Falange Resenha | Mulher-Maravilha

0
183

vinheta Mãe Serpente Bastille
O universo expandido da DC no cinema (DCEU) não tem sido muito animador. Tivemos um Homem de Aço (Man of Steel, 2013) razoável, seguido por um Batman vs Superman (2016) medíocre e um Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016) ofensivo para piorar a situação. Não é à toa que o Náusea arrumou uma desculpa de última hora para não resenhar Mulher-Maravilha (Wonder Woman). E é claro que sobrou pra Mãe. Para ter mais coragem, a Mãe também arrastou Bastille para o cinema. E, Náusea, parafraseando você: otário. Além de ser o melhor filme do DCEU, Mulher-Maravilha é um excelente filme de super-heróis. Claro que com as limitações que essa identificação de gênero implica.

Bonjour! Devo até agradecer à Mãe pelo convite. Como muita gente, já tenho preconceito com os filmes do DCEU, e apesar de ter esperança de Mulher-Maravilha ser melhor do que os filmes anteriores, fui ao cinema com certo medo. Mas saí da sala satisfeita. Vou fazer meus comentários aqui no meio do texto a Mãe. Podem me encontrar nos parágrafos de cor azul.

Simples e funcional

Grande parte do sucesso de críticas de Mulher-Maravilha, até o momento, é certamente derivado de sua simplicidade. Longe de desmerecer o filme, isso é um aspecto extremamente positivo em um filme de origem de super-heróis. Óbvio que subverter a fórmula clássica do gênero pode render obras-primas como Logan (2017). Mas não há nada de errado em seguir uma linha narrativa mais previsível e direta, desde que a produção seja bem feita. É o que ocorre em Mulher-Maravilha. Sem fugir quase nada do material de origem, e entregando exatamente o que a campanha de marketing promete. O roteiro é conciso, mas bem trabalhado, e o resultado final é uma estória completa, sem pontas soltas, cortes inexplicáveis e reviravoltas confusas e sem sentido. Nada como os seus predecessores.

Os trailers de Mulher-Maravilha davam a impressão de que o filme ia ser bom. Mas trailers bons são marca de fábrica da DC, e nem sempre o resultado final é tão bom quanto o prometido. Desta vez, no entanto, não houve um abismo entre o prometido e o entregue. O que dá uma imensa satisfação ao filme acabar.

É claro que Mulher-Maravilha não foge de alguns clichês desnecessários, mais culpa do gênero do que do filme em si. Podem esperar personagens secundários excêntricos que, no fim das contas, não contribuem em nada para a trama. E a famosa batalha final contra um vilão verborrágico. Isso também é uma falha de outros estúdios, como Marvel, Fox e Sony. Mas, em comparação com o resto do DCEU, a repetição desses lugares comuns não só é perdoável, como até mesmo bem-vinda. Sem tentar fugir do óbvio, Mulher-Maravilha foi produzido para ser divertido, emocionante, agradar fãs da heroína a partir de uma estrutura clássica.

Humor e drama

Outro ponto que merece enorme destaque é a capacidade de Mulher-Maravilha de mesclar cenas leves e bem humoradas com o peso da guerra. Algo já utilizado, em menor medida, por filmes como Thor (2011), e como piada recorrente em todas as aparições do Capitão América nos cinemas. Mas que, considerando o contexto específico das amazonas, dá certo também com Diana. Não se trata de um filme voltado para a comédia, no entanto, já que a reprodução da Primeira Guerra Mundial tem como objetivo explorar os limites da capacidade humana de destruição, um dos temas centrais do filme.

Aproveito a menção ao Capitão para dizer que é impossível não fazer um paralelo entre Mulher-Maravilha e Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, 2011). Não só por causa da alternação entre cenas de humor e cenas pesadas, mas pelo contexto todo. Em ambos os filmes, temos alguém cujo lugar não é, a princípio, na guerra: Steve Rogers, por ser fisicamente fraco, Diana Prince por ser mulher em um mundo que valoriza apenas homens. E por mais que Diana possua naturalmente força física e que Steve a adquira, ambos demonstram qualidades muito mais importantes para pôr um fim na guerra: coragem e altruísmo. E, claro, ambos têm um par amoroso, e o casal formado por ela e o Coronel Steve Trevor lembra inevitavelmente o de Steve Rogers com Peggy Carter.

Vale notar também que tanto o humor quanto o drama derivam da mesma fonte: o estranhamento. Diana tem um choque cultural depois de viver toda sua vida isolada em Themyscira. Esse conflito de costumes gera piadas, claro, mas também uma crítica à forma como se lida com situações difíceis, principalmente em tempos de guerra. A diferente forma de personagens se vestirem pode ser engraçada. Entretanto, é a falta de compreensão de Diana sobre o porquê de pessoas serem abandonadas para a morte em nome de uma vitória, um acordo ou uma missão que esconde o potencial de Mulher-Maravilha de lidar com questões sérias. E é também dessa forma que o filme irá trabalhar de forma sutil a exclusão social da mulher.

MULHER-Maravilha

Se hoje em dia mulheres ainda são condicionadas a certos papeis na sociedade, isso era muito mais forte em 1918. E Diana, até então acostumada a conviver apenas com mulheres, se depara com o machismo de uma forma muito brutal. Enquanto seu objetivo é apenas salvar vidas inocentes da violência da guerra, os homens “importantes” da sociedade estão incomodados com sua presença em locais considerados masculinos, e o fato dela dar sua opinião sobre as atitudes a adotar para acabar com a guerra. Na época, e principalmente no ambiente militar do qual Trevor faz parte, mulheres estão em uma posição hierárquica inferior. Não tomam decisões, apenas cumprem ordens. Algo a que Diana não se conforma. Ainda bem!

Sem grandes spoilers (até porque está quase tudo no trailer), o estranhamento de ter uma mulher em um ambiente de homens e de violência, no entanto, deixa aos poucos espaço para admiração. Tanto das mulheres e crianças que a heroína acaba por salvar, quanto dos homens com quem divide o campo de batalha. A relação dela com Steve também passa por essas fases: se ele tem, inicialmente, o instinto de protegê-la, logo percebe que ela não precisa dessa proteção, e acaba por aceitar que há coisas que apenas ela pode fazer, deixando ele em segundo plano. A vontade de proteger Diana, então, não é mais devida ao fato dela ser mulher, mas sim dela ter se tornado importante e querida para ele.

Mulher-Maravilha

É como Bastille disse. Mulher-Maravilha consegue abordar o conflito de gênero da época, mesmo de forma bem humorada, e posiciona a super-heroína no debate ainda contemporâneo do espaço da mulher na sociedade. Isso é extremamente importante, já que esse é o primeiro grande filme de super-herói a estrelar uma figura feminina no papel principal. E nem ousem citar Mulher-Gato (Catwoman, 2004) e Elektra (2005)! Tempos sombrios para a Marvel e DC…

Questões técnicas

Visualmente, é possível encontrar problemas significativos em Mulher-Maravilha. O primeiro deles é o excesso de cenas geradas por computador. A modelagem digital é amplamente utilizada pelo gênero, logo, se é possível notar o excesso do recurso, algo está muito errado com essas escolhas visuais. Isso ocorre porque, para reforçar os superpoderes da Mulher-Maravilha, o filme insiste em introduzir recursos de câmera lenta no meio de combates, além de forçar Diana a realizar saltos sem qualquer verossimilhança. Saltos no mesmo estilo do Hulk de 2003. Sim, feio desse jeito. Talvez por uma preocupação com excitar o público com mais cenas monumentais, talvez por insegurança de que a mensagem pretendida seria repassada. De qualquer forma, essas cenas, embora isoladas, quebram muito do tom realista do resto do longa metragem.

Os pulos… realmente não há como não falar sobre os pulos de Diana, que são extremamente forçados. Talvez seja o que mais incomodou no que diz respeito à parte técnica, junto do 3D, que neste filme é muito mal aproveitado. Por que essa obrigação de ter uma versão em 3D, se o recurso não acrescenta nada? Não que seja mal feito no caso de Mulher-Maravilha. É apenas desnecessário.

Fora isso, não há muito o que falar, a fotografia é bonita sem ser extraordinária, e os figurinos muito bem realizados, tanto os de Themyscira quanto da Londres do início do século 20 e dos combatentes da guerra. Um acerto importante para contar uma estória que ocorre em vários ambientes diferentes em um época já um pouco longe da nossa.

Vou ter que discordar um pouco de Bastille. O 3D no geral é mal aproveitado. Porém, em algumas cenas relacionadas a tiros e projéteis, o efeito de profundidade acrescenta muito valor estético. Tudo bem que acontece apenas meia dúzia de vezes, durante poucos segundos. Mas ainda assim é necessário mencionar. A coreografia das cenas de combate também é muito bem produzida. Algumas das sequências, principalmente no início do filme, tem um número alto demais de cortes, devido, mais uma vez, à introdução da câmera lenta. Mas, no geral, as cenas de ação são bonitas de se ver, e bem pensadas.

Em resumo, e apesar dos problemas, Mulher-Maravilha vale muito a pena. Pela sua heroína coesa, sua capacidade em navegar entre diversas emoções, e também por ser um filme da DC com uma narrativa bem fechadinha. Até os mais céticos podem ter uma boa surpresa. 

Para fechar, os bastidores do filme são extremamente relevantes para seu significado. Não só porque a diretora, mulher, conseguiu realizar um trabalho muito superior a seus colegas homens, em um universo voltado para o público masculino. Também porque, segundo a própria Gal Gadot, sua experiência com ballet foi mais importante que seu treinamento no exército israelense para a preparação física exigida em Mulher-Maravilha. Mais significativo que isso, impossível.