Falange Resenha | A Autópsia

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Mãe Serpente
Já era para termos falado disso há um tempo. Mas a Mãe ficou enrolada com o canal de Youtube da Falange. Apesar disso, como cinema de terror é importante para a Mãe, não podia faltar uma resenha, ainda que breve, de A Autópsia (The Autopsy of Jane Doe). E a brevidade, aqui, é menos culpa da falta de tempo e mais da falta de conteúdo do filme. O que é uma pena, considerando que A Autópsia traz muitos elementos que poderiam ser melhor aproveitados.

Uma ideia promissora

Em um universo cinematográfico marcado pela repetição, A Autópsia é promissor. As primeiras cenas já definem um uso próprio de câmera e edição de som. Ao invés de quadros estáticos, André Øvredal utiliza o zoom para brincar com enquadramentos progressivos, se aproveitando também de molduras formadas pelo cenário. Os cortes secos se combinam a variações bruscas do som ambiente. Closes se intercalam com uma exploração de cenários em contra-plongée, de baixo para cima. Esse conjunto de recursos retira qualquer possibilidade de se considerar o cenário amistoso. Desde o início da trama deixa o espectador em constante estado de alerta.

A continuação do uso de closes ao longo da autópsia em si é perturbadora. Os efeitos hiperrealistas permitem acompanhar cada detalhe do processo de dissecação. Por si só, o processo visceral lembra suas testemunhas de sua própria mortalidade. Uma autópsia tem esse efeito: mostrar que por debaixo de toda essência humana existe apenas pedaços de carne. O próprio conceito de A Autópsia é animador. A examinação médica de um corpo normalmente é reservada para filmes policiais. E reutilizar esse princípio com uma aura sobrenatural propõe certa novidade ao horror. Infelizmente, um bom conceito não basta para realizar um filme.

É difícil tirar os olhos da tela na primeira meia hora da trama. Enquanto os Tilden, pai e filho, descobrem os grotescos detalhes da morte de Jane Doe, a presença de algo sombrio se espalha pelo cenário. A ameaça é apenas sugerida, por meio de barulhos, objetos que se movem e luzes que piscam. A cada nova camada aberta do corpo, mais fácil é perceber essa presença. Nesse clima de tensão controlada, mesmo a interação entre as personagens se torna crível. Sem necessidade de uma exploração direta, o trauma de perda familiar se desenha como plano de fundo. Por isso mesmo mais fácil de tocar o observador atento.

Tudo isso é abandonado rapidamente, no entanto. Em algum momento do caminho, A Autópsia descobre que um filme precisa de mais que um conceito. Precisa de um enredo. Sem fôlego para se sustentar por conta própria, o roteiro de A Autópsia passa a reciclar todos os clichês possíveis do gênero, e logo perde o clima de medo que construiu de forma tão minuciosa.

Uma ideia só não basta

Depois que o corpo em questão termina seu exame inicial, A Autópsia se perde no lugar comum. Monstros que pulam na frente do espectador, fumaça, sequências e mais sequências de decisões estúpidas e injustificadas dos protagonistas. Há mesmo o espaço para um diálogo mal escrito para reforçar, desnecessariamente, a ligação entre pai e filho. Com o simples objetivo, fracassado, de dar ao final previsível uma carga emocional maior.

E como A Autópsia trata de um procedimento médico, vale tudo para explicar efeitos paranormais sem fugir à ciência. Inclusive relacionar bruxas, Inquisição, células imortais e transferência de energia. Enquanto horror sugerido, o cadáver é capaz de fazer de sua presença impactante. Tão logo a colcha-de-retalhos de uma explicação incoerente surge, o terror se transforma em ridículo.

Traído pelo roteirista, pelo diretor, pelo estúdio ou por uma confluência de todos esses entes, A Autópsia cai na mesma armadilha que dezenas de filmes de terror medíocres que são lançados todos os anos. O dogma da fórmula pronta impõe limitações criativas drásticas, e obriga a reutilização de recursos à exaustão, na esperança que o espectador, saturado, possa pelo menos compensar o custo básico da produção. Aqui, no entanto, a falha é mais cruel, quando se tem em vista o potencial cinematográfico do conceito, fotografia e direção de câmera.