Falange Resenha | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

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Mãe Serpente
Antes de começar, a Mãe precisa dizer que é muito bom estar trabalhando até essa hora para poder falar de A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell). A Falange foi convidada pela Paramount para uma sessão antecipada de A Vigilante do Amanhã, e a Mãe compareceu. Porém, precisávamos guardar segredo até ontem, há exatamente um minuto. Estamos acostumados a guardar segredos. Guardamos identidades secretas, a localização do QG, o Amethysto dentro de um armário quando a máfia russa vem cobrar a dívida de jogo dele. Mas foi particularmente difícil não falar sobre a nova versão de uma obra que trata de forma tão poética questões tecnológicas profundas.

O clássico Ghost in the Shell, também conhecido como O Fantasma do Futuro em terras tupiniquins, impressiona e choca milhares de fãs desde 1995. Não é para menos que uma nova versão do filme, a primeira em live action, tenha atraído tantas expectativas e receios. Principalmente quando a estrela do filme é uma das atrizes queridinhas da última década, Scarlett Johansson. Mais ainda quando A Vigilante do Amanhã chega aos cinemas cercado da polêmica sobre descaracterização étnica. E ainda mais quando adaptações fracassadas de filmes orientais não ajudam na reputação de Hollywood de tratar obras complexas. Então, antes de tratar das principais características de A Vigilante do Amanhã, vamos já resumir o veredicto. O filme é bom. Mas não tão bom.

O impacto visual

É impossível achar qualquer elemento visual em A Vigilante do Amanhã que seja passível de críticas. O filme se propõe a simular com perfeição os quadros da animação original, cheios de cores e luzes brilhantes. A construção da cidade futurística em que a trama se desenrola é perfeita, e o avanço tecnológico permite que o live action seja ainda mais impactante. Hologramas ganham vida, e é possível ver com detalhes cada camada da enorme profundidade dos cenários. Principalmente porque o 3D não foi adicionado à película apenas para se adequar à tendência do momento. A tecnologia tridimensional ajuda a dar vida para hologramas e letreiros luminosos, e as cenas de ação foram coreografadas para permitir que objetos sejam lançados em direção ao espectador. Tudo de maneira fluida e funcional.

Ghost in The Shell A Vigilante do Amanhã
A atenção aos detalhes e ao fotorrealismo são características marcantes da franquia ‘Ghost in the Shell’, ainda mais em destaque no filme live action.

As cenas de ação também ganham impacto com a qualidade estética permitida pelo cinema contemporâneo. A produção de A Vigilante do Amanhã sabe como tirar proveito de realces digitais, e brinca com contrastes e campos de visão. A supersaturação da cidade é contrastada por cores sóbrias, enquanto um corredor escuro pode realçar o azul de bastões elétricos. O uso da trilha sonora original do anime ajuda muito na criação de uma relação afetiva com os fãs, e como as faixas de áudio foram compostas para se adaptarem com perfeição à temática de Ghost in the Shell, irá agradar também quem ainda não conhecia a obra.

Houve uma preocupação real com a qualidade estética do filme, e se efeitos especiais são um critério importante, é recomendado que se assista ao filme na melhor tela possível. Porém, se a narrativa é o que controla sua decisão de ir ao cinema, é necessário fazer algumas considerações.

Mudanças e adaptação

Não existe uma necessidade de ser fiel à obra original para chegar a um bom resultado. Essa afirmação pode desagradar fãs mais inflexíveis. Mas o que move adaptações são justamente as releituras. É impossível fazer uma nova versão de qualquer coisa que seja idêntica à original; e nem é desejado. Não seria necessário fazer uma adaptação se seu objetivo fosse apenas copiar o material de base. A Vigilante do Amanhã demonstra que sua equipe de produção tem plena consciência disso, e assume, desde a cena inicial, que apesar de ser baseado no anime, o filme é uma obra própria, independente.

Ghost in The Shell A Vigilante do Amanhã
O mergulho que abre o anime de 1995 também funciona como abertura do filme, apesar de diferenças significativas já surgirem aqui.

Existem alterações profundas no roteiro, e a trama segue mesmo um vilão diferente, ainda que baseado no Mestre das Marionetes. E ainda que Major ainda protagonize o filme, a personagem tem uma estória de origem diferente, o que afeta também suas reações e motivações pessoais. Cenas e elementos do anime original ainda foram aproveitadas, como a icônica batalha na água, e o mergulho do topo de um prédio. Mas o contexto de acontecimento dessas cenas varia, e envolve leituras diferentes das personagens. Isso é um grande acerto de A Vigilante do Amanhã, que nesse ponto assume sua impossibilidade de reproduzir a animação de 1995 e decide seguir por um novo caminho.

Complexo de Hollywood e continuidade

Já era esperado também que a estória original fosse simplificada. Hollywood ainda considera que seu público médio é incapaz de acompanhar tramas mais complexas, e todas suas adaptações de grandes obras estrangeiras incluem clichês e simplificações. Em A Vigilante do Amanhã, temos como elementos novos a empresa malvada e os experimentos ilegais. Ao mesmo tempo, a discussão do “fantasma” como o cerne da natureza humana é substituída pela existência de uma alma metafísica, responsável pela identidade de cada indivíduo. Ou seja, perde-se por completo a profundidade da obra original.

Ghost in The Shell A Vigilante do Amanhã
A sutileza do filme original é substituída pela exposição padrão de Hollywood, que prefere deixar às claras, ao invés de sugerido, cada aspecto da trama.

Acontece que, no contexto de um filme de ação e ficção científica popular, como A Vigilante do Amanhã pretende ser, essas mudanças funcionam. A nova versão pode até mesmo ser preferida por boa parte do público, justamente por contar com mais ação, menos momentos reflexivos, e ser mais fácil de digerir. Porém, faltou coragem de expor o filme como ele é. O desfecho propõe uma reflexão supostamente filosófica, mas que acaba por ser rasa. Além disso, destoa por completo do que foi mostrado anteriormente, criando até mesmo incoerências entre cenas diferentes da mesma personagem.

A tentativa de aproximar a narrativa do padrão de Hollywood também vai um pouco longe ao encaixar elementos de amor juvenil em torno de uma Major já enfraquecida pelo resto do roteiro. Principalmente porque é um recurso mal trabalho, introduzido de forma apressada para justificar uma possível (e provável) continuação. A tendência cinematográfica atual, de já planejar sequências, e ser obrigado a encaixar ganchos para que elas aconteçam, fica em evidência nas cenas finais. Diálogos desnecessários, e mesmo sem sentido, surgem apenas para que o espectador vislumbre a desnecessária continuação.

Branquitude e diversidade

Desde o início da produção, A Vigilante do Amanhã recebeu duras críticas por ter uma atriz caucasiana em um estória que se passa no Japão. No caso específico de Ghost in the Shell, não haveria problemas com essa mudança. A princípio. Os temas tratados no anime têm a pretensão de serem universais, e não partem da cultura japonesa, mas da relação do homem com a tecnologia. Uma versão do filme que explorasse os mesmos temas em um contexto norte-americano não prejudicaria, necessariamente, a base narrativa de Ghost in the Shell.

O problema é que A Vigilante do Amanhã claramente se passa no Japão, com referências diretas a esteriótipos culturais como gueixas e a Yakusa. E não é só Major, que é um androide de corpo sintético, que ganhou vida com uma atriz caucasiana. A maioria esmagadora do elenco é formada por caucasianos. Ao ponto do ridículo de imaginar um Japão onde nem mesmo os garis são japoneses. Uma decisão infeliz, principalmente em tempos em que se discute, felizmente, a necessidade da diversidade étnica em grandes produções. Tomara que façam escolhas melhores na adaptação de Akira.

Ghost in The Shell A Vigilante do Amanhã

  • Amethysto

    Eu nunca tive problemas com a máfia russa, seu analfabeto. Eu SOU a máfia russa! Quem veio cobrar dívidas foi a máfia polonesa, e eu já renegociei com a ajuda de alguns dos seus vinis.

    A propósito, obrigado. Eles adoraram Raul Seixas. Também… quem não adora?

    • kkkkkkkk caralho, eu não deixava…