Falange Resenha | Dona Flor e Seus Dois Maridos

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Vinheta do Professor Lumière
Olá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de Cinema no QG. Hoje vou falar sobre Dona Flor e Seus Dois Maridos, comédia inspirada na obra de mesmo nome do autor Jorge Amado. O livro já inspirou uma versão para o cinema em 1976 e uma minissérie em 1998. A trama acompanha Flor (Juliana Paes), uma jovem que se casa duas vezes e tem relações muito diferentes com os seus maridos. Assista ao trailer abaixo:

Encontrar o equilíbrio entre diversos gêneros e fazer com que todos funcionem em um mesmo filme não é uma tarefa das mais fáceis. Se um time de diretor + roteiristas decide que vai fazer a narrativa transitar da comédia para o drama e ter pitadas de terror, por exemplo, é preciso um trabalho e tanto que se estende desde a concepção do projeto até as atuações para que a harmonia seja a palavra de ordem. Dona Flor e Seus Dois Maridos tenta fazer esses saltos entre gêneros; contudo, não encontra o equilíbrio, tem péssimas transições e falha miseravelmente em todos eles.

Os (Muitos) Problemas de Dona Flor e Seus Dois Maridos

O indício de que a história seguiria rumos tortuosos vem logo no começo, quando Vadinho (Marcelo Faria) passa por uma situação difícil que ganha tons excessivamente dramáticos que sugerem uma de duas possibilidades: o roteiro de Pedro Vasconcelos pretende fazer humor com exageros dignos de telenovelas mexicanas? Ou será que ele quis que o espectador fosse às lágrimas logo na primeira cena, mesmo sem saber quem é aquele personagem e o que o levou até ali? Aparentemente, as duas opções: os closes e choradeiras diante da morte de Vadinho (revelada no trailer) são bastante artificiais, mas ao mesmo tempo, a fotografia escura e a forma como Flor chora a perda do marido não sugerem nenhum tipo de galhofa ou melodrama.

Essa desconexão entre as atuações, fotografia e narrativa são o maior problema de Dona Flor e Seus Dois Maridos. Depois de um certo tempo de projeção, fica no ar a ideia de que o cineasta Pedro Vasconcelos simplesmente deixou que cada um fizesse o que quisesse fazer em seu respectivo departamento sem jamais conversarem para chegar a um denominador comum.

Imagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos mostra flor na cama com Vadinho à direita e Teodoro à esquerda
Filme não se preocupa em acertar o tom da narrativa e dos personagens

Afinal, que outra explicação há para o fato de que os problemas de Vadinho com jogatina e bebidas serem mostrados de forma tão séria (o filme chega a mostrar episódios de violência contra Flor durante momentos de obsessão e bebedeira do primeiro marido) só para depois serem reduzidos a algumas piadas pelo mesmo roteiro? Em certo momento, Vadinho perde até as calças – literalmente – em um jogo e a trilha óbvia e terrível retrata o momento como uma piada enquanto Flor sofre para manter a dignidade do marido e sofre por ter sido maltratada pelo próprio poucas cenas antes.

Além disso, Vasconcelos também permite que Leandro Hassum saia do controle em diversas cenas. Sua caracterização de Teodoro vem acompanhada de diversas idiossincrasias que poderiam formar um personagem excêntrico interessante, como ele de fato é em suas primeiras cenas. No entanto, à medida que o filme progride, Hassum vai ultrapassando a linha do caricato e a cada nova cena reduz seu personagem a uma figura unidimensional cuja única faceta é não conseguir dar prazer à esposa. Para tanto, o que começa como uma esquisita e divertida cena de sexo mais tarde vai perdendo o potencial cada vez que se repete, pois o roteiro deixa muito claro que o personagem sabe das próprias limitações – e não há nada pior em uma comédia do que um personagem precisar expor para o público por que certos comentários são engraçados, razão pela qual quando o próprio Teodoro comenta “Três minutos e meio, Teodoro, você estava supimpa!”, a cena não tem potencial cômico justamente porque Vasconcelos sente que precisa explicar para o público que Teodoro é ruim de cama pela milésima vez – e não se contenta em fazer isso só por meio das imagens, ele ainda inclui diálogos que deixam a piada bem clara e mastigada.

Pecar pela repetição, inclusive, é um erro que Dona Flor e Seus Dois Maridos não tem medo de cometer. Imagine a seguinte cena: um determinado personagem está empolgado com alguma situação que o deixa progressivamente feliz. Enquanto isso, a música da trilha sonora tem o volume aumentado aos poucos para refletir a empolgação desse personagem. Só que um banho de água fria acaba frustrando seus planos e a música desacelera drasticamente para ilustrar sua decepção. Quantas vezes você já viu uma cena nesse estilo? Uma vez? Cinco vezes? Vasconcelos obviamente acha que o público não viu esse tipo de cena o suficiente, pois a inclui no filme nada menos que OITO vezes. E se já não foi muito engraçado na primeira vez, imagine na oitava.

Imagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos mostra Flor em conflito com o fantasma de Vadinho
Roteiro erra na retratação de Vadinho tanto em vida quanto após a morte.

Outro erro lamentável da produção é não fazer a mínima ideia de como utilizar o fantasma de Vadinho na história. Primeiro ele surge como uma metáfora para a forma como Flor descobre os prazeres da masturbação quando seu novo marido não consegue levá-la ao orgasmo. Até aí tudo bem, sem problemas. Mas aos poucos Vadinho vai ganhando habilidades meio difíceis de se compreender, já que a lógica desse fantasma/espírito nunca é explicada (e sim, esse tipo de personagem precisa ter regras sobre o que pode e o que não pode fazer, mesmo num filme de comédia). É por isso que recebi com reticência a habilidade do homem morto de interagir com outros personagens que não são Flor e até fazer chamadas telefônicas.

E essa falta de regras nem é o maior problema do espírito. A falta de domínio de Vasconcelos sobre o tom do próprio filme fica ainda mais evidente quando ele decide incluir uma subtrama de pais de santo que tentam livrar Flor do “encosto” de seu ex-marido. As cenas em que Vadinho é convocado ao terreiro parecem saídas de alguns dos melhores episódios de American Horror Story, e isso seria um ótimo elogio – se a estética e o tom macabro não destoassem completamente do restante da obra, que não sugeriu esse tipo de seriedade que beira o desespero em nenhum momento.

Imagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos mostra Flor deitada na cama com Teodoro adormecido sobre ela
Atuação de Juliana Paes é o grande – e único – mérito do filme

No meio de todos esses erros, só quem se salva mesmo é Juliana Paes, que mostra de uma vez por todas que é capaz de trabalhar de forma convincente e desviar de todas as tentativas da narrativa de sabotar a si própria. A atriz surge convincente em absolutamente todas as cenas do longa, e acerta o tom da atuação mesmo estando no melodrama exagerado, insegura diante do novo marido rebuscado, chorando a morte de Vadinho, sonhando acordada, animada com o sucesso de suas aulas de culinária… não importa. Escolha a cena do filme, e Paes não te deixará duvidar que os sentimentos de Flor são autênticos em momento algum. Só é uma pena que tamanho talento tenha sido desperdiçado em uma obra que parece não ter a mínima ideia do que fazer consigo mesma.

O que aprendemos com Dona Flor e Seus Dois Maridos? Uma ótima atuação dificilmente salva um filme ruim, mas definitivamente ajuda o espectador a resistir.

Lição de casa: Assistir à versão original do filme a título de comparação e torcer por mais trabalhos de Juliana Paes no cinema.