Falange Resenha | Please Knock on My Door

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Vinheta da Mãe SerpenteExiste um motivo bem simples para a Mãe não ter jogado Please Knock on My Door na época de seu lançamento; ela não fazia ideia da existência desse jogo. Com a popularização de ferramentas acessíveis de programação, acesso à informação e aumento da importância dos jogos como forma de expressão, milhares de títulos são lançados todos os anos. A maioria passa despercebida. Uma pena que não possamos conhecer tudo, pois em meio a tantos projetos incompletos e cópias de outros jogos, vez ou outra descobrimos uma pérola. Please Knock on My Door entrou no radar da Mãe logo depois do The Game Awards 2017, quando competiu pelo prêmio de Jogo Impactante ao lado de gigantes de popularidade como Hellblade: Senua’s Sacrifice (Ninja Theory) e What Remains of Edith Finch (Giant Sparrow). Uma indicação merecida, considerando o objetivo, bem executado, de Please Knock on My Door: servir como um simulador de depressão, e chamar atenção para o problema da saúde mental, tão estigmatizada e diminuída como algo sem importância.

Please Knock on My Door | O jogo

A ideia de Please Knock on My Door é que o jogador possa acompanhar as atividades cotidianas de uma pessoa depressiva, e tentar, com suas ações, chegar a um desfecho feliz e otimista depois de alguns dias. Parece uma tarefa fácil para uma pessoa saudável, mas que exige muito da fortitude mental de alguém que sofre de depressão. Ao longo de cada dia, as diversas ações realizadas pelo protagonista irão afetar dois contadores: um valor bruto de fortitude mental, e um modificador dessa fortitude. Enquanto o número bruto aumenta ou diminui de acordo com as ações selecionadas, o modificador tem efeito na hora de dormir, ou quando um evento externo negativo ocorre. Nessas ocasiões, um modificar negativo faz com que o total de fortitude mental diminua drasticamente, enquanto um valor positivo ajuda o protagonista a não perder o controle no caso das coisas não seguirem o caminho pretendido.

É interessante observar que o equilíbrio entre o número total e o modificador pode nem sempre ser óbvio. Se forçar a jogar videogames, por exemplo, melhora a fortitude geral, já que permite se desligar do mundo e esquecer momentaneamente de problemas. Isso, no entanto, diminui o modificador, já que a repressão dos problemas não ajuda a ter uma boa noite de sono, ou superar a doença. De forma contrária, refletir sobre um problema pode piorar sua fortitude mental de forma direta, mas lidar com problemas é essencial para um modificador positivo, que a longo prazo ajudam a controlar a doença. É uma sensibilidade rara em um jogo que lida com essa temática, e que ajuda o grande público a entender o funcionamento da depressão: atividades agradáveis de forma imediata nem sempre ajudam na recuperação, enquanto coisas que não são prazerosas podem ser necessárias para que não se deixe consumir pela depressão.

Imagem do jogo Please Knock on My Door, de Michael Levall na Levall Games. A imagem mostra um apartamento, visto de cima, formado por quadrados, onde uma personagem luta contra pensamentos para poder dormir.
Pensamentos que invadem a mente na hora de dormir e impedem o descanso, mas que precisam ser enfrentados para que a doença seja compreendida. Não há soluções completamente satisfatórias em ‘Please Knock on My Door’, apenas escolhas de curto e longo prazo.

De forma ainda mais crua, e cruel, Please Knock on My Door demonstra de que forma a depressão consome de forma cada vez mais definitiva a vida de alguém. Depois de alguns dias com baixa fortitude mental, as tarefas cotidianas passam a ter novos significados, representados pela mudança do nome que define cada opção. “Dormir” se torna “segurança”; “refeição” se torna “nauseado”; “tomar banho” se torna “conforto”. Mais do que atividades diárias, as coisas que estão ao redor da pessoa depressiva começam a ser vistas como insuportáveis, e mesmo que o jogador queira reverter o processo nesse ponto, e recuperar pontos perdidos, é cada vez mais difícil não ter sua fortitude drenada, e manter modificadores positivos. O jogo foi construído de tal forma que quanto pior se começa uma semana, mais difícil se tornar reverter o quadro profundo de depressão, até o ponto em que o próprio jogador sente que não tem controle sobre a situação; suas ações não têm importância e não funcionam para deixar o mundo melhor. Uma simulação brutal do quadro depressivo.

Narrador e experiência

Ao longo de Please Knock on My Door, um narrador acompanha o jogador, julgando suas ações e recomendando atividades. Essa voz irá mudar dependendo do grau da crise depressiva. Ela pode ser branca, quando se esforça para que sua rotina seja seguida, e que você esteja sempre pronto para chegar no trabalho a tempo. Ou ela pode ser vermelha, quando sua fortitude já está tão abalada que até o narrador insiste em tornar a vida cotidiana ainda mais insuportável. É um conflito interno interessante, que muda também o papel do próprio jogador ao longo da experiência. É possível jogar como uma consciência, que se esforça para que tudo dê certo. Ou como a depressão, forçando ações que irão prejudicar a vida do protagonista. De qualquer forma, uma força invisível, que tem um papel extremamente importante do processo de reabilitação ou de decadência definitiva.

Imagem do jogo Please Knock on My Door, de Michael Levall na Levall Games. A imagem mostra um apartamento, visto de cima, formado por quadrados, onde uma personagem não tem fortitude mental suficiente para falar com pessoas pelo computador.
A falta de fortitude mental ainda prejudica outras ações, pois impede o protagonista de falar com amigos, ou até mesmo de tomar banhos mais curtos para não se atrasar.

A Mãe já tratou da forma como escolhas cotidianas afetam pessoas saudáveis e depressivas de forma diferente aqui na Falange, quando entrevistou a designer brasileira Thais Weiller, depois do lançamento de Rainy Day (2016). Assim como Rainy Day, Please Knock on My Door também foi produzido por um designer que lidou com a depressão de forma direta, o sueco Michael Levall. Levall encontrou nos videogames uma forma de expressar sua batalha pessoal, e alcançar pessoas que sofrem do mesmo problema, conhecem alguém que sofra, ou apenas queiram entender melhor uma doença que afeta milhões de pessoas.

Please Knock on My Door é um jogo essencial para a atualidade, já que apesar de cada vez mais informação disponível, a depressão continua a ser desqualificada como tristeza passageira, tentativa de chamar atenção ou frescura. É necessário que se compreenda a capacidade da doença de afetar a vida cotidiana, e o quanto a depressão impede uma pessoa de ter uma vida plena. Ou pior, faz com que a própria existência deixe de ter sentido. Para quem não se preocupa com pontos e objetivos, Please Knock on My Door ainda tem modos de jogo diferentes, em que é possível desconsiderar a parte mais voltada ao jogo, e apenas navegar pela estória. São decisões de design que estão a favor do uso do jogo como ferramenta de divulgação, mesmo para quem não tem o hábito de consumir videogames. Infelizmente, Please Knock on My Door não possui uma tradução para o português, e por enquanto pode apenas alcançar o público que compreende inglês.