Falange Resenha | O Paradoxo Cloverfield (The Cloverfield Paradox)

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Vinheta da Mãe SerpenteNo último domingo, dia 4 de fevereiro, a Netflix fez um anúncio repentino durante o maior evento esportivo e midiático dos Estados Unidos. Não só o canal adquiriu os direitos da franquia Cloverfield, com dois filmes já planejados, como o primeiro desses filmes estaria disponível logo após o anúncio. Um lançamento mantido em segredo até o último instante, junto do instigante título O Paradoxo Cloverfield (The Cloverfield Paradox), foram dois fatores que aguçaram a curiosidade de milhões de pessoas e transformaram a produção em um sucesso imediato de público. Bom para a franquia. Porque se não fosse por um golpe publicitário, dificilmente O Paradoxo Cloverfield se sustentaria por sua própria qualidade.

Realmente, um paradoxo

Em poucos minutos, O Paradoxo Cloverfield apresenta os elementos básicos de sua trama. A Terra passa por uma grave crise energética, que pode levar as grandes nações do mundo a iniciarem uma nova guerra mundial. Para evitar o pior, cientistas de todo o mundo são enviados a uma base espacial, para testarem a tecnologia de fusão de partículas e assim criarem uma fonte quase ilimitada de eletricidade. Quando o sucesso parece finalmente chegar, algo dá extremamente errado e os astronautas precisam lutar por sua própria sobrevivência e pelo futuro da humanidade. É uma trama já conhecida, utilizada há décadas pela ficção científica. Ainda assim, tinha tudo para dar certo, já que os dois filmes anteriores também partem de lugares-comuns do cinema, com algum tipo de surpresa estética ou narrativa para chocar os espectadores.

Cloverfield – Monstro (Cloverfield, 2008) surpreende ao fazer um filme de monstros destruidores de cidades a partir do chão, em uma perspectiva em primeira pessoa. Já Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane, 2016) subverte a fórmula do assassino em série ao introduzir uma invasão alienígena nos minutos finais do longo. O Paradoxo Cloverfield, por sua vez, está tão preocupado em criar uma desculpa que una todos os filmes sob um mesmo universo que é incapaz de conduzir sua trama respeitando o tom necessário para um thriller espacial. Motivos frágeis e incoerentes surgem para obrigar personagens a se separarem e serem vítimas óbvias dos perigos da nave. E mesmo objetos são introduzidos de forma aleatória apenas para justificar desenvolvimentos previsíveis e desnecessários.

Claramente inspirado em O Enigma do Horizonte (Event Horizon, 1997), O Paradoxo Cloverfield se esforça ao máximo para criar situações assustadoras a partir do deslocamento do espaço-tempo; a maior parte dessas cenas, no entanto, se torna cômica, já que não há uma montagem clara o suficiente para que qualquer tensão seja criada. Explosões, ataques alienígenas e uma já esperada sucção de personagens para o vazio do espaço se multiplicam pelo filme, tentando a todo instante distrair o espectador do fato de que a narrativa global não faz sentido. Não que O Paradoxo de Cloverfield seja de todo ruim, porém mediocridade não é o que se espera de uma franquia que sempre prometeu algo mais do que distrações vazias.

Imagem do Filme O Paradoxo Cloverfield, ou The Cloverfield Paradox, lançado pela Netflix. A imagem mostra uma mulher loira e magra sentada sobre uma maca.
O elenco interpreta uma equipe extremamente heterogênea, com o amplo uso de múltiplas línguas para reforçar a diferença e fazer o espectador compreender a importância global da missão dos astronautas. Uma estratégia parecida com ‘Vida’ (‘Life’, 2017, resenha aqui).

Por fim, a explicação definitiva para a conexão de todas essas produções deriva de uma solução preguiçosa. Sim, com essa explicação todos os filmes fazem sentido no mesmo universo, mas isso não a torna mais satisfatória. Pelo contrário, a inclusão de dimensões paralelas e realidades alternativas destrói a possibilidade de uma ligação direta entre cada filme. Fica sob a responsabilidade do destino e da aleatoriedade a existência de monstros e alienígenas, seja no presente, no passado ou no futuro.

Considerando que o próximo filme tem nazistas sobrenaturais como vilões, a solução chegou bem a tempo. A esperança da Mãe, agora, é que Cloverfield se torne uma série antológica. Cada novo filme tem sua própria ameaça, ligada aos eventos de O Paradoxo Cloverfield mas livre de continuidades e origens. Assim, os próximos filmes podem se preocupar mais em criar experiências interessantes do que com grandes universos.

Imagem do Filme O Paradoxo Cloverfield, ou The Cloverfield Paradox, lançado pela Netflix. A imagem mostra um homem parado em frente a uma cidade destruída.
Subtramas dispensáveis também prejudicam o filme, ao impedir que os eventos que deveriam ser os principais se desenvolvam sem interrupções muitas vezes abruptas.

Considerando o roteiro original, que era completamente diferente, fica claro que O Paradoxo Cloverfield foi recortado e remontado à exaustão, devido a um histórico conturbado de produção. O que poderia ter sido um filme de ficção científica agradável para fãs do gênero terminou como uma peça confusa de publicidade, cujo mérito permitido foi apenas o de manter viva uma franquia que agora deve ganhar sequências sem fim, alimentada pela ganância de distribuidoras e pela megalomania de J. J. Abrams. Apesar de uma fotografia interessante e de um elenco competente, O Paradoxo Cloverfield foi sabotado durante anos para se transformar na pedra angular de uma franquia que não precisa existir no formato de um universo compartilhado.

God Particle The Cloverfield Paradox

Foi em 2012 que começou a produção de um thriller de ficção científica e pitadas de horror chamado God Particle, Partícula de Deus em uma tradução literal. A trama seguiria um grupo de astronautas isolados em uma base espacial, que devem descobrir como voltar para casa depois de um experimento dar errado. Simples, direto e eficiente. Não demorou muito, no entanto, para que God Particle fosse revelado como o terceiro filme Cloverfield. Desde então, a estreia nos cinemas foi constantemente adiada, até que em janeiro desse ano, 2018, boatos sobre uma compra dos direitos pela Netflix se espalharam pela mídia especializada. Aparentemente, a Paramount, a distribuidora original, não tinha confiança de que o filme, com um orçamento de 40 milhões, pudesse ser lucrativo nos cinemas. A Netflix, no entanto, encontrou um jeito de gerar indicadores positivos com uma ação publicitária extremamente bem sucedida.

O anúncio no Superbowl atingiu dezenas de milhões de pessoas no mundo todo; mesmo muita gente que não gosta de esportes, ou do evento, sempre assiste ao intervalo, recheado de celebridades e anúncios especiais de empresas de mídia. A notícia de um novo Cloverfield se espalhou como um vírus, alimentado pelo peso que a Netflix deu ao projeto com sua divulgação surpresa e pela mudança do nome original de God Particle para The Cloverfield Paradox. E do conforto de seu lar é muito mais fácil experimentar um novo produto do que ter que correr para um cinema, com aquele ingresso que custa um familiar próximo e uma barra de ouro. Um filme que provavelmente seria um fracasso de bilheteria se transformou em um sucesso instantâneo.

Apostar alto na curiosidade para gerar um número altíssimo de visualizações o mais rápido possível é um indício de que a Netflix, assim como a Paramount, não tinha muita confiança no produto recém comprado. Mas esse é o mercado virtual, onde o que vale são os cliques, e não a qualidade. A Netflix entendeu perfeitamente o modelo de seu negócio.

Imagem do Filme O Paradoxo Cloverfield, ou The Cloverfield Paradox, lançado pela Netflix. A imagem mostra um grupo de astronautas olhando assustados por uma janela e gritando.
Netflix, querida, apenas pare.

Vale a pena ver O Paradoxo Cloverfield?

Depois de seis anos de produção com remontagens e reescritas externas, uma premissa interessante se transformou em uma colcha de retalhos mal costurada. A preocupação de criar um universo que possa ser explorado em filmes futuros é mais importante em O Paradoxo Cloverfield do que a construção de uma narrativa coerente. Uma enorme oportunidade desperdiçada, o filme não consegue ser mais do que um entretenimento raso, apesar do excelente elenco e do enorme potencial narrativo. O maior crime de O Paradoxo Cloverfield, no entanto, é acreditar que o que define a franquia são apenas eventos bizarros ao invés de viradas inteligentes de roteiro e um clima constante de ameaça. Previsível e incapaz de gerar tensão, O Paradoxo Cloverfield se tornou o principal filme da franquia por força bruta, mesmo que não faça justiça aos seus antecessores.