Falange Resenha | Fugitivos (Runaways)

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Vinheta da Mãe SerpenteNinguém questiona a hegemonia da Marvel nos cinemas. Já na televisão, o cenário é bem diferente. Demorou muito tempo até que Agentes da S.H.I.E.L.D (Agents of S.H.I.E.L.D., 2013-) ganhasse independência dos filmes e pudesse se estabelecer como uma série de qualidade, depois de um início vergonhoso. Enquanto isso, por mais críticas que se possa ter às produções DC/CW, Arrow (2012-), The Flash (2014-) Supergirl (2015-) e Legends of Tomorrow (2016-) continuam firmes e fortes. Para correr atrás do tempo perdido, a Marvel começou a negociar parecerias com canais e serviços de streaming, distribuindo projetos para todo lado. A série da vez, Fugitivos, mais conhecida como Runaways, é a primeira produzida pela Hulu, concorrente direta da Netflix. E depois da primeira temporada, é possível perceber que ambas as empresas possuem uma capacidade parecida em criar séries com muitos elementos fantásticos envolvidos: Fugitivos é tão bom quanto Punho de Ferro (Iron Fist, 2017). E se você já viu Punho de Ferro, ou leu a resenha da Mãe, sabe que isso é uma péssima notícia.

Runaways | Produção complicada

Antes de fazermos comparações óbvias com Punho de Ferro, suas péssimas cenas de ação, personagens rasos e diálogos mal escritos, é necessário contextualizar a forma como Runaways virou um seriado. Publicado no Brasil sob o nome de Fugitivos, a série de quadrinhos foi criada no início dos anos 2000, e ganhou uma atenção grande da Marvel depois de um sucesso inesperado. Tanto que em 2008, assim que montou seu estúdio cinematográfico, a Marvel já contratou roteiristas e um diretor para um filme do grupo. Aconteceu que o MCU ganhou vida própria, começou a caminhar em direção aos Vingadores e o roteiro de Runaways caiu em um limbo criativo, mencionado algumas vezes como uma ideia futura, nunca concretizada.

Depois do sucesso das primeiras séries da Netflix, Demolidor (Daredevil, 2015-) e Jessica Jones (2015-), a Marvel reviveu o projeto, e em 2016 anunciou sua parceria com Hulu. O roteiro cinematográfico foi descartado, e a estória teve que sofrer alterações para caber no formato de uma série de dez episódios. Mudanças não são necessariamente ruins, já que formatos diferentes exigem abordagens diferentes. No caso de Runaways, no entanto, boa parte dessas mudanças é injustificável, e não conseguem manter a qualidade do material de base.

Quem são os Fugitivos?

A série Fugitivos parte da mesma premissa do que os quadrinhos: um grupo de adolescentes descobre que seus pais fazem parte de uma organização criminosa que realiza sacrifícios humanos. Nos quadrinhos, a descoberta dos adolescente faz com que eles fujam de casa, e a trama logo passa a acompanhar os conflitos dos jovens tendo que sobreviver nas ruas, ao mesmo tempo em que são caçados pela polícia e por seus pais. É uma abordagem extremamente original do mundo dos super-heróis, e um dos motivos dos quadrinhos serem divertidos de ler. Na série, no entanto, a primeira mudança significativa de roteiro é que os adolescentes decidem permanecer em suas casas depois da descoberta, e investigarem as atividades criminosas dos pais do conforto de seus lares.

Essa decisão foi feita para que os pais pudessem ter mais tempo de tela, e desenvolvessem relações complexas, ao contrário dos quadrinhos, onde são apenas vilões unidimensionais. Isso permite, sem qualquer sombra de dúvida, que os membros da organização criminosa Orgulho (ou Pride, no original) possam ser mais do que um arquétipo de vilão, cada um com personalidades e objetivos próprios, muitas vezes em confronto direto com seus colegas. Ao mesmo tempo, essa decisão destrói por completo a dinâmica dos quadrinhos entre o grupo de adolescentes, que do conforto de suas casas criam relações vazias, e precisam do apoio de acontecimentos aleatórios para garantir que a trama siga o caminho planejado.

Além disso, por mais que os vilões dos quadrinhos nunca tenham alcançado a complexidade de suas versões televisivas, a unidimensionalidade dos pais foi uma característica importante para construir a leveza, e o sucesso, de Runaways. Na estória original, cada casal representa um tipo específico de vilão: mafioso, cientista louco, viajante temporal, invasor alienígena, feiticeiro, mutante. As diferentes origens garantem a justificativa para os poderes dos adolescentes, gerados por descendência, ou roubados dos laboratórios de seus pais. É um princípio caótico, e que por isso pode aproveitar todos os aspectos mais diversos dos mais variados subuniversos da Marvel: a ciência, a magia, o espaço, os super poderes genéticos. Ao invés de variedade, a série aposta em uma origem quase uniforme para todos os pais, e com isso perde muito do potencial criativo do material que aproveita.

Imagem dos quadrinhos Runaways, ou Fugitivos, com os seis integrantes originais.
Da esquerda para a direita: Gertrude é a filha de viajantes temporais, que possui uma ligação telepática com um dinossauro do futuro; Nico é a filha de uma feiticeira, que usa um cajado místico; Alex é o filho de mafiosos, e um grande estrategista; Chase rouba luvas que controlam fogo dos pais cientistas; Karolina é descendentes dos invasores alienígenas majesdanes; Molly é uma mutante com super força.

Essa mudança não tem um propósito muito claro. Desde Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014) a existência de um mundo intergalático vasto pode servir de desculpa para milhares de raças alienígenas. Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016), por sua vez, abriu o MCU para a magia. E se antes da compra da Fox pela Disney os mutantes não podiam ser utilizados, a Marvel não hesitou em ampliar a participação de inumanos em seu universo live-action. Mesmo sem a necessidade de uma ligação direta com outras produções, Fugitivos tinha o apoio de dez anos de cinema de séries para ousar, ser diferente, aproveitar ao máximo o caos de seu material de base. Ao invés disso, escolheu ser uma produção tão independente do MCU que nem parece existir dentro dele. Sem uma qualidade que justifique a escolha.

Fora do MCU, com pouca qualidade

Depois do fracasso inicial de Agentes da S.H.I.E.L.D, a Marvel mudou o foco de suas produções televisivas. Ao invés de dependentes dos filmes, cada conjunto de séries cria uma narrativa independente, apesar de se passar no mesmo universo. A Netflix resolveu esse problema citando grandes eventos dos filmes ao longo de seus seriados, na tentativa de mostrar alguma coerência sem fazer ligações diretas. Legion (2017-; resenha aqui) terminou sua primeira temporada com menções óbvias a Charles Xavier – e pode até ser o ponto de partida para incluir os mutantes no MCU, agora que a Fox é da Disney. O Justiceiro (The Punisher, 2017; resenha aqui) foi a primeira série completamente isolada, sem qualquer menção ao MCU.

Assim como outros seriados, de outros canais, Fugitivos não se preocupa em criar ligações diretas com os filmes. O problema é que, assim como O Justiceiro, não cria ligação nenhuma. Ainda que gênios da engenharia façam parte do elenco principal, não há nenhuma menção à existência das indústrias Stark, e mesmo que Nova Iorque tenha sido invadida por alienígenas, a presença de seres de outro mundo passa despercebida. Não houve qualquer intenção da produção de Fugitivos em criar easter-eggs que façam referência a outras produções. Ao contrário de O Justiceiro, no entanto, Fugitivos não possui excelência técnica ou roteiro inovador.

Imagem de divulgação da série Marvel's Runaways, ou Fugitivos, que mostra seis adolescentes com estilos distintos lado a lado de frente para a câmera.
Existe um cuidado de ‘Fugitivos’ de reproduzir poses e utilizar roupas que façam menções diretas aos quadrinhos. O cuidado visual, no entanto, não é suficiente para perdoar um péssimo elenco juvenil.

Com falhas de montagem e a recorrência frequente a coincidências para a resolução de problemas, Fugitivos ainda obriga seu elenco a repetir frases de efeito clichês em alguns dos piores diálogos escritos nos últimos anos. Adolescentes e adultos agem de forma irracional, e qualquer tentativa de construir personalidades distintas é prejudicada pela vontade de roteiristas em forçar situações específicas, e até mesmo constrangedoras. O cenário juvenil possui todos os elementos já conhecidos, como bullies, esportistas e patricinhas, sem que nenhum desses elementos interfira de forma significativa na estória, apenas surgindo para reafirmar a intenção de Fugitivos de criar um drama adolescente. Espere triângulos amorosos, amores platônicos, traição e conflitos familiares, enquanto o fato de que os pais sacrificam humanos em rituais secretos se torna menos importante que ter um almoço agradável ao lado dos assassinos.

A tentativa de complexificar os vilões acaba prejudicando a série, no fim das contas, e a primeira temporada se torna interessante apenas no último episódio. Na metade final do último episódio, depois de uma das vergonhosas cenas de ação ser resolvida e a promessa de uma narrativa mais próxima aos quadrinhos finalmente ser revelada. A Hulu já encomendou mais treze episódios de Fugitivos, e é possível que uma segunda temporada consiga captar, pelo menos em parte, os elementos que fizeram dos quadrinhos uma leitura tão inesperada e agradável. Por enquanto, isso é apenas uma promessa, e a adaptação de Runaways não é nada mais que uma tentativa de baixa qualidade de gerar dinheiro com a atenção dada a super-heróis nos últimos anos.

Imagem dos quadrinhos Runaways, ou Fugitivos, na segunda formação da equipe, com oito integrantes.
Metamorfos, androides, vampiros… tem muita coisa interessante que os quadrinhos Runaways podem oferecer por causa de sua premissa. Que os produtores aprendam com o material de base antes de uma segunda temporada.

O primeiro episódio foi lançado 21 de novembro, e a temporada terminou nessa semana, dia 9 de janeiro. A Hulu não atua no Brasil, e por isso a série ainda é desconhecida para o público brasileiro. Porém, Fugitivos já tem data marcada para chegar por aqui, e começa a ser exibida pelo Canal Sony no dia 20 de fevereiro. Longe de ser uma produção de grande qualidade, o sucesso potencial de Fugitivos só pode ser garantido pela febre recente de super-heróis, que criou um público ansioso por consumir cada vez mais conteúdo do gênero. Para se tornar algo melhor do que isso, Fugitivos terá que se reinventar em sua segunda temporada.

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Crítico de videogames, observador atento da cultura pop, viajante extraplanar e conhecedor das artes ocultas. Um membro da Falange.