A Torre Negra | A obra central de Stephen King

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Vinheta da Mãe SerpenteStephen King provavelmente é o autor mais adaptado para o audiovisual da história. Entre filmes, séries e episódios de antologias, são mais de 90 adaptações já realizadas. E sempre existem mais algumas por vir. Esse ano, por exemplo, já tivemos uma péssima série baseada no conto O Nevoeiro (The Mist). Teremos também uma nova versão de It: A Coisa (It), que já foi adaptado para o cinema em 1990, e se tornou um clássico do cinema de horror. Stephen King entende de clássicos. Carrie, a estranha (Carrie, 1976), O Iluminado (The Shining, 1980), Colheita Maldita (Children of the Corn, 1984), Cemitério Maldito (Pet Sematary, 1989), Cujo (1993), Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), À Espera de um Milagre (The Green Mile, 1999), Janela Secreta (Secret Window, 2004), 1408 (2007). Todos esses são filmes de imenso sucesso, de público, de crítica, ou de ambos. E todos são adaptações de novelas ou contos de Stephen King.

Mas nenhuma adaptação seria tão importante do que A Torre Negra (The Dark Tower), que chega amanhã aos cinemas. Primeiro porque a série de livros é o maior e mais importante trabalho de Stephen King. Segundo porque os textos de King muitas vezes ocupam o mesmo universo, e A Torre Negra é a chave para entender a ligação entre todos esses pontos soltos de sua obra. E, por último, porque sendo tão inspirado pelo cinema e pela cultura pop, A Torre Negra tem tudo para se tornar uma série de filmes fantástico. Ou teria, se a opção dos produtores não fosse a de condensar quatro mil páginas em um filme de uma hora e meia. Mas calma que o filme ainda não saiu, a Mãe ainda não assistiu e pode estar errada, e é preciso entender um pouco mais de A Torre Negra antes de reclamar de sua adaptação cinematográfica.

Magum Opus

A obra mais importante da vida de Stephen King começou a ser escrita em 1970, quando o autor ainda era um universitário. O primeiro livro, O Pistoleiro (The Gunslinger), seria publicado pela primeira vez como uma série de cinco contos, entre 1978 e 1981. A versão definitiva do livro, revisada de acordo com os outros volumes de A Torre Negra, só saiu em 2003. A saga da Torre Negra teve um sucesso quase que imediato, e os livros seguintes saíram com poucos anos de espera. A Escolha dos Três (The Drawing of the Three) foi publicado em 1987, As Terras Devastadas (The Wastelands) em 1991, Mago e Vidro (Wizard and Glass) em 1997. Depois de lançado o quarto livro da série, King encontrou um bloqueio criativo, do qual só saiu depois de se recuperar de um acidente de carro quase fatal, em 1999.

Os três últimos volumes, Lobos de Calla (Wolves of the Calla), Canção de Susannah (Song of Susannah) e A Torre Negra (The Dark Tower), foram lançados com poucos meses de diferença, entre 2003 e 2004. Um livro extra, chamado de O Vento pela Fechadura (The Wind Through the Keyhole), foi adicionado ao cânone em 2012. A trama também conta com uma série de arcos em quadrinhos, que adaptam os livros principais e incluem novas estórias. Se essas milhares de páginas são um dos maiores sucessos literários recentes, isso significa que, apesar do tamanho, a obra de Stephen King é capaz de prender a atenção do leitor. Isso se deve, em grande parte, à forma única que King tem de incluir elementos diversos da cultura pop na sua escrita.

A Torre Negra conta a estória de Roland Deschain, o último Pistoleiro, uma linhagem sagrada que descende diretamente de Arthur. Sim, Rei Arthur. Não é à toa que as pistolas de Roland são feitas com o metal derretido de Excalibur. Quando o livro começa, Roland está cruzando um deserto, em uma perseguição constante ao Homem de Preto, um misterioso antagonista, que encontra maneiras diversas de causar dor e sofrimento a Roland. A narrativa, então, segue por uma cidade baseada em contos do Velho Oeste. Não é à toa, já que Roland foi inspirado por ninguém menos que Clint Eastwood, ator que virou referência de filmes de faroeste nos anos 60.

Clint Eastwood vestido de caubói no filme Três Homens em Conflito, ou The Goog The Bad and The Ugly
Clint Eastwood em ‘Três Homens em Conflito’ (‘The Good, the bad and the ugly’, clássico do faroeste de 1966.

A jornada de Roland inclui a busca pela Torre Negra, uma construção que marca o centro da existência, sob o perigo de cair. Assim, Roland encontra companheiros e embarca em uma jornada épica por terras desoladas, para chegar a esse local. Uma jornada que foi inspirada diretamente por O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings, 1954-1955), de Tolkien. A mistura de cenários pós-apocalípticos, arcaicos, ultra científicos que King faz é maior do que qualquer obra já tentou. Personagens da Marvel e referências a Harry Potter preenchem as páginas de A Torre Negra, e de alguma forma King é competente o suficiente para dar coesão a uma obra tão diversa. É claro que existem momentos em que o autor parece ter perdido a consistência da narrativa. Mas são momentos passageiros, que logo dão lugar a passagens extremamente marcantes. Apesar de inúmeros livros de sucesso, não há dúvida de que A Torre Negra é a obra mais ousada e inventiva de Stephen King. E a originalidade, semeada de referências tão populares, prende o leitor do início ao fim.

Desenho que ilustra o livro Lobos de Calla da série A Torre Negra, de Stephen King, em que robôs com cara de lobo e roupa do Doutor Destino aparecem.
Sim, Lobos de Calla tem inimigos baseados no Doutor Destino. E sim, faz sentido no contexto.

O universo de Stephen King

Existe mais um grande motivo para que A Torre Negra seja uma obra tão aclamada. De uma forma direta ou indireta, os livros estão conectados a quase tudo o que Stephen King já escreveu. Lojas e farmácias citadas em contos, personagens recorrentes, explicações para fenômenos inexplicáveis de outras estórias. São dezenas de autorreferências, que dão coesão aos livros de Stephen King, como se todos pertencessem à mesma realidade. Isso é possível porque A Torre Negra trata, também, da existência de dimensões paralelas. E, desde que a tarefa seja realizada com competência, isso permite brincar com a ideia de que mesmo os fatos mais incríveis existem em algum lugar do multiverso.

Algumas dessas referências são óbvias. O Homem de Preto, Randall Flagg, é também o antagonista de A Dança da Morte (The Stand, 1990), que já ganhou uma minissérie em 1994 e também está sendo cogitado para uma adaptação cinematográfica. Da mesma forma, o padre de A Hora do Vampiro (‘Salem’s Lot) se torna uma personagem principal nos últimos livros de A Torre Negra. E sabe o evento catastrófico de O Nevoeiro? Se trata da abertura de portais dimensionais como aqueles de Mago e Vidro. E existem fortes indícios de que o palhaço Parcimonioso (a Mãe prefere Pennywise) é uma criatura similar ao Rei Carmim, o grande vilão da série de livros.

Pennywise, o Palhaço, olha de dentro de um bueiro para uma criança com capa de chuva amarela. O vilão aparece no filme It - A Coisa, baseado em livro de Stephen King.
Pennywise ajudou a ampliar o medo de palhaços na década de 90…

De referências óbvias a pequenos detalhes, A Torre Negra dá a impressão de que toda a obra de King está conectada. E isso não só instiga leitores e fãs a encontrarem mais conexões, como demonstra uma enorme capacidade de planejamento do autor.

Problemas à vista

Como um grande fã da obra de Stephen King, a Mãe ficou extremamente animada com a produção de um filme de A Torre Negra. A obra nasceu cinematográfica. Surgiu também um receio inicial, de que o filme pecasse em sua adaptação. Um receio que logo caiu por terra com a divulgação de um cartaz em julho de 2016, que mostrava a Corneta de Eld. Uma continuação é exatamente o que fãs do livro precisam, já que o final de A Torre Negra mostra um ciclo em aberto. E a ideia de uma continuação dá liberdade criativa para que a produção desenvolva um obra capaz de se sustentar por si, sem a necessidade de comparar detalhes. Até mesmo mudanças drásticas, como um Roland Deschain negro (o que implica a ausência da personagem Susannah, a princípio) podem funcionar nessa espécie de releitura e continuação.

O problema é que A Torre Negra pretende ser um filme único, pelo que os trailers indicam. Um único filme que irá contar a jornada completa de Roland, e sua chegada à Torre Negra. Uma jornada que, em um determinado ciclo, se estendeu por sete livros, agora cabe em uma hora e meia. Isso significa que é provável que o filme não compreenda o propósito do livro. E todas as discussões filosóficas certamente serão deixadas de lado em nome de uma conclusão rápida. Existe o plano de uma minissérie de Mago e Vidro para 2018, cujos acontecimentos não aparecem no filme. E a Mãe acha difícil justificar que um livro ganhe uma merecida minissérie, enquanto outros seis se comprimam em um filme.

É claro que essa reclamação é derivada de especulação sobre o filme. Mas uma resenha completa sai amanhã de noite, depois da Mãe ir ao cinema e conferir o resultado final da adaptação. De qualquer forma, parece que não é razoável esperar muito do filme, e fãs da obra de Stephen King, e fãs da fantasia em geral, fazem bem em esperar um pouco antes de decidir conferir por conta própria o novo filme baseado na obra do autor.

Imagem ilustrativa dos livros A Torre Negra, de Stephen King, que mostra Roland Deschain olhando para uma torre distante no horizonte