Falange Resenha | Aegis Defenders

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Vinheta da Mãe SerpenteInicialmente um projeto universitário, Aegis Defenders ganhou o mundo com uma campanha de Kickstarter extremamente bem sucedida em 2014. A proposta inusitada de misturar elementos de metroidvania com tower defense chamou atenção, junto a uma arte pixelada charmosa e uma premissa narrativa que envolvia um futuro em que a tecnologia é redescoberta, tanto que o recém formado GUTS Department conseguiu distribuir o jogo com o selo da Humble Bundle. Quase quatro anos depois do fim da campanha de financiamento coletivo, Aegis Defenders chegou ao PC, Xbox One e Nintendo Switch no dia 8 de fevereiro. E embora a união da plataforma com a criação de armadilhas seja interessante, a falta de balanceamento entre a campanha solo e a cooperativa pode ser frustante para quem joga sozinho. Principalmente porque Aegis Defenders não conta com um multiplayer online.

Explore, defenda, repita

A maior parte das fases de Aegis Defenders tem a mesma estrutura, com execuções cada vez mais complexas e detalhadas. Primeiro, é preciso percorrer os cenários, coletando dinheiro e artefatos especiais, resolvendo puzzles para abrir portas e combatendo inimigos. A princípio o jogador conta com duas personagens, que podem ter seu controle revezado com o toque de um botão, ou que podem ser utilizadas ao mesmo tempo em modo cooperativo com tela dividida. Ao longo do jogo, outras personagens se juntam ao time, até um máximo de quatro.

Cada personagem possui uma cor básica e um conjunto próprio de habilidades. As cores (azul, amarelo, vermelho e roxo) definem o dano contra cada inimigo e o tipo de recurso coletado no cenário. Todos os inimigos também possuem um padrão que varia entre as quatro cores dos protagonistas e isso significa que são vulneráveis às armas e construções de uma personagem específica. Cada personagem, além de armas principal e secundária, pode utilizar recursos coletados no cenário para construir armadilhas que serão mais eficientes contra determinadas hordas de inimigos, o que significa que é preciso estar atento na hora de escolher gastar recursos limitados. Com o tempo, as personagens aprendem a agrupar recursos para construir armadilhas ainda mais poderosas, necessárias para combater inimigos cada vez mais poderosos nas fases de defesa.

Ao final da exploração de uma área, o grupo de aventureiros chega a seu destino final, quase sempre uma grande sala retangular com tubulações nas paredes, de onde hordas de inimigos saem com um intervalo de 60 segundos entre o momento em que o último inimigo é derrotado e o momento em que uma nova horda surge. Todos os inimigos seguem em direção ao centro ou laterais da tela, com um número próprio de corações de vida que diminui cada vez que uma criatura toca o objeto protegido da vez. Obviamente, se esses corações se extinguem o jogador precisa voltar do último checkpoint e tentar de novo. Depois de algumas ondas de inimigos, a fase é concluída e o jogador retorna para um acampamento onde pode gastar duas moedas de troca diferentes para melhorar armas, construções e atributos básicos.

Imagem do jogo Aegis Defenders, que mistura metroidvania e tower defense. A imagem mostra personagens defendendo uma máquina redonda azul e roxa.
A quantidade de elementos na tela fica cada vez maior, o que exige uma coordenação mais precisa do jogador, ou dos jogadores.

As mecânicas de Aegis Defenders, então, exigem que o jogador escolha qual das duas armas equipadas uma personagem deve usar, quais recursos têm que ser coletados no cenário e onde cada tipo de armadilha deve ser construída. Com quatro personagens ao mesmo tempo, caso não tenha como jogar em cooperativo local. Tudo isso em 60 segundos. E sem um nivelamento entre quantidade de inimigos, tempo ou poder das personagens para o jogo com um ou dois jogadores, a existência da cooperação se torna a melhor e pior escolha de design ao mesmo tempo.

Sozinho no sofá

A ideia de Aegis Defenders é que a diversão no modo cooperativo não atrapalhe a progressão de sua campanha. O segundo jogador pode entrar e sair do jogo a qualquer momento, em qualquer seção de uma fase. A princípio essa é uma decisão que favorece jogar com amigos de forma casual; uma simulação perfeita de uma época anterior à hegemonia do multiplayer online, quando o tamanho do sofá definia o número de jogadores, com controles que passeavam entre pares de mãos. Aegis Defenders, no entanto, não é um jogo casual. Pelo contrário, as combinações cada vez mais complexas de recursos exigem a memorização de receitas e a coordenação rápida e instintiva entre habilidades de diferentes personagens.

Essas características elevam a dificuldade para jogadores solo e para jogadores sem parceiros fixos. Isso se torna ainda mais evidente em fases que fogem da estrutura padrão, ao introduzirem objetos que devem ser protegidos em movimento pelo cenário. Nessas fases, não é possível colocar personagens em modo de ataque paradas em pontos estratégicos, já que todos precisam acompanhar a caravana ao longo do cenário, o que causa picos de dificuldade, muito distantes da progressão regular do jogo.

Não há, de acordo com os desenvolvedores, nenhuma previsão para que um modo online seja implementado. A GUTS Department pretende considerar o recurso somente com um sucesso de Aegis Defenders. E embora a Mãe não seja defensora de um modo online obrigatório, Aegis Defenders é definitivamente um jogo que ganharia muito com a possibilidade de parcerias que ultrapassem o sofá. Porque fora essa única decisão duvidosa de design, única mas que afeta de forma drástica a experiência, Aegis Defenders é extremamente bem sucedido em misturar dois estilos muito distintos.

Metroidefense ou towervania?

Em um metroidvania, a variação de ferramentas de mobilidade e combate é um dos principais elementos que mantém o interesse do jogador ao longo de muitas horas de jogo, junto da excitação de explorar mapas e descobrir segredos. Um tower defense possui, a princípio, uma perspectiva diferente, confinando o jogador a um local específico e exigindo usos mais criativos de um número limitado de ferramentas para resistir ao ataque de um número crescente de inimigos. Não é uma tarefa simples criar personagens que funcionem em ambas as situações. Aegis Defenders consegue.

Imagem do jogo Aegis Defenders, que mistura metroidvania e tower defense. A imagem mostra personagens explorando o deserto.
A exploração de ‘Aegis Defenders’ é agradável também por conta da variação de cenários. Existe um esforço verdadeiro da equipe em criar locais únicos, cada um com seu próprio desafio.

Primeiro porque as principais estruturas que cada personagem pode construir são essenciais também para a exploração. Clu, a caçadora, faz bombas que destroem pisos rachados e com seu rifle acerta botões à distância. Bart, o engenheiro, produz blocos que servem tanto para criar turrets automáticos quanto para alcançar lugares mais altos; seu martelo de batalha também dobra de função ao consertar qualquer equipamento mecânico. Kaiim, o monge, é capaz de transformar cogumelos em tochas, que adicionam fogo a projéteis e possibilita acender tochas e queimar vegetação. Por fim, a ladra Zula alcança locais distantes com seu dash e atinge inimigos e objetos protegidos com a função de sua shuriken de voltar até a dona com o toque de um botão.

De forma inversa, a exploração é essencial para a fase de defesa, já que coletar os recursos necessários para a produção de estruturas antes do tempo começar a ser contado é uma vantagem óbvia. Além disso, encontrar todas as relíquias de uma fase normalmente dá grandes bônus de RP, a moeda necessária para melhorar o dano e resistência das estruturas. Obter todas as relíquias é apenas um do três desafios possíveis em cada fase, cada um com um prêmio em uma das moedas do jogo ou uma expansão do limite de recursos que podem ser carregados ao mesmo tempo. É possível refazer qualquer fase a qualquer momento, o que aumenta muito o fator replay de Aegis Defenders, já que o jogador pode repetir um mapa até conquistar seus três desafios ou apenas coletar recursos extras para comprar novos equipamentos.

Imagem do jogo Aegis Defenders, que mistura metroidvania e tower defense. A imagem mostra opções de diálogo em uma conversa entre duas personagens.
Outra forma de ganhar RP é com resposta mais confiantes e otimistas em diálogos, já que as opções de diálogo normalmente dão 1, 2 ou 3 RPs, dependendo da escolha do jogador.

Para quem é Aegis Defenders?

Apesar de poder ser apreciado por jogadores solo, Aegis Defenders foi completamente construído em torno da ideia do cooperativo local. Como a mecânica central do jogo é de estratégia em tempo real, o segundo jogador convidado precisa estar atento e disposto a aprender mecânicas complexas para que Aegis Defenders seja capaz de oferecer o máximo de diversão. Sem um bom companheiro, o jogador solo irá enfrentar picos de dificuldade que prejudicam a progressão do jogo, por mais que não sejam impossíveis de serem superados. Fora essa escolha de design que limita seu público, já que o multiplayer online não está disponível, Aegis Defenders possui uma jogabilidade sólida e cenários pixelados bem acabados e com muita variação. O jogo conseguiu unir com louvor mecânicas de aventura (com foco em exploração) e defesa de torres (em que é preciso guardar um alvo parado), uma união inusitada, mas que acaba por ser extremamente interessante.

Gameplay da Mãe | Aegis Defenders

Para entender um pouco melhor como Aegis Defenders divide suas fases de exploração e estratégia, você pode assistir ao vídeo de primeiros minutos de gameplay da Mãe. Não deixe de se inscrever no canal de YouTube da Falange para receber as novidades em primeira mão.