Falange Resenha | O Touro Ferdinando

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Vinheta de AdelfaOlá, sementinhas! Vocês sabem como amo desenhos e animações, e por isso não pude perder o lançamento da adaptação do clássico infantil O Touro Ferdinando. Ele é bem conhecido pelo curta que a Disney lançou em 1938, com o nome Ferdinando, O Touro, dirigido por Dick Rickard. Curta esse que rendeu a premiação no Oscar de melhor curta-metragem de animação na edição de 1939. A história segue a vida de um touro que não queria brigar como os outros, apenas desejava cheirar as flores e repousar sob a sombra de uma árvore para olhar a paisagem.

Porém, essa animação também é uma adaptação da obra de Munro Leaf, escritor americano que lançou Ferdinando, O Touro (The Story of Ferdinand) em 1936. Apesar de ser um livro infantil, com ilustrações feitas por Robert Lawson e relativamente pequeno (dizem que o autor o escreveu numa tarde), o contexto histórico de seu lançamento não colaborou muito.

Capa do livro A História de Ferdinando ( The Story of Ferdinand), escrito por Munro Leaf em 1936.
Capa do livro A História de Ferdinando (The Story of Ferdinand), escrito por Munro Leaf em 1936.

Por ser um livro que passa mensagens como respeito às diferenças, amizade, liberdade de escolha, entre outros aspectos, foi proibido em alguns países por ser considerado “pacifista”, num período no qual haviam diversos governos facistas. O livro sobre a história de Ferdinando sofreu problemas até mesmo onde a sua história se passa, na Espanha. Foi lançado nove meses antes de se intensificar a Guerra Civil Espanhola, considerado subversivo na Europa e, em especial, na Espanha, que estava sob o domínio do ditador Francisco Franco. Isso me faz pensar em como a Disney é corajosa em fazer uma adaptação de uma história com essa repercussão.

Parte do livro A História de Ferdinando que inspirou o filme O Touro Ferdinando.
Início do livro A História de Ferdinando.

Mas e a nova adaptação?

Acho legal contextualizar a situação em que O Touro Ferdinando está sendo lançado. Tendo como diretor o brasileiro Carlos Saldanha e realizado pelo estúdio Blue Sky (Rio, A Era do Gelo), o filme é significativo porque sai no meio da transação em que a Disney comprou a Fox. Ainda é incerto se o estúdio ainda irá existir daqui a algum tempo, então a importância dessa animação para a Blue Sky é imensa. Foram cerca de 7 anos com a ideia de produzir O Touro Ferdinando e pensar num roteiro que rendesse um longa (a história de Ferdinando é relativamente pequena e simples para ser tornar um longa).

E creio que esse é o maior problema que senti. Não digo que haviam situações desnecessárias, mas sim personagens que podiam não existir, e cuja ausência seria imperceptível. Os cavalos… Cara, só são chatos mesmo e ponto, além de renderem mais tempo para o filme. O roteiro é simples, o que não é ruim, já digo. Mas uma coisa me incomoda (spoiler?! Não sei): como a menina, Nina, sabe qual diabos é o nome de Ferdinando quando começa a criar ele em sua casa, sendo que ela não o compreende?! Fica no ar isso. E sinceramente, não chega a ser um problemão, o filme ainda é divertido apesar disso.

Apesar de ter personagens que não interferem tanto na história, os demais são carismáticos o suficiente para arrancarem sorrisos e preocupação por quem assiste ao filme.

Ferdinando e seus amigos em cena do filme O Touro Ferdinando.

Tem características da Espanha?

Não posso dizer sobre as paisagens, nunca fui à Espanha. Mas foi interessante como os personagens, principalmente na cidade onde acontece o festival das flores, tinham características regionais. Em geral, não me pareceu algo “americanizado” demais. Quer dizer, se não pensarmos na trilha sonora, da qual ressaltaram a música do Ed Sheeran no trailer, mais do que as demais canções, essas com características pensadas na música espanhola. Mas relaxa, ao longo do filme fica claro onde está a história por causa dessas músicas; não dá para esquecer o contexto espanhol.

O responsável pela trilha sonora foi John Powell, que compôs as trilhas sonoras de Peter Pan (2015) e Como Treinar o Seu Dragão (How To Train Your Dragon, 2010). Segue as músicas que compõem a trilha sonora do filme: Bees And Bulls; Selection Process; Father And Son; Finding Home; A New Day; Flower Festival; There’s Been A Mistake; Lupe And Ferdinand; Lipizzaners And Ferraris; Ferdinand And Nina; Bull Olympics; Sunsets In The Training Yard; Escape from ‘The Spa’; Highway Chase; From Train Station To Arena; Madrid Finale.

Algo que fico feliz de não ter acontecido na dublagem brasileira foi a tentativa de sotaque espanhol para todos os personagens. Como já esperava, a fala não foi totalmente limpa; há personagens que possuem em O Touro Ferdinando um sotaque que deveria parecer espanhol, sem sucesso. No entanto, eles não são necessariamente personagens principais, e possuem diálogo mínimo durante o filme, assim o incômodo é menos pior. Bem menos pior.

Por que gostei de O Touro Ferdinando?

O Touro Ferdinando, diferente de algumas outras animações que são voltadas tanto para o público infantil quanto para o adulto, é mais direcionada apenas ao infantil. Mas não é um filme direto ou explicativo todo o tempo. Foca em sensações e sentimentos, mensagens que deseja passar apenas mostrando ao invés de contando. Em outras palavras, o filme é voltado para crianças e, ao mesmo tempo, não as subestima. Sabe que elas entenderão. Isso é simplesmente bom, pois apesar de todos os momentos cômicos (que são muitos), assuntos mais delicados como violência, preconceito e intolerância estão ali, mesmo sem ser de forma direta. O jeito com que tratam a morte no filme é lindo, por exemplo; não é necessário muitas palavras, apenas a imagem e o vazio (a criança na sessão em que estava disse alto “fulano morreu?!” para o adulto ao lado).

Cena do filme O Touro Ferdinando em que Ferdinando e sua dona estão em um sofá.

Outro aspecto que achei interessante é a mudança no roteiro que retirou a mãe de Ferdinando e incluiu seu pai no lugar da figura adulta. No curta, por exemplo, sua mãe é compreensiva com ele e se preocupa em como seu filho será no futuro. Bem coisa de mãe, não é?! Aí que está. Na nova adaptação, seu pai possui esse papel de compreensão com seu filho; mesmo sendo um grande lutador, sabe que para Ferdinando o mundo poderia ser cruel. Acho interessante esse posicionamento que foge da figura patriarcal familiar.

Por fim, o filme é mega divertido! Ri bastante. Há quem diga ser um forte concorrente ao Oscar de melhor animação. Mas não podemos esquecer que Viva: A Vida é uma Festa (Coco, 2016) está nessa jogada.

Pois bem, queridos, chegamos ao fim. Assistam se tiveram a oportunidade, ou se estiverem afim de uma nostalgia caso conheçam o desenho ou a história da sua infância. <3 Sempre bom ter filmes com mensagens de paz nesse mundo intolerante, não é mesmo?!

Beijinhos espinhosos e até, falangeiros do meu jardim! Ah! Não deixem que curtir nossa página no Facebook e acompanhar outras resenhas! <3