Falange Resenha | Samurai Jack – 5ª Temporada

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Mãe Serpente
E então, tudo acaba. Depois de dezesseis anos, e 62 episódios exibidos, a série que marcou milhares de pessoas chega a seu desfecho. A criação de Genndy Tartakovsky teve seu fim anunciado em 2015, e desde então a Mãe contou os dias para retornar, mais uma vez, ao universo fantástico de Samurai Jack. Com demônios, guerreiros, robôs, feitiços, máquinas futurísticas, e uma releitura bela e criativa dos elementos culturais e lendas de nosso mundo. Desde povos africanos, aos 300 de Esparta, passando por macacos alienígenas e escoceses briguentos. Cada episódio de Samurai Jack reinterpreta fatos, personagens e esteriótipos, de modo a criar um futuro fantástico, em que o confronto entre Jack e Aku serve de metáfora para a simples, e eternamente retornada, luta do bem contra o mal.

Agora podemos dar um veredito final para a série, depois da conclusão do conto de Jack. E as previsões que a Mãe fez aqui na Falange, em março, depois da exibição do primeiro episódio, foram acertadas. A quinta temporada não é tão boa quanto a série de doze anos atrás. Ela é ainda melhor.

Para adultos?

Apesar de ter sido exibido pela primeira vez em um canal dedicado ao público infantil, a estética única e autoral, o uso impecável do som, e a necessidade de um grande arcabouço cultural para compreender todas as referências, atraíram cada vez mais um público adulto. Público esse que cresceu com o envelhecimento das crianças que acompanhavam as aventuras de Jack, há mais de uma década. A decisão de mudar a exibição do Cartoon Network para o Adult Swim, então, visa direcionar a nova temporada para as pessoas que acompanharam Samurai Jack no auge da série. A mudança de canal, além disso, retira as limitações de faixa etária que um canal infantil possui, e permite maior liberdade criativa na produção da série.

Isso não significa que o nível de violência aumentou, nem que o tom da série se alterou completamente. Mesmo porque uma alteração completa do que já foi feito significaria a perda de muitos elementos que tornaram o desenho tão querido por sua legião de fãs. As mudanças são mais sutis, e ainda assim fazem diferença. A primeira coisa a se notar é a existência de sangue. Antes, somentes robõs poderiam ser inimigos de Jack, já que a morte e as decepações de seres vivos seriam chocantes demais para crianças. Agora, Genndy Tartakovsky aproveita o recurso do sangue como elemento da própria narrativa, e a inclusão do vermelho na paleta de cores frequentes realça ainda mais a beleza de vários quadros exibidos ao longo dos episódios.

Samurai Jack
Muitas das cenas não teriam o mesmo impacto visual sem a presença do sangue.

Não se trata, então, de aumentar o nível original de violência do desenho, mas apenas de resignificar os combates, no estilo já conhecido. Isso para levantar a questão da culpa e do autocontrole de Jack quando o samurai enfrenta inimigos de carne e osso. Temas considerados pesados, e ligados à mitologia do samurai, como o ritual do seppuku, também ganham um destaque importante na trama. Uma trama que se desenrola ao longo dos dez episódios. Essa é a segunda maior diferença entre o Jack de 2017 e aquele de 2004. A continuidade.

Samurai em sequência

Desde a abertura do primeiro episódio, lançado em 2001, o destino de Jack já foi selado. Preso no futuro por um demônio oriental, Jack precisa voltar ao passado para impedir que esse mesmo demônio crie seu reinado de terror. A questão então, não é o que irá acontecer. Mas como, e quando, os eventos irão se desenrolar.

Entre 2001 e 2004, existe uma continuidade solta entre os episódios de Samurai Jack. Assistir aos episódios em sequência permitia compreender melhor algumas referências e ligações. Mas perder episódios não afetava o entendimento da trama. Isso porque Samurai Jack ainda estava ligado ao modelo clássico dos desenhos animados, com narrativas que começam e terminam em episódios de 20 minutos. Esse formato permite ao canal espalhar episódios em dias e horários distintos. Isso devido à incrível capacidade das crianças de rever o mesmo conteúdo diversas vezes, e de sua suposta incapacidade de acompanhar tramas complexas.

Samurai Jack
A continuidade entre episódios permite até acompanhar o desgaste do equipamento de Jack, e o uso de novas armas e ferramentas encontradas em episódios anteriores.

A quinta temporada de Samurai Jack também se preocupa em fechar uma narrativa específica a cada episódio. Como toda boa série deveria fazer. Mas os episódios são continuações diretas uns dos outros, e exigem uma fidelidade maior do espectador. A maior complexidade narrativa não impede que vilões pontuais surjam em episódios específicos, nem que subtramas possam ser concluídas no tempo limitado do programa. Mas isso permite trabalhar melhor o desenvolvimento emocional e psicológico de personagens, novas e já conhecidas, além de indicar uma progressão constante rumo ao combate final entre Jack e Aku.

Filhas de Aku

A criação mais interessante de Tartakovsky para a última temporada são as Filhas de Aku. Já anunciadas no trailer de lançamento, o grupo de vilãs é central para a conclusão da estória. E com a licença dos leitores, será necessário utilizar de spoilers leves para explicar sua importância. As Filhas de Aku foram criadas como o espelho do herói: treinadas de forma brutal e violenta desde crianças para combaterem o samurai. Com o passar dos episódios, no entanto, Ashi, a líder do grupo, é obrigada a confrontar seu conhecimento do mundo, e aceitar que Jack não é a grotesca caricatura que mostraram a ela desde jovem. Isso se dá, principalmente, pela aparição constante de personagens do passado.

Samurai Jack
As Filhas de Aku. Sete assassinas treinadas uma vida inteira pra destruir quem acreditam ser o maior vilão do mundo: Samurai Jack.

As principais ações de Jack, ao longo dos 52 episódios das quatro primeiras temporadas, são retomadas. Não só pelo saudosismo, mas para reforçar o argumento principal da série. O sacrifício de si, a compaixão pelos outros, o impulso de ajudar quem necessita. As características principais de Jack têm um efeito direto no mundo, por mais sombria que a realidade possa parecer. A quinta temporada, então, trata de Jack, já desacreditado e sem esperança, sendo obrigado a compartilhar da mesma descoberta de uma inimiga: a de que suas ações importam. E o ápice dessa certeza não poderia ser outro que não o combate final contra Aku, com a reunião de dezenas de personagens conhecidas. É a união, e o companheirismo, que podem salvar a todos.

Samurai Jack
E não se preocupem. O Escocês está de volta!