4DX | Como é ver ‘Titanic’ com a nova tecnologia?

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange! Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de cinema no QG. Hoje o foco será um pouco diferente, pois vou falar sobre a experiência de se assistir a um filme em uma sala diferenciada, a 4DX da UCI.

Como parte da comemoração dos 20 anos da UCI no país, a rede de cinemas decidiu fazer uma exibição especial de um dos grandes clássicos do cinema em sua sala mais interativa. A Falange foi convidada para conferir Titanic (1997) na sala 4DX e, como certas experiências não podem ser recusadas, fomos conferir o filme por essa nova perspectiva. Vou contar a vocês se vale ou não pagar um pouco mais caro para ter uma diversão diferenciada.

Mas antes, um pouco de história: se você não sabe que filme é Titanic, você provavelmente morava em uma caverna no fim dos anos 90 ou só nasceu depois que a TV já tinha cansado de fazer reprises. Trata-se de um dos maiores sucessos da História do Cinema, que custou 200 milhões de dólares para ser produzido e arrecadou mais de 2 bilhões de dólares em bilheteria, além de ter abocanhado nada menos que 11 Oscars. A trama acompanha Rose (Kate Winslet) e Jack (Leonardo DiCaprio), dois jovens de diferentes classes sociais que se conhecem a bordo da primeira – e única – viagem do transatlântico Titanic. Os dois vivem o romance de suas vidas, mas, assim como o restante dos passageiros, desconhecem o terrível destino que aguarda o navio.

Todos a bordo do 4DX

Assistir à Titanic em uma sala de cinema comum já é uma experiência boa o suficiente – as mais de três horas de duração sempre passam despercebidas –, portanto, a ideia de adicionar à experiência cadeiras que se movem, jatos d’água, ventos e odores parece ser uma ótima ideia para tornar o filme ainda mais imersivo. Certo?

Nem sempre. O maior problema da sala 4DX é a necessidade dos realizadores em utilizar todos os recursos disponíveis com frequência. Isso resulta em momentos que acabam distraindo mais do que deveriam. Isso não é bom, pois se a ideia é imergir o espectador de forma que ele se sinta dentro do filme, certos momentos provocam a sensação contrária – e isso geralmente tem a ver com o movimento da cadeira.

Algumas vezes, o movimento do assento até faz bastante sentido. A forma como a cadeira estremece quando alguém leva algum golpe ou cai é sempre eficiente. Mas em outros isso acaba até causando um pouco de confusão. Na cena em que Jack e Fabrizio (Danny Nucci) correm para embarcar no Titanic, por exemplo, a cadeira se move para os lados à medida que eles abrem caminho no meio da multidão. O problema é que, quando a câmera pega os dois atores de frente, a cadeira se move pro lado oposto do movimento. Eu até entendo a confusão na hora de planejar o movimento: se um ator de frente para a câmera cai para a esquerda, a cadeira teria que se mover para a direita, pois representa a direita do personagem – mas isso também poderia causar confusão no público, então tiveram que tomar uma decisão e torcer para que poucos reparassem. A decisão mais sábia, no entanto, seria não fazer esse tipo de movimento conflitante a fim de evitar essa pequena distração, afinal o filme ainda é a atração principal e não faltam oportunidades de mover os assentos em momentos mais apropriados.

Outro elemento que me incomodou bastante foi a economia nos jatos de água. Tratando-se de uma história que acompanha um naufrágio quase em tempo real, eu já estava psicologicamente preparado para sair da sala molhado. Talvez devido às reclamações dos espectadores que em junho saíram das sessões de A Múmia (The Mummy, 2017) encharcados, o cinema tenha resolvido maneirar com os jatos d’água, que não passaram de umas três borrifadas suaves ao longo da projeção. Só três? Ok, eu não precisava sair da sala como se tivesse tomado um banho de chuva, mas o contexto do filme definitivamente permite uma abordagem mais ousada nesse sentido.

No entanto, todos esses pequenos incômodos não foram nem de longe tão mal utilizados quanto os aromatizantes. O primeiro problema deles é que os dispositivos que deixam a sala perfumada fazem um barulho que pode ser ouvido claramente nas cenas mais silenciosas – outra distração desnecessária. Além disso, o aromatizante é o recurso mais dispensável da sala – na primeira vez que o perfume adocicado foi lançado no ar durante uma cena que se passa no restaurante da classe rica do navio, achei apropriado. Mas depois percebi da pior forma possível que o aromatizante só é capaz de expelir um tipo de cheiro: na cena em que Jack e Rose fogem de Lovejoy (David Warner) e entram na sala das máquinas, os aromatizantes entraram em ação com seu barulho alto e eu me preparei para sentir cheiro de graxa e ferrugem… e veio um cheiro de perfume! Acho seguro dizer que, mesmo que todos os operários das fornalhas tivessem caprichado no desodorante, aquele nunca seria o odor daquele ambiente.

Imagem do filme Titanic. A imagem representa uma cena clássica, em que Jack (Leonardo DiCaprio) segura Rose (Kate Winslet) na proa do navio. A imagem também conta com a logo 4DX, um novo tipo de sala de cinema imersiva.

O potencial do 4DX

Mas chega de falar dos pontos negativos, porque não foram só momentos ruins que a sala 4DX proporcionou. Na verdade, os momentos bons são tão bem utilizados que quase compensam os exageros que já mencionei. Meu efeito preferido foi o mais sutil, que iniciava uma corrente de vento frio sempre que uma cena acontecia no convés do navio. Diversas vezes me surpreendi ao perceber que estava com o corpo encolhido diante do vento “noturno”, e em todas elas eu realmente esqueci que o vento não era natural.

Outro grande mérito do 4DX é também bastante sutil – e o mais divertido –, quando a cadeira acompanha o movimento da câmera. Como James Cameron filmou diversos tracking shots e planos aéreos, a cadeira desliza ou se inclina suavemente, o que dá a sensação de que realmente estamos no navio e olhando para os lados, para o alto e para baixo enquanto admiramos o engenhoso transatlântico. Isso funciona ainda melhor com a exibição 3D, pois nas cenas em que algum personagem olha para o mar pela borda no navio, o instinto nos prepara para uma queda que – felizmente – jamais ocorre.

E o filme? É difícil encontrar uma pessoa que não tenha assistido à Titanic, mas muitos de nós não revisitamos a obra de Cameron há mais de uma década, talvez. O mais impressionante é constatar que, mesmo 20 anos após o lançamento, o filme continua funcionando como se tivesse sido produzido há pouco tempo. Isso, é claro, é um reflexo dos valores da produção – que investiu pesado em maquetes, reconstruiu o navio e não teve medo de jogar o elenco e a equipe em um enorme tanque, utilizando o CGI apenas para realçar as imagens. Esse tipo de investimento faz com que a cena mais importante do filme – o naufrágio – tenha hoje o mesmo impacto que teve em 1997, tanto em termos épicos quanto dramáticos. A diferença é que agora estamos mais velhos e conseguimos compreender ainda mais a dimensão da tragédia que marcou a História em 1912, o que torna as cenas emocionantes ainda mais fortes.

O UCI Day, que exibe Titanic em 3D, IMAX e 4DX, acontecerá na próxima segunda (13 de novembro). Se você estiver pelo Rio de Janeiro, talvez seja uma boa oportunidade de conferir a nova tecnologia. Até porque os preços serão bem acessíveis, 20 reais (inteira) para as sessões em 4DX e 10 reais (inteira) para todas as outras. Os preços promocionais também valem para outras cidades, que ainda não possuem a tenologia 4DX.

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Crítico de cinema, engenheiro de projetores, manipulador da luz, entusiasta de séries de TV, devorador de livros. Um membro da Falange.