Falange Resenha | Z – A Cidade Perdida

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náusea vinhetaMinha camaradagem!

Sempre que chega convite pra ver e resenhar filmes com algum potencial de serem bons, tem treta por aqui. Tava de boa jogando Campeonato Brasileiro 96  (1996, algum paraguaio com bastante tempo livre) quando recebemos o chamado pra Z – A Cidade Perdida (The Lost City of Z); a Mãe já veio cheia de gracinha, Bastille também. Adelfa tava fazendo biscoitos então não se meteu, mas mesmo assim fui obrigado a jogar minha carta virada pra baixo: “fodas, eu tive que resenhar Tartarugas Ninja 2, lembram?”. Aí a treta acabou e parti pra sessão.

Medalhas, fronteiras e borracha

Esses são os elementos principais do roteiro do filme, que adaptada o livro The Lost City of Z: A Tale of Deadly Obsession in the Amazon (2009, Doubleday), de David Grann e ainda não lançado em português. A história se inicia na Irlanda, em 1905. Percy Fawcett (Charlie Hunnam) é um major do exército britânico, que apesar de sua bravura e de seu tempo de serviço, não foi capaz de acumular as honrarias que normalmente são reservadas aos militares de sua patente. Fawcett foi sutilmente sendo jogado pra escanteio no exército por conta de condutas atribuídas ao seu pai – coisa que fica só subentendida no filme.

Z - A Cidade Perdida
O senhor e senhora Fawcett, à direita, tendo que puxar sacos britânicos.

Corta pra nossa América do Sul, onde o bicho começava a pegar por conta do que chamamos de “ciclo da borracha”. A região que hoje é o estado do Acre e até aquele momento não interessava a ninguém, passou a ser disputada a tapa por Brasil e Bolívia, que se achavam no direito de explorá-la e, consequentemente, encher o rabo de dinheiro. No meio disso estava o então Império Britânico, que já tinha seus privilégios por aqui desde que ajudou a família real portuguesa a fugir de Napoleão no século XIX. Eles acabam fazendo o papel de árbitros na questão e organizam – por meio da Sociedade Real de Geografia Britânica, de Londres – uma expedição para finalmente demarcar uma fronteira oficial e acabar com a treta.

Então a SRGB acaba convidando para comandar a expedição – por conta de sua experiência com cartografia – o próprio Major Fawcett, que aceita na hora. O que a princípio parece uma loucura sem tamanho é vista pelo nosso protagonista como sua última oportunidade de ganhar algum reconhecimento e consequentemente deixar o passado de sua família pra trás.

Z - A Cidade Perdida
A Bíblia atravessada por uma flecha enquanto o protagonista pede paz é o símbolo maior do brancocentrismo do filme.

Brancocentrismo

Fawcett chega à Floresta Amazônica em companhia de seu recém contratado escudeiro Henry Costin (Robert Pattinson) para fazer a demarcação da fronteira, mas acabam esbarrando com indícios de que possa existir algo a mais por ali: artefatos que indicam a existência de uma comunidade organizada no meio da selva; o mito conhecido pelos exploradores da época como “El Dorado”. Fawcett retorna à Londres e recebe os louros pelo sucesso de sua missão, mas a vontade de confirmar a existência da tal cidade persiste, ao ponto de fazer com que o militar crie uma verdadeira obsessão com o tema. No meio disso tudo, a iminência do que ficará conhecida como Primeira Guerra Mundial e o bem estar de sua esposa Nina (Sienna Miller) e seu filho recém nascido.

Z: A Cidade Perdida
Fawcett tentando convencer a SRGB da existência da cidade.

A narrativa linear adotada pelo diretor e roteirista James Gray cumpre o propósito de mostrar uma longa passagem de tempo de forma crua, o que funciona bem, mas também contribui para deixar o filme bem monótono em alguns momentos. Conforme a história avança, fica a sensação de que coisas poderiam ser melhor exploradas, personagens mais desenvolvidas e decisões mais ousadas poderiam ter sido feitas. A relação entre o Major Fawcett e seu filho já crescido Jack (Tom Holland), por exemplo, é completamente desperdiçada.

Z - A Cidade Perdida
Calma que eu sou consciente, pessoal!

Da mesma forma que o Major Fawcett toma a busca por Z como seu objetivo maior de vida, o filme opta por apenas tangenciar todos os outros personagens para focar o máximo possível em seu protagonista, o que acabou não rolando bem. A própria Nina Fawcett, por exemplo: a esposa do Major, que nas poucas vezes que aparece se mostra uma mulher forte e nada satisfeita com a forma como as mulheres são tratadas na sociedade europeia do início do século XX, acaba sendo um personagem completamente desperdiçado. Por trás de toda a camada aventuresca da produção, Z se propôs a tratar de superação de barreiras, fossem elas políticas, sociais ou mesmo de gênero. Se propôs; o que não quer dizer que conseguiu.

Z - A Cidade Perdida
Henry Costin (Robert Pattinson), admirando o crepúsculo.

Z – A Cidade Perdida é um belíssimo exemplar do que eu chamo de brancocentrismo – a história contada sempre do ponto de vista do colonizador europeu, que separa todo um leque de culturas, etnias e bagagem histórica como “nós e os selvagens”. De boa, quantas mil vezes você já viu materiais do tipo por aí? Falamos um pouco disso há um tempo atrás, no falangecast sobre o Mogli. Ouça aqui.

Z - A Cidade Perdida
Homem branco bom. Me deu chapéu.

Além disso ainda temos um outro clichezão hollywoodiano: o do colonizador consciente; o cara que de repente sofre um choque de realidade e se liga que a sociedade da qual ele faz parte é uma cambada de filhos da puta e que civilizados na verdade são os índios. Mas ao mesmo tempo, o colonizador consciente continua insistindo em “descobrir” uma sociedade que provavelmente vai entrar em colapso se for encontrada. O roteiro é de uma ingenuidade comovente em alguns momentos, o que às vezes me lembrou um capítulo de DuckTales.

No final das contas, nem valeu tanto a pena deixar o Campeonato Brasileiro 96 de lado. Não me entendam mal, não é um filme ruiiiiiim, ruim… mas sabe aquela sensação “blz, mas é só isso?”. Então, é por aí. Pintou aquela sessão no meio da semana, com ingresso promocional? Vai ver que vale. Fora isso, guarde seu dinheiro, bjundas e até a próxima.