Falange Resenha | Legion S01E01 – Capítulo 1

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Mãe Serpente
Mais do que quadrinhos de super-heróis, as estórias dos X-Men sempre se preocuparam com a discussão sobre exclusão social e aceitação das diferenças. É por isso que, para além das confusões de roteiro e produções medíocres, o universo cinematográfico dos mutantes criado pela Fox deixa muito a desejar. A discriminação com os mutantes serve como um plano de fundo geral para cada filme, mas dificilmente é possível encontrar narrativas mais intimistas, preocupadas em compreender o lado mais humano e direto dessa discriminação. Legion parece que chegou às telinhas para suprir essa falta. Após apenas um episódio, já é possível manter altas expectativas quanto ao futuro da nova série, realizada em parceria pela Fox e Marvel.

O panorama geral de Legion

Mesmo quem gosta de quadrinhos talvez tenha um conhecimento limitado sobre a personagem central da trama, David Haller. Filho de Charles Xavier, David teve um destaque moderado na franquia X-Men, e é mais reconhecido por seu pai do que por si próprio. David é um mutante extremamente poderoso, que sofre de distúrbios mentais graves. A esquizofrenia de David, somada à sua mutação, dá origem a dezenas personalidades independentes, cada um capaz de controlar um conjunto específico de poderes. Daí vem seu codinome, Legião.

O seriado adapta de forma autoral a estória de David. Como a Fox ainda não decidiu se a série fará parte do grande universo dos X-Men, não há qualquer menção ao pai de David. E mesmo mutantes não parecem ser tão conhecidos perante o grande público. Essa cautela com as ligações indica a indecisão dos estúdios em incluir ou não o seriado no universo maior.

Além disso, ao invés de se resumir à estrutura simples, e já desgastada, das séries de super-heróis, Legion, então, busca um caminho próprio. O piloto da série, chamado de “Capítulo 1”, enfoca na experiência de David em um sanatório, e da descoberta gradual de que sua loucura, na verdade, é derivada de habilidades psíquicas.

Ao invés de uma ordem cronológica bem delimitada, Legion brinca com a percepção do espectador. Inversões de câmera, e cortes constantes modificam o momento narrativo. Passado e presente se intercalam sem aviso, e se misturam a sonhos e pesadelos. Por isso, é necessário se perguntar a todo instante o que é real e o que é ilusão. Um questionamento parecido com o que o próprio David faz, enquanto luta com sua suposta esquizofrenia. E com uma preocupação com a edição de som e a qualidade da fotografia, o resultado final da série certamente irá agradar mesmo quem não se interessa por heróis.

A questão da loucura

Talvez o potencial mais interessante a ser explorado por Legion esteja relacionado à loucura. Já no primeiro episódio, a série abre algumas discussões sobre a normalidade, o tratamento e a aceitação da doença mental. Se os quadrinhos de X-Men nunca se esquivaram de discutir o racismo, a xenofobia e mesmo a homofobia, uma leitura crítica da cultura pop sobre o estigma da loucura não poderia ter um universo melhor para existir. E já que a Marvel Television presa pelo realismo de suas produções, essa influência pode significar um futuro promissor para o debate dentro da série.

Algumas referências

O sanatório em que a trama se desenrola no primeiro episódio se chama Clockwork, uma referência direta ao livro A Clockwork Orange, conhecido no Brasil como Laranja Mecânica. O livro foi adaptado para o cinema por Stanley Kubrick, e fala sobre condicionamento, loucura e controle de violência. As roupas laranjas utilizadas pelos pacientes da instituição estão relacionadas à obra.

Já a protagonista Syd Barett (Rachel Keller), par romântico de David, é uma homenagem a um dos membros fundadores do Pink Floyd, e quem criou o nome. Barret deixou o Pink Floyd no final da década de 60, e faleceu no início dos anos 2000. É baseada em Barret que a banda compôs Wish You Were Here, um de seus sucessos mais conhecidos. Outros grupos clássicos, como The Who e Rolling Stones, também já fazem parte da trilha sonora, e servem de indicação para a presença do rock na série.

O futuro de Legion

Elementos clássicos ainda estão presentes, como organizações governamentais que caçam mutantes e conflitos armados. Mas se a Marvel e a Fox estiverem atentas à resposta instantaneamente positiva de crítica e público, irão manter essa mesma direção criativa. É necessário também torcer para que o sucesso da série não crie a obrigação de Legion se conectar ao cinema, o que certamente irá comprometer a liberdade criativa na produção da série. E essa liberdade foi essencial para conseguir um resultado tão diferente e instigante da temática de heróis.

A primeira temporada tem oito episódios previstos, um exibido por semana. No Brasil, é necessário ter acesso ao canal FX, presente em planos de TV a cabo, para acompanhar a série. Os episódios são exibidos no horário de 22h30.