Primeiras Impressões | Mindhunter (Netflix)

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Vinheta da Mãe SerpenteDavid Fincher é um dos mais reconhecidos produtores de Hollywood, que assina o sucesso recente de House of Cards (2013-). É a assinatura dele que também segue na direção de filmes como Seven – Os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1995), Clube da Luta (Fight Club, 1999) e Zodíaco (Zodiac, 2007). Logo, assim que a Netflix anunciou uma nova série original sob os cuidados de David Fincher, a Mãe começou a alimentar grandes expectativas. Principalmente porque a série em questão, Mindhunter, é baseada em um livro homônimo sobre a investigação criminal do FBI no final dos anos 70. E se existe alguém com um olhar cinematográfico para assassinatos e serial killers, essa pessoa é David Fincher. Após assistir os dois primeiros episódios, a Mãe decidiu compartilhar suas primeiras impressões. E precisa afirmar algo logo de cara: a série é diferente do que se pode esperar de uma narrativa de investigação. E isso não é uma crítica. Pelo contrário, em um gênero desgastado pela repetição, o enfoque de Mindhunter traz algo de novo para os seriados policiais.

Pelos cotovelos

A primeira coisa que deve ficar bem clara para quem pretende assistir a Mindhunter: a série, ao menos em suas duas primeiras horas, é constituída quase que inteiramente por diálogos. Conversas de bar, entrevistas, aulas, discussões. As cenas voltadas a algum tipo de ação são quase que inexistentes, apesar da forma explícita como surgem, pinceladas pelos episódios. Ainda mais explícita é a descrição dos detalhes sórdidos de mortes invisíveis. A falta da imagem obriga o espectador a preencher as lacunas por conta própria, e esse espaço de projeção individual aumenta a brutalidade de cenas sugeridas pela narração de uma personagem, ou por fotos de baixa qualidade.

A ideia central de Mindhunter, então, é se aprofundar nas questões psicológicas que envolvem crimes brutais, ao invés de resolver crimes e capturar malfeitores. É uma abordagem diferente do que se costuma encontrar em seriados policiais, normalmente voltados para a resolução de algum mistério no período de 40 minutos; um formato muito derivado da estrutura da televisão padrão, onde episódios precisam de certo distanciamento entre si para que o público não desista de acompanhar a narrativa caso não consiga assistir ao caso da semana.

Os tempos são outros, e não só serviços como a Netflix permitem a distribuição de temporadas completas, como os próprios televisores têm cada vez mais recursos acessíveis de gravar programas, e até mesmo pular comerciais. Logo, é uma feliz surpresa descobrir que Mindhunter é o desenrolar de uma única grande estória, que nem mesmo passa pela resolução de um crime. O objetivo de Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), a dupla de agentes do FBI que protagoniza a trama, é entender como funciona a mente de assassinos brutais, e é isso que torna a série muito mais intimista do que suas companheiras de estilo.

Capa do livro Mindhunter: Inside the FBI's Elite Serial Crime Unit, que conta a história real dos agentes John Douglas e Mark Olshaker. O livro inspirou a série da Netflix Mindhunter.
A série é inspirada em um livro escrito pelo agente do FBI John Douglas, que conta o processo de John e seu parceiro Mark Olshaker ao entrevistarem grandes assassinos em série dos Estados Unidos.

Os assassinos por eles próprios

A empreitada de Holden e Bill ocorre em um momento histórico em que assassinatos chocantes são considerados como fruto de uma natureza perversa. O problema com essa premissa é que ela não ajuda a resolver o problema da criminalidade. Apenas serve como justificativa para a punição póstuma do responsável, sem que casos similares possam ser previstos e impedidos. É por isso que Holden, primeiro, e Bill, logo depois, decidem entrevistar assassinos em série já capturados. O esforço de ambos é o de entender como a mente desses indivíduos funciona. Ambos acreditam que ao mapear comportamentos considerados sem sentido será possível evitar o surgimento de novos assassinos em série.

Para além da resistência de colegas de trabalho e da sociedade em geral, a dupla precisa lidar com a tarefa difícil de se encontrar, diretamente, com autores de atrocidades. Difícil porque, para além de seus crimes bárbaros, esses indivíduos falam e agem como qualquer outra pessoa, e é impossível atribuir suas ações a uma loucura inexplicável. É interessante perceber que Mindhunter dá um espaço para que a estória dos assassinos seja contada por suas próprias personagens, com referências diretas a crimes e acontecimentos que marcaram a história dos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70.

Imagem da série Mindhunter, da Netflix. A imagem mostra o assassino Edmund Kemper, interpretado por Cameron Britton, com uniforme de prisão em uma sala de visitas.
O grande destaque dos dois primeiros é episódios é Cameron Britton, que encarna o assassino Edmund Kemper. Para além de Edmund Kemper, o nome de Charles Manson é também é mencionado, o que significa que veremos mais assassinos que realmente existiram interpretados em episódios futuros.

Ao invés de tratar o criminoso como um objeto, distanciado, Mindhunter lida com essas pessoas como sujeitos. Capazes de diálogo, compreensão e troca de conhecimento. E é a partir daí que Holden e Bill conseguem criar sua base teórica para lidar com outros casos, até o momento inexplicáveis e sem solução. São dois episódios abertos a muita reflexão sobre a criminologia, e embora esse seja o maior mérito da série, é também seu maior problema, considerando a necessidade de agregar uma grande audiência.

O compasso de Mindhunter

Embora os dois primeiros episódios somem um total de duas horas, é impossível perder de vista a sensação de que tudo não passa da introdução de um grande filme. O ritmo de Mindhunter é lento, justamente porque quase que a integridade de suas cenas não representa ações, mas apenas diálogos. O cenário se constrói aos poucos, as falas são extremamente bem escritas, e a atuação brilhante de todo o elenco permite apreender as nuances de todas as personagens. Ainda assim, Mindhunter exige paciência de seu espectador. Uma paciência que é recompensa com um enfoque diferente para o roteiro, e tomadas que abusam da criatividade na montagem.

Existe a promessa de que momentos mais acelerados surjam na série em episódios futuros, e, assim que terminar de assistir à temporada, a Mãe certamente irá publicar sua resenha completa. Mas, por hora, as primeiras impressões de Mindhunter são a de uma série excelente, mas que, infelizmente, pode perder seu público por sua incapacidade de adequar seu ritmo ao que a grande audiência espera.