Falange Resenha | Altered Carbon (Netflix)

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Vinheta da Mãe SerpenteBaseada em uma série literária de sucesso, Altered Carbon, a nova série da Netflix, tem como plano de fundo uma versão futurística da humanidade em que a tecnologia de transferir a consciência humana para outros corpos se tornou real. É um conceito instigante, com profundas consequências econômicas, religiosas e até mesmo sexuais. Em meio a esse contexto, a trama segue a investigação de um misterioso assassinato, ao mesmo tempo que mostra para o espectador de que forma o avanço tecnológico muda de forma drástica a vida cotidiana. Infelizmente, a série não tem confiança suficiente em seu público para evitar exposições desnecessárias, não consegue trabalhar as relações humanas de forma satisfatória e até mesmo aspectos basilares para a compreensão do mundo e do mistério sofrem com uma montagem confusa e um roteiro incapaz de guiar o espectador sem explicações diretas e repentinas. Altered Carbon ainda é interessante, mas está longe de cumprir a promessa de excelência repetida tantas vezes por sua campanha de marketing.

O novo mundo de Altered Carbon

A ficção científica, de modo análogo à fantasia, conquista público de acordo com a criatividade do cenário em que sua trama acontece. Ao invés de se basear na realidade imediata do espectador, a ficção científica reimagina a sociedade a partir de novidades tecnológicas, muitas vezes para servir de crítica a comportamentos atuais. O futuro da ficção científica raramente é um aglomerado de acontecimentos sem sentido, mas normalmente exagera uma tendência social facilmente reconhecível para tentar imaginar os resultados da naturalização desses comportamentos, resultados esses que normalmente são catastróficos. Altered Carbon não é diferente.

Com a descoberta de vestígios alienígenas, cientistas descobrem como manipular a consciência humana de modo que uma pequena peça de metal, inserida na base do crânio, seja capaz de transportar a essência de uma pessoa. A popularização da tecnologia causa mudanças profundas nas relações humanas, já que logo surge a possibilidade de mudar de corpo em troca de dinheiro, vítimas de homicídio podem retornar à vida para acusar seus assassinos e o próprio conceito religioso de alma passa a ser questionado. A imortalidade se torna uma possibilidade material e ninguém mais precisa temer perder entes queridos, a não ser que o stack que contém sua consciência seja destruído.

É claro que dentro de uma sociedade com acentuada desigualdade social, o poder econômico acaba por determinar o horizonte da nova tecnologia. Classes mais pobres, quando têm corpos destruídos, precisam aceitar voltarem à vida em carcaças oferecidas pelo governo, muitas vezes com diferenças absurdas de idade, ou uma mudança brusca de gênero e etnia. Enquanto isso, milionários cultivam clones e criam backups diários via satélite para garantirem que nunca serão destruídos. O universo de Altered Carbon, então, é inspirado na mercantilização da vida nas sociedades contemporâneas, onde todas as esferas da existência humana podem ser medidas por dinheiro e até mesmo corpos viram mercadoria. É uma proposta inteligente e audaciosa, capaz de atrair a atenção de qualquer amante do gênero.

Imagem da série Altered Carbon, ou Carbono Alterado, da Netflix. A imagem mostra um homem nu com uma arma dentro de uma embalagem de plástico.
A própria campanha publicitária da Netflix, com corpos em embalagens, ressalta a mercantilização de corpos presente na série.

Contudo, se o conceito é extremamente instigante, a execução não é das melhores. Problemas com transferências de corpos e a falta de recursos são abordados de forma passageira, raramente criando ganchos narrativos que ajudem a compreender o drama vivido pela população futurística de Altered Carbon. Toda vez que um novo elemento é introduzido, diálogos expositivos surgem para explicar a nova realidade, sem nenhum cuidado ou sutileza. Pouco tempo depois, no entanto, conflitos emocionais e filosóficos são deixados de lado como se não importassem para a trama principal. E realmente não importam, pois todo o foco narrativo de Altered Carbon é desperdiçado em acompanhar um mistério policial que se arrasta por tempo demais, com uma conclusão pouco satisfatória.

Apenas a título de exemplo, algumas linhas de diálogo dão a entender que conflitos raciais ainda existem no futuro, quando um asiático se vê insatisfeito de estar preso em um corpo caucasiano. Entretanto, o problema nunca volta a ser abordado, o que dá a sensação de que surgiu apenas para reforçar um traço específico do universo de Altered Carbon que seria melhor absorvido caso estivesse ligado à narrativa, para que o espectador pudesse perceber as nuances do cenário por conta própria. O mesmo ocorre quando Inteligências Artificiais são introduzidas para discutir a natureza da humanidade, ou quando fanáticos religiosos contra a transferência de consciência protestam na frente de uma prisão. Nunca fica claro quais são os verdadeiros conflitos éticos e morais desse novo universo, o que resulta em decisões discutíveis de como determinados aspectos do futuro devem ser apresentados. Principalmente em relação ao sexo.

Imagem da série Altered Carbon, ou Carbono Alterado, da Netflix. A imagem mostra um homem olhando para uma gigantesca cidade.
A cidade gigantesca, multiétnica e cheias de diferentes línguas é inspirada diretamente no mundo ultraglobalizado de ‘Blade Runner’.

Sexo vende

O universo de Altered Carbon superou a importância dada ao corpo. A essência de uma pessoa nada mais tem a ver com a carne, que pode ser substituída com facilidade por quem pode pagar pelo serviço. É fácil entender, então, como seres humanos se confundem com mercadorias. A sociedade de Altered Carbon, por isso, é extremamente sexualizada. É possível mudar de carcaça para experimentar novos prazeres, ou alugar corpos diversos para sua satisfação pessoal. A banalização da atividade sexual, então, se torna um elemento importante para que se possa compreender o futuro distópico da série. Contudo, na prática, a abordagem sexual parece ter servido apenas como desculpa para mostrar corpos e curvas sem qualquer propósito. Corpos e curvas majoritariamente femininos.

A banalização do corpo de Altered Carbon parece ter afetado mulheres muito mais do que homens, mas nem mesmo uma menção passageira indica qualquer auto percepção da série quanto a esse fato. Enquanto todas as protagonistas femininas aparecem completamente nuas ao longo da primeira temporada, o nu frontal masculino ainda é um tabu. O que diz muito sobre o espectador habitual de ficção científica e que Altered Carbon considera como seu público alvo. Se isso incomoda nas inúmeras alusões à prostituição e ao abuso sexual, é ainda pior quando cenas de ação ou com grande carga dramática ainda se preocupam com um enquadramento que valorize bundas, coxas e peitos caminhando lentamente e de forma sensual.

A prática sexual também parece ser sempre carregada de dor e violência, mesmo quando pares teoricamente românticos são formados na tela. Não existe uma única cena, em quase dez horas recheadas de pornografia leve, em que duas personagens pareçam realmente conectadas pela atividade sexual, sempre muito mecânica e artificial para servir a qualquer outro objetivo que alimentar fantasias alheias. Isso não é culpa apenas da proposta erótica de Altered Carbon, mas também da construção unidimensional de suas principais personagens, muitas vezes incapazes de variar reações frente aos mais diversos acontecimentos.

Imagem da série Altered Carbon, ou Carbono Alterado, da Netflix. A imagem mostra um grupo de policiais armadurados.
Além da banalização dos corpos, há também a banalização da violência, já que até mesmo forças policiais não precisam se controlar na destruição da carne desde que a consciência permaneça intocada.

Unidimensional

O maior problema de Altered Carbon se encontra em suas personagens principais, pouco cativantes devido à incapacidade da direção em permitir que atores extremamente competentes fujam de posições específicas dentro da série. Na trama de Altered Carbon, o último sobrevivente de uma revolução fracassada é revivido depois de 250 anos preso e sem acesso a um corpo. Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman), então, precisa escolher entre voltar à prisão ou resolver o suposto assassinato de Laurens Bancroft (James Purefoy). O problema é que a prescrição de Kovacs como frio, cruel e indiferente ao mundo é tão eficaz em limitar a personagem que todo o talento de Kinnaman não é suficiente para tornar menos estranhas todas as cenas em que o soldado não está tentando matar meio mundo com as próprias mãos.

O mesmo acontece com os aliados de Kovacs e até mesmo com seu par romântico, a detetive Kristin Ortega (Martha Higareda). A aproximação dos dois é pouco convincente do início ao final da trama, justamente porque a montagem e o roteiro se preocupam excessivamente em estipular um papel simplório para suas personagens. Kovacs como o soldado que não tem nada a perder e é capaz de destruir o mundo para conseguir o que quer, Ortega como a policial irritadiça e disposta a sacrificar tudo em nome da justiça e da verdade. Nada se fala da adaptação de Kovacs ao novo mundo, onde 250 anos parecem não ter mudado as relações e as tecnologias. Pouco se discute também sobre motivações pessoais e como os protagonistas compreendem e se posicionam frente aos problemas sociais do futuro.

Isso se torna um incômodo maior quanto mais episódios se assiste, já que impedir que personagens cresçam é uma decisão injustificada, principalmente quando se explora um universo fantástico a partir de exposições desnecessárias e cortes bruscos na progressão da trama, em troca de flashbacks muito mais interessantes do que a linha narrativa principal. Vilões e mocinhos têm pouco a mostrar em Altered Carbon, mesmo com a roupagem da ficção científica. No fim das contas, um bom elenco é reprimido por uma direção medíocre e tanto as relações quanto o mistério se assemelham demais a qualquer drama policial para que a série mereça o orçamento que a Netflix investiu no projeto, com um custo de sete milhões de dólares por episódio. Mas pelo que vimos com O Paradoxo de Cloverfield (The Cloverfield Paradox, 2018, resenha aqui) essa parece ser a direção atual da empresa: campanhas de marketing gigantescas em troca de lucro imediato gerado por curiosidade, sem um grande controle de qualidade.

Vale a pena ver Altered Carbon?

Altered Carbon possui um contexto extremamente interessante, capaz de fomentar inúmeras discussões acaloradas sobre os valores da humanidade e seu futuro, como toda boa ficção científica. Esse mérito, no entanto, é muito mais fruto de seu plano de fundo do que da narrativa principal, onde uma montagem confusa e personagens unidimensionais prolongam a resolução de um mistério policial com um desfecho pouco surpreendente e pouco satisfatório. É interessante mergulhar na mitologia de Altered Carbon e descobrir mais de sua história e dos usos engenhosos (e muitas vezes perversos) de se utilizar a nova tecnologia de transposição da consciência humana. A belíssima fotografia, claramente inspirada em Blade Runner (1982), também é favorável à série. No entanto, Altered Carbon está longe de ser a obra-prima tão alardeada pela publicidade da Netflix, mais adequada para grande fãs de ficção científica do que quem espera relações humanas complexas e um bom desenvolvimento narrativo.