Cinema 2018 | As Expectativas do Professor Lumière

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema do QG. Hoje vou falar sobre o que eu espero do cinema 2018. Vou deixar de fora as produções de super-heróis, pois Bastille já falou sobre elas aqui. Eu também não consigo conter minha animação com Pantera Negra (Black Panther, 2018), mas isso é assunto para um texto exclusivo sobre o filme, então vamos segurar a onda por enquanto. A propósito, a Mãe Serpente também já falou sobre o que espera dos jogos indie de 2018. Mas vamos ao que interessa: o que o cinema 2018 tem a nos oferecer?

Cinema 2018 | Oscar

Não que a cerimônia do Oscar seja exatamente o melhor termômetro para determinar a qualidade de um filme. Existem milhares de obras-primas que passaram longe do radar da Academia, que favorece campanhas de estúdios e atores para entregarem o prêmio. Não é segredo para ninguém que Melissa Leo fez uma campanha voraz para ganhar a estatueta por sua atuação em O Vencedor (The Fighter, 2010). O diretor britânico Tom Hooper, por sua vez, foi morar em Los Angeles durante a temporada de premiações para poder participar de uma campanha agressiva de marketing que garantisse algumas estatuetas para O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010), que acabou vencendo o Oscar de Melhor Filme em 2011. O filme é ótimo, mas os outros indicados eram títulos como A Rede Social, Bravura IndômitaCisne Negro.

No entanto, é inegável que o Oscar é uma plataforma de grande visibilidade para todos os que conseguiram colocar sua obra entre os indicados. Isso significa que a Academia precisa estar em sincronia com os eventos do mundo para que sua premiação continue relevante. A falta de percepção pode causar dores de cabeça imensas para os organizadores da cerimônia, que em 2016 teve que tomar medidas drásticas em relação aos votantes após o público apontar que, por dois anos seguidos, os indicados ao prêmio eram brancos na maioria esmagadora, e nenhum negro figurava nas categorias principais.

Imagem para Cinema 2018 mostra todos os indicados ao Oscar 2015 - são cerca de 150 pessoas, apenas três negras
#OscarSoWhite 2015 – encontre os negros e ganhe um brinde
Imagem para Cinema 2018 mostra os indicados ao Oscar em 2016 - só há um negro entre as mais de 150 pessoas
#OscarSoWhite 2016: The Weeknd “salva” o dia

Portanto, em 2018 a Academia tem uma imensa responsabilidade ao anunciar os indicados ao prêmio na manhã do dia 23 de janeiro: além de não esquecer de não favorecer o protagonismo branco, os votantes precisarão buscar ativamente filmes que foram dirigidos, produzidos e roteirizados por mulheres. Após os escândalos envolvendo Harvey Weinstein (que era um dos que fazia campanha mais agressiva por seus filmes durante a temporada), essa tarefa se tornou ainda mais importante depois do protesto das mulheres no Globo de Ouro e a alfinetada de Natalie Portman no anúncio do vencedor do prêmio de Melhor Direção, em que apontou que os indicados eram todos homens.

Eu, particularmente, acharia o máximo se só tivessem mulheres e negros indicados ao Oscar esse ano. O problema é que esse tipo de atitude faria pessoas questionarem se os indicados estariam ali por mérito ou só pela polêmica. E eu pergunto: isso importa? Quantos indicados e vencedores já tomaram o lugar de gente muito mais talentosa? Em todas as edições do Oscar, é possível encontrar figuras que só estavam ali por estar. —tosse–tosse–Steven–Spielberg!–tosse–tosse Você acha mesmo possível que nenhum artista (negro ou mulher) tenha sido melhor do que algum indicado em 2015 e 2016, por exemplo? Todos os interessados em cinema depositam suas esperanças na Academia para usar sua visibilidade e chamar atenção para os problemas mais recorrentes da indústria. E se até os filmes de super-herói conseguem fazer História ao colocarem protagonistas mulheres e elenco majoritariamente negro (Mulher Maravilha, Pantera Negra), esperar o mesmo da “premiação máxima do cinema” não deveria ser uma exigência irracional.

Cinema 2018 | Aniquilação

Antes de tudo: Natalie Portman! Aniquilação é baseado em uma série de livros que fez imenso sucesso no mundo literário – o que se traduz em adaptação automática para o cinema. No entanto, a versão cinematográfica parece não se tratar de um filme caça-níquel devido ao fato de ser dirigida e roteirizada por Alex Garland, cineasta britânico que fez sua estreia na direção com o ótimo Ex Machina (2014). Com esse novo filme, descobriremos se a ficção científica está em boas mãos com Garland e, caso o projeto dê certo, existem mais dois livros a serem adaptados em possíveis sequências. Só me incomoda um pouco o fato de que o filme vai ser lançado nos cinemas nos Estados Unidos e aqui no Brasil – e em outros países – vai direto para a Netflix no final de fevereiro. Não que eu não goste da conveniência de ver um filme quando e onde quiser, mas se a Paramount não quis investir em uma exibição na tela grande, existe a possibilidade de isso indicar falta de confiança do estúdio no material que tem nas mãos.

Cinema 2018 | Nasce uma Estrela

Imagem para Cinema 2018 mostra Lady Gaga caracterizada como a protagonista de Nasce Uma Estrela

Em 1954 e 1976, Judy Garland e Barbra Streisand interpretaram os papéis de suas vidas quando decidiram viver Esther no musical Nasce uma Estrela. Ainda que Lady Gaga já tenha mostrado sua potência vocal em diversas ocasiões exceto no Rock in Rio 2017, a decisão de encarar um projeto dessa magnitude pode dar errado por vários motivos: 1) será que a cantora tem potencial dramático para carregar um filme nas costas? 2) o filme é dirigido por Bradley Cooper, que já realizou essa tarefa zero vezes antes; 3) o filme é remake de um clássico do cinema, e isso raramente dá certo. No entanto, existe a possibilidade de Cooper ser um ótimo diretor e conseguir extrair a melhor performance de Gaga a ponto de justificar esse remake. Quem sabe? Pro bem ou pro mal, vai valer a pena conferir.

Cinema 2018 | A Garota na Teia da Aranha

Em time que está ganhando não se mexe? Para a Columbia parece que não, pois o estúdio assumiu as rédeas para a adaptação da série de livros que foi criada pelo sueco Stieg Larsson e continuada por David Lagercrantz e decidiu esquecer que Daniel Craig e Rooney Mara viveram Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander em Millenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011). Dessa vez, os dois personagens serão vividos por Sverrir Gudnason (quem?) e Claire Foy (então há esperança) e sabe-se lá se vai ser um reboot ou vão continuar a história como se os atores não tivessem sido trocados. O novo diretor, Fede Alvarez (o mesmo do excelente Evil Dead de 2013), só declarou que acha que 50% do trabalho de um diretor é a escolha de elenco, e se ele mantivesse Mara e Craig no elenco, estaria negligenciando metade do trabalho. Ok. Só esperamos que dê certo.

Imagem para Cinema 2018 mostra Claire Foy caracterizada como Lisbeth Salander para A Garota na Teia da Aranha
Apesar da falta de piercings, in Claire we trust

Cinema 2018 | Boicote a Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Quando foi revelado que Percival Graves (Colin Farrell) era na verdade Grindelwald no final de Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them, 2016), a surpresa veio acompanhada por um misto de animação (afinal, é um plot twist interessante) e repulsa por parte do público. J.K. Rowling, David Heyman, Steve Kloves e David Yates, quatro dos responsáveis por levar a saga de Harry Potter aos cinemas com imenso cuidado, haviam escolhido ninguém menos que Johnny Depp para viver o personagem-título do segundo capítulo da nova aventura.

Imagem para Cinema 2018 mostra Johnny Depp caracterizado como o bruxo das trevas Grindelwald
Animais Fantásticos: Os Crimes de Johnny Depp

Apesar das recorrentes acusações de violência contra mulheres por parte de uma galera de Hollywood, eu sempre tento dar o benefício da dúvida aos acusados até que eles tenham a chance de se pronunciarem para assumirem seu erro ou, quem sabe, até se defenderem. Depp foi acusado de violência doméstica (física e psicológica) por sua ex-esposa Amber Heard e meio que ficou por isso mesmo. Esse tipo de denúncia gerou uma política de tolerância zero por parte dos estúdios e produtoras: a Netflix fez com que Kevin Spacey sumisse do mapa e a Sony substituiu o mesmo ator por Christopher Plummer em tempo recorde para lançar Todo o Dinheiro do Mundo (All The Money in the World, 2017); A Amazon continuará a série Transparent mesmo sem o protagonista Jeffrey Tambor; a FX acabou com todo o envolvimento de Louis CK em Better Things; a BBC interrompeu a produção de White Gold por tempo indeterminado após as acusações de abuso sexual de algumas atrizes ao ator Ed Westwick.

A mensagem é clara: nenhum estúdio quer colocar a mão no fogo por seus atores, e qualquer sinal de envolvimento em alguma forma de abuso resulta em ostracismo porque aprendemos de uma vez por todas que ninguém é insubstituível. No entanto, a Warner por alguma razão decidiu que seria OK manter Depp no elenco e ainda saiu em defesa do ator, mesmo com vídeos circulando pela internet que revelam seus episódios de violência verbal contra a ex-esposa. Um boicote a um filme dessa magnitude mandaria uma mensagem alta e clara para a Warner – e para Hollywood – que o Cinema 2018 também tem tolerância zero com abusadores. Infelizmente, eu acredito que esse boicote seja um sonho distante, mas não custa nada ter um pouco de fé no público.

Em tempo: algumas pessoas utilizam o argumento de que boicotar o filme seria causar prejuízo a todos os outros profissionais que trabalharam no filme por causa de uma só figura. Errado. Todos os que trabalharam na produção já foram pagos. O dinheiro arrecadado em bilheteria vai todo para o estúdio (que “investiu” no filme e ganha seu retorno) e uma porcentagem vai para os produtores (em forma de bônus).