Falange Resenha | Ayo: A Rain Tale

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Vinheta da Mãe SerpenteNos últimos anos, com a popularização da produção independente de jogos eletrônicos, um dos subgêneros que mais ganhou novos títulos foi o dos puzzle-plataforma. Devido à relativa simplicidade de se programar um jogo de plataforma com elementos de puzzle, a partir de ferramentas muitas vezes gratuitas, é compreensível que muitos desenvolvedores iniciantes escolham esse formato para suas primeiras experiências de design de games. O resultado disso, para o mercado, é um excesso de jogos similares, que muitas vezes se destacam apenas por sua direção de arte. Esse foi o motivo que fez Ayo: A Rain Tale entrar na lista da Mãe. O jogo, no entanto, oferece mais do que uma identidade visual própria; é uma experiência sólida, apesar de poucos problemas, e com um objetivo louvável por trás de sua produção.

Mais do que entretenimento

Ayo: A Rain Tale é o primeiro jogo produzido pela Inkline, uma empresa libanesa fundada em 2012. Isso porque a Inkline não trabalha, normalmente, com produção de jogos. Ela é uma empresa especializada em consultoria de design, dentro da obscura área do marketing. A ideia de criar Ayo não tem nenhuma relação, então, com o trabalho desenvolvido pela empresa, que apenas decidiu utilizar seus recursos na divulgação mundial do problema da seca na África Subsariana. Uma região onde crianças se habituam com o processo desgastante, e algumas vezes fatal, de carregar galões de água pesados sob o sol do deserto.

Por que um jogo para divulgar um problema social de tamanha importância? Por que não? Videogames fazem cada vez mais parte da vida humana, e o mercado de games é uma das áreas da economia que mais cresce ao longo dos anos. Mais do que entretenimento, jogos eletrônicos já são utilizados de modo empresarial como simuladores e guias de treinamento, ou por instituições de ensino como ferramentas pedagógicas. É mais do que natural que jogos também possam servir para divulgar questões sociais, e servirem para reproduzir costumes, hábitos e modos de vida de povos diferentes, das mais diversas partes do mundo.

Imagem de Ayo A Rain Tale, jogo indie de plataforma produzido pela Inkline para divulgar o problema da seca na África Subsariana. A imagem mostra uma menina correndo por uma paisagem desértica.
Sem todos os detalhes que um projeto de poucos recursos permite, ‘Ayo: A Rain Tale’ ainda assim constrói uma identidade visual própria. Um elogio especial para o sol.

Nesse aspecto, Ayo: A Rain Tale se parece muito com Kisima Ingitchuna, ou Never Alone, lançado em 2014 para divulgar a cultura de povos esquimós do Alasca. Ambos puzzle-plataformas, com uma direção de arte que tenta se inspirar no contexto que querem reproduzir, e com uma narrativa planejada para fazer com que o jogador compreenda melhor uma realidade distinta da sua. As melhores intenções, no entanto, pouco importam se a qualidade do jogo é baixa. O produto final precisa também se sustentar por conta própria, para além da boa vontade de seus desenvolvedores. Felizmente, Ayo: A Rain Tale, possui mecânicas sólidas e bem aplicadas, com uma progressão de habilidades e desafios suficiente para suas três horas médias de duração.

Em busca de água

Após uma breve animação, o jogador recebe a tarefa de guiar Ayo pelo deserto, com um grande galão vazio preso às suas costas. O objetivo é chegar a um poço, afastado da aldeia, mas a única fonte próxima de água. Não há muito o que ver em A Rain Tale logo de início. Apesar de sólidas, as mecânicas de plataforma são iguais àquelas vistas à exaustão em outros jogos do gênero. Ayo pode pular, se pendurar em plataformas mais altas para escalar grandes rochedos e se mover lateralmente. Ao longo do caminho, espinhos brotam do chão ressecado, e devem ser evitados. Galhos de árvores secas oferecem apoios temporários e quebradiços.

Até seus momentos finais, Ayo: A Rain Tale permanece sem grandes desafios. Mesmo em seções em que é fácil morrer, a ausência de vidas e riqueza de checkpoints tornam o título acessível para pessoas que não têm o costume de jogar plataformas; um resultado alinhado com as intenções da produção. O universo de Ayo, apesar disso, se torna gradualmente mais rico e interessante, tanto em relação às ferramentas com as quais o jogador precisa atravessar obstáculos, quanto em relação aos elementos visuais utilizados.

Todos os inimigos, assim como os cenários, são uma representação da vida desértica de boa parte da África. Além de espinhos, escorpiões e tempestades de areia irão impedir seu progresso. Sem fontes de água corrente, cavernas secas e túneis cheios de lava servem de plano de fundo para o jogo. No meio do caminho, guias mitológicos baseados em lendas tribais africanas guiam Ayo, e permitem que novas habilidades sejam absorvidas, um presente de espíritos animais. Apesar da estrutura do jogo ser parecida a tantos puzzle-plataforma, a adaptação desses elementos à realidade retratada é sinal do empenho dedicado a um projeto de divulgação social.

Imagem de Ayo A Rain Tale, jogo indie de plataforma produzido pela Inkline para divulgar o problema da seca na África Subsariana. A imagem mostra uma menina recebendo uma habilidade de um espírito coruja gigante.
Os espíritos animais representam também um espetáculo visual particular. É nesses momentos que a direção de arte realmente brilha.

O principal destaque de Ayo, em termos de jogabilidade, é o uso de plataformas de cores diferentes, que se tornam materiais ou transparentes de acordo com as ações do jogador. Plataformas e paredes amarelas e azuis impedem o caminho, ou se transformam em plataformas, capazes de levar até o fim da fase, ou chegar até onde um dos objetos colecionáveis se esconde. Entretanto, essas estruturas não permanecem sólidas ao mesmo tempo; solidificar as construções amarelas significa tornar as azuis etéreas, e vice-versa. A necessidade de escolher a cor utilizada em determinado momento é a base de quase todos os quebra-cabeças de Ayo: A Rain Tale, e até permitem a inclusão de duas batalhas de mestre interessantes no meio do caminho.

Imagem de Ayo A Rain Tale, jogo indie de plataforma produzido pela Inkline para divulgar o problema da seca na África Subsariana. A imagem mostra uma menina saltando por plataformas coloridas sobre a lava.
A fumaça azul torna plataformas azuis sólidas, fazendo das amarelas imateriais. Os símbolos de cada fumaça mística também são retirados de elementos tribais muito habituais na arte em madeira produzida na África.

Ayo: A Rain Tale | Feijão com arroz

Sem nenhuma intenção de revolucionar o gênero, ou trazer inovações para o mercado de videogames, Ayo: A Rain Tale se preocupa em fazer o básico bem feito. Ao proporcionar uma experiência estável e divertida, Ayo ganha o espaço que procura para divulgar o problema da seca, e sua sequência final, de forma específica, é capaz de passar a mensagem que pretende de forma incisiva. Com o respeito à cultura do local que retrata, tanto em relação à personagem principal quanto aos elementos fantásticos introduzidos, Ayo: A Rain Tale também é relevante por ser produzido fora do grande circuito, no Oriente Médio, e ter seu foco na África.

É uma causa justa, e um jogo sólido. Ayo merece mais atenção do que recebeu desde seu lançamento, em 9 de novembro.

Gameplay da Mãe | Ayo: A Rain Tale

Para compreender um pouco das mecânicas, e também das limitações, de Ayo: A Rain Tale, a Mãe publicou os primeiros minutos de sua experiência com o jogo no canal de YouTube da Falange. Apesar de iniciar de forma genérica, o final dessa gameplay já permite ver um pouco do potencial de Ayo, e pode aguçar sua curiosidade com o jogo.