Falange Resenha | Agentes da Hydra (Agents of S.H.I.E.L.D. – 4ª temporada)

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Mãe Serpente
Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. (ABC, 2013 -) é um dos maiores exemplos da televisão contemporânea. Não por sua exímia qualidade, mas por sua capacidade de reconhecer erros e se reinventar. A primeira temporada da série começou como uma mistura de sitcom e série policial, que servia apenas para aproveitar a animação com o Os Vingadores (The Avengers, 2012), recém lançado. Era ruim. Não dá para amaciar. Aos poucos, no entanto, toda a equipe se esforçou para repensar a série, e garantir um futuro independente do cinema. O novo formato, da quarta temporada, proprõe aprofundar a ideia dos arcos. E o último arco, Agentes da Hydra, mostra todo o potencial de Agents of S.H.I.E.L.D..

A estrutura de arcos

Para quem olha de fora, quadrinhos podem parecer impossíveis de ler. São centenas de volumes para uma única personagem, em um universo com dúzias de nomes importantes, e estórias que se entrecruzam a todo instante. Como uma forma de se tornarem mais agradáveis para os novatos, assim que as grandes narrativas foram criadas pelas editoras de quadrinhos, também surgiu a ideia dos arcos. Um arco é uma estória completa, capaz de se sustentar por si só, e que pode ser lida independente do leitor acompanhar ou não o universo como um todo.

É claro que vão existir personagens desconhecidos, ou citações a eventos de outros arcos. Mas, principalmente em tempos de wikipedia, essa estrutura acolhe leitores que querem conhecer mais de sua personagem favorita. Sem, com isso, exigir que ele recupere décadas de quadrinhos perdidos. Além do mais, cada arco costuma encerrar com uma cena que introduz o arco seguinte. Assim, fica fácil também para as editoras cativarem novos leitores a continuar sua leitura com edições futuras.

Desde a segunda temporada, Agents of S.H.I.E.L.D. experimenta com a ideia dos arcos. Influenciada, principalmente, pela novidade de seriados que dividem sua temporada em duas partes, de forma a tornar a pausa de fim de ano menos sofrida. A quarta temporada, no entanto, representa o maior acerto da série. Cada uma das três partes tem um nome próprio, uma abertura diferente e uma narrativa que funciona de forma independente, apesar de referências a eventos anteriores. Igual aos quadrinhos.

Agents of Shield Ghost Rider Motoqueiro Fantasma
A quarta temporada também tentou explorar ao máximo personagens mais conhecidos dos quadrinhos, apesar das limitações de sempre impostas pela direção criativa do cinema.

É impressionante acompanhar a evolução de Agents of S.H.I.E.L.D.. De uma série ruim, para uma série legalzinha, e para a melhor adaptação do formato de quadrinhos que já conseguiram fazer na telinha. Além de se tornar uma excelente adaptação, a divisão da narrativa em arcos permite também maior liberdade criativa, já que ideias que não dão muito certo podem ser abandonadas depois de pouco tempo. E a certeza da mudança influência o espectador a retornar para a série depois de pouco tempo, mesmo se um arco específico não o agradou. Essa evolução é o que garantiu a continuidade da série em uma quinta temporada. Havia o risco de cancelamento no início da quarta.

Agentes da Hydra

Agents of S.H.I.E.L.D. sofre de um teto criativo que dificulta seus roteiristas. A série é considerada menos importante que o cinema, e por isso não pode escolher com total liberdade os elementos que pretende utilizar. Nesse sentido, a quarta temporada é a mais ousada, na perspectiva de soluções criativas.

O primeiro arco, Ghost Rider não podia utilizar o Motoqueiro mais conhecido, Johnny Blaze. Ainda assim, o trabalho com o Motorista Fantasma Robbie Reyes foi muito bem recebido, e até ajudou a divulgar a personagem. De modo semelhante, LMD trata dos androides famosos para os leitores, mas sem a presença de Nick Fury. Outra mudança de narrativa que ainda foi bem sucedida. Entretanto, é o terceiro e último arco, Agentes da Hydra, que exemplifica o potencial da nova estrutura.

Perdidos em uma simulação de computador, os protagonistas ganham uma nova vida, em um mundo dominado pela Hydra. As mudanças nas memórias e na narrativa de vida de cada um deles causa alterações profundas em suas personalidades. Cabe a poucos pessoas, não afetadas pela ilusão, encontrar os amigos, acordá-los e retornar ao mundo real. Mesmo que esses amigos tenham se tornado cruéis e violentos no novo mundo.

Agents of Shield Agentes da Hydra
Peças de propaganda da Hydra no novo mundo. Os cartazes dizem “Eu estou com a Hydra. E você?” e “Denuncie. Pela humanidade.”

O conceito de realidade paralela não é nenhuma novidade para leitores de quadrinhos. Na telinha, porém, permitiu que o elenco, como um todo, demonstrasse o quanto amadureceu ao longo dos anos de série. O grande destaque é Fitz, que de alívio cômico, na primeira temporada, se tornou uma personagem mais séria e com performances invejáveis. Apesar do maior crescimento de Elizabeth Henstridge, no papel de Jemma, ter ocorrido na segunda temporada, a atriz ainda mantém uma qualidade altíssima. Infelizmente, Clark Gregg, o Agente Coulson, continua sem sal. Se ele já foi o ponto alto da série (que absurdo), agora é seu maior problema. Elogios também precisam ser dados para John Hannah, no papel de Radcliffe, e Mallory Jansen, AIDA/Ophelia. Ambos não são atores regulares na série, mas sua contribuição para o arco, e para a quarta temporada, é incomparável.

Agents of Shield Agentes da Hydra
“Inumanos, porque nós os tememos.” Cada personagem ganhou um papel sombrio dentro da realidade dominada pela Hydra. Coulson virou um professor de História. Uma História manipulada, claro.

Não é só o elenco que se desenvolveu ao longo dos anos. A direção se tornou mais precisa, os roteiros são melhor trabalhados, e mesmo a verba limitada não impediu os efeitos especiais de se aprimorarem. O único episódio com qualidade inferior aos outros é o último. A culpa, no entanto, cai mais sobre a ABC. É extremamente difícil planejar e executar o fim de uma temporada quando não se tem a certeza do encerramento da série, ou a garantia de sua continuidade. O aviso tardio já tinha prejudicado o final da terceira temporada, e o erro se repete. De qualquer forma, a cena pós-créditos introduz um conceito novo para a quinta temporada, que com certeza irá alimentar a discussão de fãs pelos próximos meses.

Os quadrinhos que basearam o arco

Se a realidade paralela é explorada com frequência pelas editoras de quadrinhos, duas referências diretas ajudaram a construir Agentes da Hydra. A primeira é a série What if, comentada pelo Náusea recentemente, quando falava de Guardiões da Galáxia Vol. 2. A série é um conjunto de estórias da Marvel que pensa em como pequenas mudanças mudariam todo o cenário. E se uma personagem morresse? E se um herói se tornasse um vilão? E se a Hydra dominasse o mundo? A ideia da série é justamente permitir criar estórias inovadoras com o máximo de liberdade, já que não existe a preocupação de afetar a cronologia oficial. Da mesma forma que a vida dentro da realidade virtual de Agentes da Hydra não altera a cronologia de fora da simulação do computador.

A outra grande inspiração vem de uma das sagas mais famosos da Marvel. Dinastia M (2005). Como o arco tem os X-Men como protagonistas, e os direitos dos Mutantes pertence à Fox, não existe problema em fazer uma adaptação solta no seriado.

Nos quadrinhos, a Feiticeira Escarlate tem o poder de alterar a realidade. Depois de um grande trauma, a heroína utiliza todo seu poder para modificar o mundo. Nesse novo mundo, o maior desejo de cada um de seus colegas foi realizado. E isso altera drasticamente toda a história. A principal alteração é que os mutantes são maioria, e Magneto é o líder do novo mundo. A saga é extremamente interessante porque, à medida em que cada personagem desperta da ilusão, é necessário confrontar qual seria seu desejo mais intenso, mesmo que secreto.

House of M Dinastia M
A Dinastia de Magnus, líder do mundo criado pela Feiticeira Escarlate. Da esquerda para a Direita: Mercúrio, Feiticeira Escarlate, os dois filhos da Feiticeira (Thomas e William), Magneto e Polaris.

Apenas como exemplo, Peter Parker, o Homem Aranha, é casado com Gwen Stacy e tem dois filhos na Dinastia M. Na realidade, Gwen está morta, e Peter casou com Mary Jane Watson. Como voltar para a realidade sabendo que os filhos que você amava eram uma ilusão? Como voltar para seu casamento depois de descobrir que seu desejo mais interno é reviver um amor do passado?

Essas questões que são exploradas em Dinastia M foram repaginadas em Agentes da Hydra. AIDA, a cocriadora da realidade virtual, corrige o maior arrependimento de cada uma das personagens. E isso força os agentes da S.H.I.E.L.D. a confrontarem seus medos, seus limites, e mesmo a força de seus relacionamentos. Uma forma extremamente inteligente de reaproveitar Dinastia M sem problemas de direitos autorais.