Falange Resenha | Desventuras em Série (Netflix)

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Caro leitor. Se você espera ler um artigo feliz, uma resenha agradável ou conteúdo que te faça apreciar as coisas leves da vida com cheirinho de algodão doce… por favor, dirija-se aos posts da Adelfa. Ou vá para o YouTube ver vídeos de gatinhos. Vá para qualquer lugar, mas não continue aqui. Pare de ler. Hoje, Amethysto não está aqui para te fazer sorrir. Mas sim para cumprir um dever. Dever este de resenhar a triste e sofrida história dos irmãos Baudelaire.

Na primeira Sexta-feira 13 de 2017 estreou na Netflix a versão seriada de Desventuras em Série. Baseada na série de 13 livros de Lemony Snicket, que possui o mesmo nome, a obra já possuía um filme (bem mahomenos) com Jim Carrey, Meryl Streep, Liam Aikan e mais uns nomes que não nos interessam. Aliás, estrear numa sexta-feira 13 não poderia ser mais apropriado para uma obra que possui um clima quase hostil que mescla situações pesadas e angustiantes com pitadas de humor paspalhão e um toque de coisas impossíveis e caricatas. Marketing acertou.

Em resumo, o enredo de Desventuras em Série trata do trio de irmãos Baudelaire: Violet, Klaus e Sunny. Os três unidos irmãos perdem os pais, a casa, e tudo mais que possuíam em um incêndio trágico. Seus pais os haviam deixado uma fortuna, mas eles eram menores de idade e não poderiam usufruir do dinheiro ainda. Por isso, deveriam ser criados por um tutor. E, em sua família, há um ator canastrão chamado Count Olaf, que arquiteta planos tão maquiavélicos quanto esdrúxulos para conseguir colocar suas mãos na fortuna dos desafortunados Baudelaires.

Vou iniciar a resenha citando o que, pra mim, foram os pontos positivos da versão seriada produzida pela Netflix:

O Elenco

Sem dúvidas, tivemos grandes nomes na versão cinematográfica. Jim Carrey viveu o Count Olaf (o que foi um pouco prejudicial na construção do lado vilão do caráter dele), Liam Aikan era Klaus, e foi convincente no papel. Meryl Streep também esteve lá como a tia Josephine, mas eu sinceramente nem me recordo dela. A realidade é que achei o filme bastante esquecível… mas parem de me distrair, voltemos ao que importa: o elenco da série!

Como o grande astro e antagonista da obra – o Count Olaf – temos Neil Patrick Harris (o Barney, de How I Met Your Mother). O sujeito está deslumbrante no papel. Disseram pra ele “Count Suit Up”, e ele fez. Agora sim, pode-se dizer que temos um Count Olaf completo: que vai desde o mais absurdo do humor canastrão até os seus momentos mais odiosos de personagem maléfico. Não rimos quando ele é cruel. E nos matamos de rir quando ele é estúpido. Assim como deve ser. Temos que nos lembrar também que ser o Count Olaf significa ser diversos personagens, uma vez que, aparentemente, a cada livro, Olaf assumia um disfarce diferente, que só estava óbvio para os Baudelaires, e para ninguém mais (o que, convenhamos, é de matar de rir). Conclui-se, assim, que, para um Count Olaf aceitável, o ator que o interpreta deve ser de alto nível. Para um Count Olaf de alto nível, assim como o que temos na série, o ator em questão deve ser soberbo. Neil Patrick Harris, você é soberbo. Dêem para ele o Selo Amethysto de Soberba. Esse cara merece por sua atuação LEGEN, wait for it… … … DARY!

Desventuras

Violet Baudelaire é vivida por Malina Weissman, uma menina de 13 anos (sim, meus amores, mais trezes, divirtam-se), atriz mirim em início de carreira. Ela fez muitos poucos trabalhos até então, sendo um dos mais notórios sua participação na série Supergirl como a Kara mais jovem. Ou seja: ela era uma aposta de grande risco… e quem apostou nela levou todas as fichas, porque Malina se encaixou com êxito no papel de Violet. Ela é quem melhor consegue transmitir a dor e o sofrimento da vida dos Baudelaires em suas expressões, em seu tom de voz. Quando se olha para o belo rosto angustiado de Violet, percebe-se que as coisas vão de mal a pior na vida desses pobres órfãos ricos.

Desventuras

Klaus Baudelaire é interpretado por Louis Hynes. Se já foi difícil encontrar os trabalhos anteriores da menina que faz a Violet, o tal do Louis nem sequer tem artigo na Wikipédia. Eu não duvido que ele seja, inclusive, conforme o personagem, mais novo do que a Malina. Se a Violet é a mais convincente em nos transmitir o desespero dos três irmãos, eu diria que Klaus é o responsável por nos fazer sentir a estranheza impregnada na obra. Há três vertentes que considero as maiores neste conjunto de obras: a angústia, a estranheza e o humor. A fisionomia de Klaus, suas expressões, o seu olhar… ele me deixa desconfortável. E eu creio que seja esta a intenção de Lemony Snicket ao escrever a obra: nos deixar desconfortáveis. Fazer com que sintamos essa estranheza inexplicável. O jovem Louis supera seus irmãos neste quesito.

Desventuras

Por fim, vou falar da Sunny só por falar. Ela é um bebê, não dá pra falar muito sobre atuação aqui. Mas dá pra fazer algo melhor. Colocar aqui uma galeria de fotos da Sunny que eu torço com todas as minhas forças para se tornarem memes, porque potencial pra isso esse bebê tem. Se Violet era a angústia encarnada e Klaus uma personificação da estranheza, sobra para Sunny a função de nos lembrar que ainda há humor nesta obra. Dêem uma olhada em como ela cumpre essa função (eu colocaria três gifs da Sunny aqui, mas, infelizmente, a internet não me permitiu encontrar os outros porque as pessoas são estúpidas demais pra não reconhecerem um baita gerador de memes diante de seus olhos).

Desventuras
Essa é a melhor reação ever! Reação da Sunny quando Tia Josephine diz que vão tomar sopa fria porque ela tem medo de ligar o fogão.

Fidelidade aos Livros

DragonBall Evolution. Live Action de Cavaleiros do Zodíaco. Eragon. Filmes dos X-Men. O anime de Shaman King. A primeira trilogia de Spiderman. O filme do Demolidor. E tantos outros nomes. O que esse monte de esterco tem em comum? Bingo! São um monte de esterco! (apesar de ter um aí no meio que eu até gostei um pouco… digamos que este seja um esterco cheiroso). Mas por que estas adaptações são consideradas pela grande maioria da fanbase como um monte de esterco? A resposta é clara e simples: porque fugiram da obra original. Adaptaram situações de forma diferenciada, por qualquer que seja o motivo, e isso não deu certo. Não cumpriram a promessa de trazer determinados personagens da maneira como se comportavam na história original. Ou simplesmente deturparam 100% do enredo da obra original.

É nesse ponto que Desventuras em Série acertou. A adaptação segue fielmente os livros de Lemony Snicket, com poucas alterações ao longo dos episódios. Por exemplo, a presença do rosto do “Senhor” dono da Serraria Alto Astral. No livro, a descrição nos mostra que é um homem que fuma tanto que cria uma nuvem de fumaça em torno de sua face: ninguém sabe como é seu rosto. Sabe quando o Náusea fala aquela tosquice de “1, 2, já sumi na neblina”? Seria isso, mas o rosto do cara sumiria de verdade na neblina da fumaça do cigarro. Essa imagem era clara pra mim, e eu adorei a forma como foi colocada: um chefão, sem nome, e sem rosto. Isso é fenomenal. Porém, fazer isso em um live action seria extremamente caricato. Ou tiraria a seriedade da coisa, ou ficaria extremamente malfeito. Portanto, o “Senhor” ganhou um rosto, apesar de estar sempre fumando. No entanto, embora haja algumas alterações deste nível, 90% da série acompanha a obra original, coisa que o próprio filme de Desventuras em Série falhou em fazer.

Divisão de episódios 2 por 1

Sabem, eu não achei o live action de CDZ tão ruim assim. Eu até curti o Máscara da Morte dançando musical e tal. Mas ficou bem claro pra mim o porquê de ter sido um filme tão ruim: é porque foi um filme. E este é o momento em que você questiona “Ué, Amethysto, como assim? Não dava pra fazer um filme bom de CDZ?”, e eu imediatamente lhe respondo que “Pra você, é SENHOR Amethysto”. E que você precisa ler com a intenção correta a frase que eu falei. O problema do live action de CDZ é que ele foi UM filme. Sabem como ele ficaria ótimo? Se ele fosse DOIS filmes. Um que parasse na casa de Virgem, e um segundo que fosse da casa de Virgem até o final da saga SEM A PRESENÇA DE MUTAÇÕES, GODZILLAS E MEGAZORDS, PFVR. Tempo foi o problema. O filme de Desventuras em Série tentou adaptar TRÊS livros em UM filme de duas horas! Não me faça rir! Quem foi o energúmeno que imaginou que isso poderia ficar bom?! E está aí a fórmula do fracasso.

Agora vamos para a fórmula do sucesso! Desventuras em Série poderia ter emplacado mais um simbólico 13 ao inserir a Dilma um episódio por livro, deixando a adaptação com 13 episódios. Eles não fizeram isso. Eles foram sensatos. Viva a sensatez. Viva o Bom Senso. Viva Tim Maia. Viva a idéia fantástica de adaptar 1 livro a cada 2 episódios! Foi isso que a série fez. E, pra mim, este foi o ponto mais acertado de toda a construção dessa adaptação. Fez com que cada momento tivesse o tempo necessário para despertar no espectador aquilo que deveria ser despertado. Fez com que cada livro pudesse ser explorado de forma mais rica, mantendo a integridade da obra original, e não utilizando subterfúgios ridículos quase que improvisados pra tentar dar liga à trama.

Pra mim, isso foi uma demonstração de respeito à obra original. Deram a ela o tempo que ela precisava pra não se tornar nem cansativa e nem malfeita. Deram à obra a medida exata que ela merecia pra se tornar a excelente narrativa que se tornou.

Narrador Corpóreo

O que mais me dá gosto em ler a obra de Snicket é o seu jeito de contar a história. Seu estilo de escrita. De fato, o estilo de escrita de Lemony Snicket é fantástico. Mas uma obra televisionada não requer um narrador como no livro. Nós vemos os cenários, nós vemos na expressão dos personagens a sua dor, ou a sua alegria, que depois virá também a ser dor. Sem dúvidas, Desventuras em Série perderia muito sem a presença fúnebre e, por várias vezes, debochada do narrador.

E, provavelmente com isso em mente, eles tiraram da cartola uma excelente solução: um narrador corpóreo. Lemony Snicket é um personagem da série que ninguém consegue ver ou ouvir e ele sempre está lá, interagindo com o ambiente seja por meio de seus movimentos ou de suas roupas. Ele está lá, fazendo cortes de cena com narrações. Sendo a coesão narrativa em forma humana. Enganchando pedaços de cena e transferindo-nos de um ambiente para outro, de um jeito que somente ele – o narrador da obra – poderia fazer. Genial.

Desventuras

Música-tema

Em cada um dos livros de Desventuras em Série, na última capa, na parte de trás, Lemony Snicket, de formas verbalmente diferentes, relembra que é o dever dele narrar a história desafortunada dos Baudelaires e que, se o que o leitor busca é uma leitura agradável e feliz, ele deve procurar outra coisa, ler outro livro, e sair daquele ambiente. E a música-tema da série corrobora em completo com o que é dito de maneiras distintas em cada um dos livros. Além de ser assustadoramente viciante, ela faz total sentido com a obra, e com partes do livro que nem sequer são de dentro do mesmo.

Apesar desta grande quantidade de pontos positivos, você há de concordar comigo que não existe uma obra que não possua também pontos negativos exceto por FullMetal Alchemist Brotherhood. Aqui estão os pontos negativos que encontrei nesta série:

Quantidade de Episódios (até agora)

Sabe aquele prato DELICIOSO cujo maior defeito é… tem muito pouca comida? Pois é. É assim com o que tivemos até agora de Desventuras em Série. Até então, só tivemos 8 episódios, o que nos dá 4 livros. Sabemos que Desventuras em Série não é algo que será continuado eternamente, afinal, ela se baseia em uma série de livros com Um Mau Começo e O Fim. 13 volumes e, seguindo a lógica até agora, seriam 26 episódios. Se isso já era esperado, por que lançar somente 8? Por que não a série inteira? Ou por que não ao menos 12 episódios pra fechar 6 livros? Eu fiquei imensamente frustrado ao chegar no final do episódio 8 e não poder continuar. Torço pra darem continuidade o quanto antes.

Spoilers na abertura

Durante o vídeo de abertura de Desventuras em Série, há uma parte que muda a cada dois episódios. É como se resumisse cantando os acontecimentos do livro que será ilustrado ao longo dos dois episódios pertinentes a ele. O problema é que, nos primeiros episódios de cada livro (1, 3, 5 e 7), isto aparece como um spoiler. A pessoa ainda não assistiu aquilo acontecer. E talvez a pessoa ainda não tenha lido os livros pra saber. Portanto, fica a dica: tomem o devido cuidado ao assistir a abertura da série, caso ainda não o tenham feito. Inclusive no vídeo que eu coloquei acima neste mesmo post… a não ser, é claro, que você já tenha visto por ele estar em cima. Neste caso, só o que eu posso te dizer é… ops!

Diferenças com o Livro

Há algumas diferenças entre a série e os livros. Apesar de isto estar listado como um ponto negativo, sejamos realistas: era mais que esperado. No entanto, as diferenças foram bastante sutis, e algumas delas ajudaram a obra a ter um dinamismo mais digno de série do que de livro. Ou seja, não ficou ruim. É um ponto negativo que, de certo modo, soa como positivo. Uma dessas mudanças, por exemplo, foi o modo como os irmãos Baudelaire foram parar na Serralheria Alto-Astral. Nos livros, é o Sr. Poe que leva eles, enquanto que, na série, eles despistam o Sr. Poe pra seguirem a pista que viram numa foto na casa da Tia Josephine (foto esta que eu nem me recordo de estar nos livros).

Uma diferença que me marcou foi o Chefe da Serralheria, a qual eu já citei. Mas, convenhamos que foi uma adaptação que era o que tinha que ser feito. Ou seja, mesmo as diferenças do livro, listadas como algo negativo, são passíveis de justificativa e não interferem no que realmente importa. Pontos negativos que se transformam em positivos.

Nota final: Li algumas pessoas não recomendando Desventuras em Série dizendo que a série “é horrível”. Pra esses idiotas, eu tenho uma única frase que talvez até soe como novidade: é pra ser horrível. A música de abertura manda você ir embora. O Lemony Snicket em forma de narrador te spoila que vai dar merda. Se você acha que vai ficar melhor, você deveria seguir o conselho de Snicket e parar de assistir. Quer final feliz? Vai assistir filme da Disney. Lá você tem final feliz. Aqui, não necessariamente. E nem aqui, neste artigo. O Fim.

Nota pós-final: É claro que você está sentindo-se vazio, após ler mais um fascinante artigo deste majestoso ser que vos escreve. A boa notícia é: você pode ajudar Amethysto a estar mais frequente na Falange, ou ainda a própria Falange a trazer conteúdo de melhor qualidade, com vídeos, Podcasts e colunas com mais frequência. Sabe do que mais? Você pode inclusive ganhar brindes. Agora, além de salvar o mundo, nós somos adeptos do sistema de financiamento coletivo chamado Padrim. Quer ser um dos nossos padrinhos? É claro que quer! Clicando na Almôndega, você saberá como. E, com isso, seu vazio interno poderá ser preenchido pelo bom sentimento da generosidade… aquela que você sabe que receberá uma recompensa no final, é claro. E, com isso, eu te dou um final mais feliz do que o que espera os Baudelaires.