões que devem levar o espectador a sentir outras emoções. Mas essa parece ser uma tendência do cinema popular contemporâneo, que identifica angústia, tristeza ou inquietação com sensações ruins, que precisam ser quebradas por alívios cômicos. Os Últimos Jedi não é atrapalhado de forma significativa por essa escolha, mas é necessário prestar atenção para que filmes futuros não percam o espaço indispensável para que o público sinta diferentes emoções ao longo do filme.