Falange Resenha | Bendy and the Ink Machine

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Mãe SerpenteExistem tantos projetos independentes inundando o mercado que fica difícil acompanhar todos. Boa parte consiste em títulos repetitivos e genéricos, é verdade. Mas, infelizmente, essa supersaturação faz com que a Mãe demore para descobrir projetos tão interessantes quanto Bendy and the Ink Machine (TheMeatly Games). Já devo, então, agradecer à falangeira Missewinn (a mesma que ganhou a última edição do Falange Indie). A dica veio dela, e a Mãe ficou extremamente feliz com a sugestão.

Bendy and the Ink Machine é um jogo de horror em primeira pessoa. O jogador precisa explorar um ambiente claustrofóbico, sem saber ao certo quais perigos espreitam em cada esquina. Nada muito novo até aqui. Porém, a genialidade de Bendy and the Ink Machine começa em sua temática. A estória gira em torno de Bendy, uma personagem de desenhos animados antigos, inspirado em Mickey Mouse e na Disney. O criador de Bendy, Joey Drew, decidiu que fazer desenhos animados não era suficiente. Misturando as artes ocultas e tecnologia, Joey encontra uma maneira de trazer suas criações à vida. E é aí que os problemas começam.

Minimalista e profundo

A primeira coisa a se notar em Bendy and the Ink Machine é a arte característica do jogo. Todas as texturas utilizam traços simples, que remetem aos desenhos em 2D, para a construção de seus cenários. A ideia é reproduzir o traço simples das animações das décadas de  1930 e 1940 em todos os elementos do cenário. O piso, as paredes e cada um dos objetos encontrados simula essa estética, o que ajuda o jogador a se sentir mais imerso no universo fantástico de Bendy.

A jogabilidade segue o padrão de títulos de horror em primeira pessoa, com a inserção de puzzles que consistem apenas em encontrar itens escondidos ou apertar botões. Mas mesmo esses elementos mais simples são bem trabalhados. A maior parte dos itens e botões é gerada de forma aleatória, o que estimula o jogador a realmente percorrer todos os corredores e salas dos estúdios Joey Drew. Não é possível simplesmente seguir um mesmo caminho a cada jogo, e isso contribui de maneira significativa para a tensão final. Mesmo ao rejogar o mesmo capítulo, a sensação inicial de desorientação irá permanecer, de certa forma, com o jogador.

Bendy and the Ink Machine
Apesar da mesma base de textura ser aplicada a todo os elementos, ‘Bendy and the Ink Machine’ ainda assim possui objetos e cenários detalhados e bem modelados.

Os objetos encontrados também não servem apenas como chaves de acesso a novas áreas, mas ajudam a traçar um panorama narrativo que se estende muito além dos vinte minutos de cada capítulo. Bendy and the Ink Machine consegue criar todo um universo a ser explorado. E faz isso utilizando um recurso básico da narrativa audiovisual: mostre, não conte. Ao invés de grandes cenas expositivas, e de custscenes longas, Bendy and the Ink Machine convida o jogador a ser parte ativa da construção da estória. É necessário observar os posteres espalhados na parede, olhar de perto os rabiscos em partituras, e mesmo ouvir de forma atenta as fitas espalhadas pelo local, com o duplo uso de guiar o jogador e desenvolver a trama e as personagens.

Essa opção narrativa é uma tendência contemporânea em videogames, que deve muito à série SoulsDemon’s Souls (2009), Dark Souls (2011, 2014 e 2016) e Bloodborne (2015), todos produzidos pela From Software. Mas a escolha funciona perfeitamente em um cenário de horror. A Mãe já discutiu em outras oportunidades o quanto o desconhecido alimenta o medo. Logo, não é nenhum mistério que construir um universo por meio de fragmentos e pontas soltas seja uma excelente forma de causar uma sensação constante de apreensão. O uso moderado de jumpscares também é um ponto positivo em favor de Bendy and the Ink Machine. Dar sustos é relativamente fácil; mais difícil é causar uma inquietação permanente. E o jogo consegue.

Bendy and the Ink Machine
Boris, o Lobo. Não é só Bendy que foi trazido à vida pelo chefe louco do estúdio. E os propósitos obscuros desses experimentos ainda estão por ser revelados em episódios futuros.

Bendy and the Ink Machine para além do jogo

O projeto foi lançado recentemente, e o formato episódico faz com que o conteúdo já distribuído seja pouco. O primeiro episódio é de fevereiro, enquanto o segundo saiu no dia 18 de abril. Cada um pode ser terminado em 15 minutos, embora uma primeira experiência leve em média meia hora. Apesar disso, Bendy and the Ink Machine já atraiu uma base de fãs extremamente fiel, e abriu espaço para a comercialização de camisas, canecas, pôsteres e, em breve, até bichinhos de pelúcia de Bendy e sua turma.

Bendy and the Ink Machine
Quem olha sem contexto não consegue negar que Bendy é fofo…

Uma possível explicação para o sucesso é o fato de Bendy lidar, de maneira tão direta, com a memória afetiva dos jogadores. Todo o conceito do jogo parte dos desenhos animados, e esse é um formato televisivo que faz parte da infância de praticamente qualquer ser ciente. Antes de produzir um jogo, o site TheMeatly já publicava tirinhas, e o criador de Bendy possui experiência de longa data com desenhos e iconografia. Isso ajudou a criar personagens que se assemelham o suficiente com às da Disney para serem reconhecidas, mas possuem identidade própria ao ponto de serem admiradas de forma independente.

Uma outra estratégia para agregar fãs é envolvê-los diretamente na produção do conteúdo. É por isso que, apesar de não ter a atenção da grande mídia de entretenimento, TheMeatly já realizou concursos de ilustrações, e até mesmo incluiu alguns dos desenhos escolhidos no segundo capítulo. Essa é uma preocupação digna de nota. Mesmo porque, assim como boa parte da indústria independente, Bendy and the Ink Machine só pôde ser concretizado a partir de doações, em uma campanha de financiamiento coletivo.

Gameplay da Mãe

Para acompanhar a resenha, a Mãe Serpente preparou um gameplay dos dois capítulos disponíveis de Bendy and the Ink Machine. O gameplay está disponível com os comentários da Mãe, para que você acompanhe como foi minha primeira experiência com o jogo. Para quem quer apenas assistir aos episódios e aproveitar a excelente trilha sonora e edição de som, há também uma versão sem comentários. Desde o último fim de semana, a Mãe passou a publicar vídeos com frequência no canal de Youtube da Falange. Então, para acompanhar todo o conteúdo da melhor equipe de super-heróis que trabalham com entretenimento do universo, é bom se inscrever por lá também.