Falange Resenha | Punho de Ferro (Netflix)

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Mãe Serpente
O Universo Cinematográfico da Marvel começou nos cinemas, se expandiu em uma série de edições especiais de quadrinhos e logo foi para o canal ABC com a série Agents of S.H.I.E.L.D. (2013 -). Apesar da diversidade de suportes, no entanto, o modelo narrativo sempre permaneceu muito próximo do tom dos filmes: estórias mais leves, com uma aposta pesada no humor e em oferecer entretenimento para crianças, e não só para adultos. Não é uma estratégia ruim em si, mas certamente essa fórmula não é capaz de fazer jus a diversos personagens da Marvel. E é por isso que a Marvel se juntou à Netflix para produzir um microuniverso de séries, focadas em personagens menores que os Vingadores, e com maior liberdade criativa. A mais recente série Marvel/Netflix foi liberada na íntegra na última sexta-feira, dia 17 de março. E, infelizmente, Punho de Ferro (Iron Fist) fica muito abaixo das expectativas.

Um protagonista duvidoso

Punho de Ferro tem muitos pontos negativos. Muitos. Mas isso não significa que a série seja necessariamente ruim. Apenas como forma de entretenimento padrão, é possível assistir Punho de Ferro sem grandes problemas. Acontece que, desde que Demolidor (Daredevil, 2015) pegou todo mundo de surpresa, é impossível não esperar grandes feitos da parceria Marvel/Netflix. Apesar de problemas, as personagens principais das séries anteriores são excelentes adaptações, ao mesmo tempo em que se constroem bem o suficiente para atingirem um público externo aos consumidores de quadrinhos. E só isso já consegue justificar a atenção do espectador.

É por isso que um dos pontos mais prejudiciais da série é a falta de um protagonista carismático. O Danny Rand que vemos na telinha não tem motivações bem definidas, em nenhum momento da temporada. Suas mudanças de humor se assemelham àquelas de uma criança, e em nada deixam transparecer seus 15 anos de treinamento em artes marciais. É difícil criar uma relação afetiva com Danny quando suas ações e reações muitas vezes são desprovidas de sentido, considerando as informações que são expostas.

Um elemento da trama difícil de aceitar é a relativa ignorância de Danny Rand em relação ao poder do Punho de Ferro, mesmo depois de quinze anos de treinamento dedicados apenas para isso…

Isso ocorre, em grande parte, porque nenhuma das facetas da estória de Danny é bem trabalhada pelo roteiro. Seu treinamento aparece apenas na forma de poucos flashbacks. E o mesmo flashback ainda será reutilizado em diversos episódios. Assim, não se compreende o quanto a transformação da personagem no Punho de Ferro realmente afetou sua relação com o mundo. Mas sua vivência em Nova Iorque é tão pequena, e aparentemente tão menosprezada ao longo de todo seu treinamento, que fica difícil compreender sua relação com o lugar. E não se trata apenas de criar um conflito narrativo de uma personagem deslocada. Porque dentro de um mesmo episódio Danny é capaz de jurar fidelidade à sua missão de Punho de Ferro em uma cena, e trair na seguinte os princípios de K’un-Lun, o lugar onde cresceu. Tudo sem muita motivação aparente.

A culpa pela falta de simpatia do protagonista não cabe apenas ao roteiro. Finn Jones parece perdido o tempo todo, incapaz de compreender seu próprio papel. Algo que não ocorre com todo o elenco. Apesar do material que têm para trabalhar não ser dos melhores, Jessica Henwick consegue dar vida a uma ótima Colleen Wing. E tanto David Wehham quanto Tom Pelphrey se destacam nos papeis de Harold e Ward Meachum, que nessa versão são pai e filho, respectivamente. A relação dos dois é confusa, ambígua e cheia de furos de roteiro. Mas ambos os atores demonstram uma capacidade de tornar sua relação a mais crível possível, o que é um grande feito.

Nos quadrinhos, Collen Wing se junta a Misty Knight para formar uma dupla investigativa conhecida como Filhas do Dragão. Knight apareceu em ‘Luke Cage’, interpretada por Simone Missick. é bem provável que as duas se encontrem em séries vindouras.

As falhas do combate

As péssimas cenas de combate de Jessica Jones (2015) incomodaram um pouco depois da excelente coreografia e direção que encontramos em Demolidor. Foi um incômodo passível de ser ignorado, no entanto, já que o foco de Jessica Jones era construir um universo de furtividade e investigação, e a maioria das lutas era até mesmo desnecessária. Em Luke Cage, essa falha se tornou mais evidente. Mas, como o Luke da série não possui nenhum treinamento marcial, essa característica ainda não foi suficiente para causar um grande desconforto.

O Punho de Ferro é um dos maiores artistas marciais do mundo, se não o maior. E apesar de apostar em conflitos físicos recorrentes, a série não consegue fazer o telespectador acreditar nisso na maior parte do tempo. Os cortes nas cenas de ação são tão frequentes e constantes que tornam mesmo difícil acompanhar o movimento dos combatentes. Em uma cena em específico, ocorrem quatro cortes de câmera para mostrar um chute de dois segundos. Em comparação com a famosa cena do corredor da primeira temporada de Demolidor, ou mesmo a cena na prisão da segunda temporada, o resultado é deprimente.

Observem a quantidade de cortes introduzida em uma única cena de ação.

E percebam a diferença de direção e coreografia de Demolidor.

Também não há coerência em relação ao desempenho de Danny Rand. Em uma cena, Danny derrota uma dezena de inimigos com facilidade. Na cena seguinte, apanha para um capanga sem grande treinamento marcial. A escala de poder da personagem varia de acordo com a necessidade do roteiro. No fim das contas, não é possível saber o quão poderoso é o Punho de Ferro.

Mais uma vez a culpa deve ser partilhada com Finn Jones. O ator tem problemas óbvios em realizar as cenas de combate, o que explica o número excessivo de cortes na montagem. A comparação destaca ainda mais a performance de Jessica Henwick. A atriz não precisa de tanto suporte da montagem, e, consequentemente, suas cenas não possuem tanto cortes, e se tornam mais fluidas. Não é à toa que as melhores cenas de ação da temporada pertencem justamente a Colleen Wing, ou pelo menos contam com sua presença.

Síndrome da luta épica

Já que começamos a falar de combates, precisamos nos referir a um dos maiores problemas do Universo Marvel, em geral. Na tentativa de reproduzir a simplicidade de quadrinhos mais antigos, na luta do bem contra o mal, a Marvel ainda acha essencial construir uma luta épica entre vilão e mocinho no final de seus filmes e séries. Normalmente essa cena é uma das piores da obra em questão. (É por isso que o confronto entre Doutor Estranho e Dormammu nos cinemas chamou tanta atenção, por ter pelo menos tentado fazer algo diferente).

Quase todas as temporadas da Marvel/Netflix sofrem desse problema. Não há debate de que o confronto entre o Demolidor e o Rei do Crime represente a pior cena da primeira temporada de uma série que, até aquele momento, havia sido genial. Luke Cage (2016) também teve seu ponto mais baixo quando o protagonista enfrentou seu irmão. Se bem que todo o arco do Cascavel é problemático. (Volta, Boca de Algodão!) Jessica Jones, para nossa alegria, conseguiu fugir do clichê, e merece todo aplauso por isso.

Punho de Ferro parece não ter aprendido muito com os erros das séries antecessoras. Aqui entra um aviso de spoilers. Pode pular para o próximo parágrafo. É deprimente que o maior artista marcial do Universo Marvel nas telinhas tenha seu combate final com um empresário que treinou um pouco de boxe ao longo dos anos. E é inexplicável que ele ainda tenha dificuldade em vencer. E como o segundo grande vilão, Bakuto, foi derrotado por Collen Wing, pode-se afirmar que essa é a versão mais incompetente do Punho de Ferro que já existiu.

A questão da originalidade

O baixo desempenho da série também precisa ser justificado de acordo com o material de origem que a equipe de produção possuía. Demolidor conseguiu introduzir inovações estéticas fantásticas ao trabalhar com a deficiência visual de Matt Murdock. O uso do som e do zoom para ressaltar os sentidos aguçados do Homem Sem Medo permitiram a criação de uma identidade própria para o seriado. De forma análoga, Jessica Jones aproveitou a série de quadrinhos Alias (2001 – 2004) para introduzir uma discussão séria de abuso e violência contra a mulher. Além disso, a representação do trauma associado aos tons de roxo também criaram um visual característico na primeira temporada. Por sua vez, Luke Cage tinha todo o peso da cultura negra como plano de fundo, e as cenas simultâneas dentro e fora do clube do Boca de Algodão utilizaram ao máximo a riqueza musical desse contexto.

Punho de Ferro é uma estória mais próxima do clichê de super heróis, e isso certamente representa um desafio a mais na tentativa de inovação. Um garoto de família rica perde os pais em um acidente e é resgatado por monges. Depois de treinar durante anos, o garoto se torna o mais apto guerreiro místico, e volta para sua cidade natal para recuperar seu lugar no mundo. Essa tarefa será dificultada pelo fato que o sócio de seu pai agora controla a empresa de seu nome. Em um misto de Batman e Arqueiro Verde, a estória de origem só abre espaço para a criatividade com a exploração de K’un Lun, a cidade mística onde Danny Rand se torna o Punho de Ferro.

As poucas vezes em que vemos o esquema clássico de cores do heróis são nos flashbacks em K’un Lun.

A série Punho de Ferro não mostra quase nada de K’un Lun. Talvez por não ser considerada importante para o roteiro, talvez por dificuldades referentes à verba disponível para produção. Seja qual for o motivo, essa ausência é sentida principalmente para leitores de quadrinhos. E sem a materialização desse universo riquíssimo, construído apenas a partir de citações em diálogos, Punho de Ferro acaba por se sustentar no clichê do super herói milionário, e não consegue se destacar como um produto original. Nem mesmo a abertura de Punho de Ferro consegue transparecer uma identidade própria, e serve apenas como uma abertura padrão.

Sim, CGI é caro. Mas eu aceitava até uma Shou-Lao feita de papelão.

Punho de Ferro e o universo Netflix

Outra grande vantagem de produções anteriores da Marvel/Netflix é a existência de um universo compartilhado cada vez maior. Demolidor não teve que lidar com esse problema em sua primeira temporada, mas a cada nova produção, é necessário levar em consideração referências cada vez mais complexas. Luke Cage já ignorou detalhes importantes da trama. Mas, como se tratou de uma série limitada a um bairro específico, o Harlem, essa falta de contato com o resto do universo foi disfarçada. Em Punho de Ferro, isso já não é mais possível.

De novo será preciso dar alguns spoilers leves. Fica o aviso. Como já é padrão, Claire Temple retorna à cena. Mas nem todo o talento de Rosario Dawson consegue justificar a presença da personagem. Por motivos além da compreensão, Claire se torna personagem recorrente na série, e acompanha Danny em missões extremamente perigosas que em nada se relacionam com o cotidiano atual da personagem. Para piorar, o Punho de Ferro da série é o inimigo mortal do Tentáculo. A estratégia de introduzir esse elemento novo na narrativa poderia ser bem vinda, e não desconsiderasse toda a trama das duas temporadas de Demolidor. Claire, que acompanhou Matt Murdock, não pensa em nenhum momento em pedir a ajuda do Demolidor. E Stick e o Casto não estão visíveis em nenhum lugar. É como se o Tentáculo se constituísse de organizações diferentes nas duas séries, que em nada se relacionam. Fim dos spoilers.

A falta de conexão com as outras séries é compensada pela presença de personagens já conhecidas, e por dezenas de easter eggs. Mas isso não é suficiente para construir um universo coeso. Especialmente porque a próxima produção da Marvel/Netflix, que sai ainda esse ano, é justamente Defensores, que em apenas oito episódios promete juntar todas as pontas soltas. Tarefa difícil depois de Punho de Ferro, que amplia o número de dúvidas, e investe pouco em respostas.

Hora da Marvel/Netflix meditar sobre erros e acertos, antes de entregar a série dos ‘Defensores’