Falange Resenha | Hello Neighbor

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Vinheta da Mãe SerpenteDesde que foi anunciado em 2015, Hello Neighbor ganhou, pouco a pouco, uma legião de fãs ansiosos. A ideia inicial era um jogo de horror e stealth em que é preciso descobrir o segredo macabro que um vizinho diabólico esconde em seu porão. Depois de uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida, e longos meses de acesso antecipado, Hello Neighbor cresceu até o ponto de engolir a si próprio. Os elementos de puzzle se tornaram cada vez mais centrais, a ponto da perseguição virar um empecilho, ao invés de um estímulo. E as promessas repetidas em relação ao mistério guardado no porão não deram espaço para um conclusão satisfatória. Contudo, a principal falha de Hello Neighbor na data de seu lançamento é a imensa quantidade de bugs e a falta de polimento de suas mecânicas. Um resultado injustificado, considerando que a etapa final do desenvolvimento do jogo ocorreu junto a uma grande base de jogadores, que atuaram também como uma equipe de teste engajada com um produto final o mais perfeito possível.

Boas ideias não bastam

Rever os primeiros trailers de Hello Neighbor, como esse logo acima, é um exercício de decepção e esperança. O conceito inicial é tão brilhante, e a execução das primeiras versões tão eficiente, que é difícil escrever sobre os muitos pontos negativos que o jogo possui em seu lançamento. Principalmente quando a desenvolvedora, Dynamic Pixels, cedeu uma cópia para a Falange. A esperança que fica, então, é de que o trabalho sobre Hello Neighbor continue, a ponto do resultado final exceder as expectativas de jogadores.

Em Hello Neighbor, o jogador controla uma personagem que, levada por sua curiosidade, toma para si a missão de invadir a casa de seu vizinho, e descobrir a origem dos gritos e barulhos que vêm de seu porão. A casa do vizinho, no entanto, foi construída para proteger esse segredo, e o jogador precisa utilizar os objetos à sua volta de forma criativa para enganar o vizinho. Isso porque toda vez que é pego, o jogador é expulso da casa, e o vizinho começa a melhorar o seu sistema de segurança. Baldes de água são pendurados no topo de portas, para nublar a visão em uma eventual fuga. Câmeras de segurança são instaladas, armadilhas de urso são colocadas sob janelas muito utilizadas, e tábuas de madeira começam a tapar entradas fáceis. Ser capturado, então, significa ter um desafio ainda maior na próxima invasão, e é preciso ser cada vez mais criativo e ágil para encontrar chaves e desbloquear portas.

Gif do jogo de stealth, comédia e horror Hello Neighbor, desenvolvido pela Dynamic Pixels. AO Gif mostra o jogador, nos olhos de uma criança, vendo o vizinho trancar algo no porão.
Seja lá o que ele guarda no porão, essa coisa faz barulho… e grita?

Em um imenso jogo de gato e rato, o jogador é convidado a ligar aparelhos eletrônicos para atrair a atenção de seu inimigo, se esconder em armários e debaixo de camas, e quebrar janelas para criar atalhos. Conforme descobre novas ferramentas, é possível também destrancar portas, liberar o trajeto de escadas e remover tábuas. O avanço da inteligência artificial, dessa forma, é equilibrado pela variedade maior de recursos à disposição do jogador. Com o objetivo de tornar o jogo sempre desafiador, independente de quão avançado o jogador esteja na resolução dos puzzles necessários para prosseguir.

Contribui para o charme inicial do jogo sua identidade visual própria, cartunesca e suburbana, com referências vastas aos anos 50 dos Estados Unidos. E caso o desenvolvimento final de Hello Neighbor seguisse o objetivo de criar suspense, e promover uma perseguição constante, as escolhas estéticas não estariam deslocadas da gameplay. O estado final do jogo, no entanto, faz com que os gráficos contribuam para que o clima de ansiedade se desfaça, e a perseguição do vizinho logo deixa de se tornar um desafio bem vindo para ser um incômodo.

Hello Neighbor | Stealth ou puzzle?

Conforme avança pelos três atos da estória, o jogador encontra uma versão cada vez mais complexa da casa do vizinho, e as ferramentas que deve utilizar para prosseguir são mais numerosas, mais espalhadas, e menos óbvias. Os elementos de stealth nunca deixam de estar presentes, ao longo de Hello Neighbor. Apesar disso, é mais fácil correr pelo cenário à procura da próxima chave do que se preocupar em avançar cuidadosamente. A inteligência artificial do vizinho é extremamente adaptativa, o que gera um desafio interessante. Sua velocidade, no entanto, torna toda fuga uma corrida a toda velocidade, com pouca possibilidade de reação. E como os controles não são extremamente intuitivos, a tarefa de fugir logo se torna repetitiva e desestimulante. Principalmente pelo aprofundamento de puzzles.

A casa do vizinho funciona como um grande quebra-cabeças. Além de chaves que destrancam cadeados, o jogador precisa pensar em como as mudanças em encanamentos, e no fluxo de água, podem lhe oferecer alguma vantagem. E mais adiante, de que forma itens improváveis dão acesso a geradores, ou como ações surreais em um cômodo específico alteram a natureza de portas e paredes em outro canta da construção. Cada vez maior, com mais cômodos e passagens, transitar pela casa do vizinho enquanto se tenta descobrir o que exatamente uma determinada alavanca faz é uma tarefa muitas vezes incômoda. E isso sem considerar a presença do vizinho.

Como a solução dos desafios depende, em grande parte, de tentativa e erro, é preciso se deslocar por cenários cada vez mais extensos testando as funções de um número cada vez maior de objetos. E isso com uma capacidade limitada de espaço para carregar itens. A presença do vizinho, ao invés de incentivar o jogador a criar novas formas de invadir a residência, prejudica a experimentação. E ser capturado ao acaso, em um encontro inesperado, depois de percorrer um longo caminho, é uma frustração desnecessária.

Imagem do jogo de stealth, comédia e horror Hello Neighbor, desenvolvido pela Dynamic Pixels. A imagem mostra uma casa imensa, com muitos puxadinhos.
Além de um psicopata, o vizinho também é perito em puxadinhos.

Para compensar a alta chance de captura que o vizinho oferece para os jogadores, especialmente quando ainda inexperientes no jogo, todos os itens coletados permanecem em posse do jogador. Objetos necessários para completar um ato também podem ser colocados em locais seguros e de fácil acesso, e nunca retornam a seus locais de origem. Atalhos e alavancas também permanecem ativos. Na prática, tudo isso desestimula ainda mais o jogador a investir na furtividade. Quando o incômodo com a perseguição se torna grande demais, é melhor arriscar correr o mais rápido possível até o próximo objeto, e agarrá-lo antes de ser capturado, garantindo o sucesso da empreitada.

Os cenários de Hello Neighbor são extremamente bem construídos, cheios de detalhes interessantes, e até mensagens escondidas. São elementos introduzidos para estimular o debate fora do jogo e agregar valor à comunidade de fãs. Acaba que, como as mecânicas de stealth são subutilizadas, sobra pouco tempo para investigar esses segredos com a devida atenção. Apesar de todos esses problemas, balancear a velocidade do vizinho, e permitir que a introdução de armadilhas seja mais gradual, ao invés de abrupta, são mudanças que podem melhorar o estado do jogo, que também sofre de glitchs sonoros e visuais, e bugs que chegam a travar por completo o progresso no jogo.

Expectativa e desilusão

É quase regra nos dias de hoje: jogos têm problemas no seu lançamento. Problemas de desempenho, desequilíbrio em sua dificuldade, crashes. E com uma resposta rápida dos desenvolvedores, o impacto negativo desses problemas pode mesmo ser revertido. Jogadores gostam de produtores que se importam com quem já gastou seu dinheiro, ao invés de só se preocupar com vendas futuras. No caso de Hello Neighbor, no entanto, a presença de erros graves é difícil de justificar, por mais que a Dynamic Pixels já tenha lançado dois patches para consertar problemas mais graves. Isso porque Hello Neighbor passou por acesso antecipado, e assim teve acesso uma equipe de testes com milhares de integrantes, trabalhando de graça para melhorar o jogo final. Pior, pagando para trabalhar na melhoria desse jogo.

É decepcionante ver sombras e luzes surgirem do nada, devido a um atraso no seu carregamento. Ou perceber que objetos se movem sozinhos e entram nas paredes. Ou ouvir estalos incômodos em determinadas seções. A quantidade enorme de bugs e falhas de Hello Neighbor chega a comprometer de forma definitiva alguns saves, com chaves que desaparecem ou com tábuas colocadas pelo vizinho que impedem o acesso de uma região que precisa ser explorada. Em mais de dez horas de jogo, a Mãe foi lançada no ar através do teto, ficou presa por uma parede invisível fora do mapa de jogo, e chegou a encontrar uma sala branca com um QR Code poético. O jogo também sofreu de quedas abruptas, e telas de carregamento lentas.

Imagem do jogo de stealth, comédia e horror Hello Neighbor, desenvolvido pela Dynamic Pixels. A imagem mostra o jogador voando acima na casa com uma chave inglesa na mão.
Pelo menos a vista de cima era bonita…

A desilusão maior de Hello Neighbor, todavia, deriva de suas escolhas narrativas. Durante mais de dois anos se alimentou um segredo escondido no porão. Qualquer revelação possível seria inferior à expectativa dos fãs, depois de tanto tempo com pistas, suspeitas, teorias e mesmo mensagens escondidas em cada versão anterior. O final oficial, no entanto, apesar de interessante em alguns aspectos, não é construído de maneira satisfatória para novatos em Hello Neighbor, e causou uma reação extremamente negativa, em massa, de quem acompanha o jogo há mais tempo. Até porque alguns dos finais incompletos de versões anteriores eram mais interessantes para a abordagem prometida.

Bugs podem, e devem, ser concertados. Falhas gráficas são facilmente revertidas. Até mesmo o balanceamento das mecânicas de jogo consegue ser realizado após o lançamento. Mesmo assim, será difícil para a Dynamic Pixels superar a recepção conturbada que Hello Neighbor tem desde seu lançamento, na última sexta-feira. O conceito do jogo ainda consegue ser brilhante, e em muitos pontos de sua execução Hello Neighbor é uma experiência memorável. É preciso cautela, no entanto, antes de adquirir o jogo; e o melhor a fazer é esperar e observar se suas muitas falhas serão superadas, ou se os desenvolvedores irão abandonar o projeto depois de pouco tempo de seu lançamento.

Gameplay da Mãe | Hello Neighbor

No lançamento de Hello Neighbor, a Mãe gravou seu primeiro contato com o jogo para o canal de YouTube da Falange. Sem spoilers, e apenas demonstrando a base de jogabilidade e recursos visuais, os primeiros minutos de Hello Neighbor podem ajudar a entender melhor como funciona o jogo da Dynamic Pixels.