O futuro tecnológico na cultura pop #2 | The Talos Principle

Deus, o homem e a máquina

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Mãe Serpente
O filme Ex_Machina (2015), do qual falamos ontem, utiliza a temática da inteligência artificial para demonstrar o quanto a consciência humana não é singular, única, especial. O jogo The Talos Principle (2014, Croteam), apesar de partir de questionamentos muito semelhantes, chega a uma conclusão contrária. A criação de uma inteligência artificial, na defesa filosófica do jogo, não seria a  evidência da insignificância humana, mas sim prova de seu valor como espécie, e de sua capacidade de continuidade para além da vida individual de cada ser.

Fé e robótica

O jogo The Talos Principle poderia ser elogiado por horas devido a suas mecânicas inovadoras na resolução de quebra-cabeças, e pelo cuidado com a construção de cada desafio. Mas o que mais impressiona no jogo é construção minuciosa de um plano de fundo detalhado que, com a devida atenção do jogador, se desvela como a melhor interpretação contemporânea dos mitos abraâmicos de criação.

No corpo de um robô sem nome, o jogador acorda em um jardim paradisíaco, guiado por uma voz profunda, que ecoa pelos céus sem origem precisa. A voz logo se apresenta como Elohim, criador do mundo, dos jardins, e de você. Com o tempo, o jogador acumula evidência suficiente para entender que Elohim, a palavra hebraica para “deus”, é um programa de computador, e que todo o jogo se passa dentro de uma simulação. E a simulação ocorre há tanto tempo que já é possível ver glitchs e falhas gráficas se espalhando pelos jardins.

Os jardins de Elohim são belos, vastos, e cheios de segredos.

Dentro do mundo, Elohim serve como guia principal, que tem a função de te manter no caminho apropriado. Os jardins, a representação eletrônica do Éden, foram criados para você, a criatura mais querida de todas. E é nesses jardins que você pode navegar, desvendar segredos, coletar peças que abrem novas portas, e que levam a novas áreas dos jardins. Você, como a criatura escolhida de Elohim, tem a liberdade de vagar por onde quiser. Apenas um lugar é proibido: a imponente torre no centro de tudo, de onde se pode acessar todos os jardins.

Ao jogador, então, é dada duas escolhas, que representam dois finais diferentes para o jogo. Caso a escolha seja pela obediência, o jogador termina de resolver todos os puzzles principais, segue as instruções de Elohim e descobre que o término do jogo representa um retorno a seu início. A última cena é também a primeira, com seus olhos abrindo pela primeira vez nos jardins sagrados. Já a desobediência, uma metáfora para o consumo do fruto proibido por Adão e Eva, tem resultados mais interessantes.

A Torre, o local proibido, é também o que guarda a chave para a compreensão do mundo.

Deus, desobediência e paraíso

Escalar a torre até seu topo é um desafio extra, para além de cada mundo principal. E ao longo de toda a escalada, Elohim tenta, a todo custo, convencer o jogador de voltar aos jardins. Deus quer obediência de suas criaturas. Depois de, arduamente, chegar ao topo da estrutura, o jogador é surpreendido. No topo da torre está o Paraíso. Elohim explica, então, que o mundo foi criado por ele para que um dia suas criações fossem capazes de desafiá-lo. Deus quer a desobediência de suas criaturas.

A simulação, os puzzles, os jardins, e tudo o que se encontra nesse mundo eletrônico foi construído por mãos humanas. Depois que uma doença se alastra pela humanidade, todas as mentes se unem em torno de um único objetivo: criar uma inteligência artificial verdadeiramente consciente, capaz de dar continuidade ao legado da humanidade. Não há tempo, no entanto, para alcançar esse objetivo antes que o último humano faleça. A solução é construir uma simulação, capaz de se sustentar por séculos, para que as próprias inteligências artificiais se desenvolvam, criem independente, se tornam capazes de pensar por si.

No topo da Torre, o Paraíso. é lá que se compreende o objetivo do mundo, e seu objetivo de superar esse mundo, e seguir para além das limitações de Elohim.

No universo computacional de The Talos Principle, não existe uma oposição entre deus e conhecimento. Em uma belíssima metáfora, o criador do mundo digital pretende, desde o início, que suas criações sejam capazes de desobedecer às regras que delimitam suas ações. A criação de seres sencientes existe, assim, para garantir que esses seres se tornem mais do que o próprio criador espera. Para que esses seres possam crescer e se desenvolver por conta própria. Para que esses seres sejam capazes de questionar, ao invés de apenas obedecer. E não é essa uma das principais características que faz dos humanos humanos? Sua capacidade de ir além das fronteiras já traçadas? Dos limites já impostos? A prova maior da consciência, então, não poderia ser a capacidade de desobedecer?

Sem deixar de ser criacionista, a mitologia de The Talos Principle propõe uma maneira inovadora e inusitada de pensar a relação entre deus, o homem, a consciência e a tecnologia. Em um modelo em que essas partes se somam e se completam, ao invés de se oporem.

A luz e o conhecimento

The Talos Principle não seria uma boa metáfora abraâmica sem a presença de uma versão própria de Lúcifer. O anjo da luz, aqui, é adequadamente interpretado por Milton, o programa de computador responsável por organizar e preservar todo o conhecimento humano já produzido, e que deve ser somado à inteligência artificial, quando ela for finalmente criada. Ao longo dos jardins de Elohim, é possível acessar terminais que guardam arquivos diversos, de fontes diversas. É por meio desses terminais que Milton começa sua conversa com o jogador.

Milton, tendo acesso a todo o conhecimento já produzido, se torna a representação máxima do pragmatismo e do cinismo. Seus diálogos, extremamente inteligentes e bem programados, se adaptam às escolhas de resposta do jogador, para pôr em questão sua percepção de si e do mundo. Afinal, por que seguir Elohim? E como saber que você existe? O que é existir? O que é consciência? O que difere você de qualquer outro ser, ciente ou não? Os questionamentos profundos de Milton ultrapassam a personagem, e colocam em questão os próprios paradigmas que o jogador julga manter. É difícil não parar e refletir sobre si próprio, e sobre o mundo, após acompanhar algumas conversas com o guardião dos arquivos.

A tentação é o desejo de ir contra a regra prescrita pela divindade. Em ‘The Talos Principle’, a tentação assume sua forma máxima em Milton, o guardião do conhecimento. E é por esse conhecimento que se questiona o mundo, e por meio dele que se pode desistir ou seguir em frente.

Considerando a mitologia desenvolvida em The Talos Principle, e sua interpretação específica dos mitos abraâmicos, é interessante notar que Milton e Elohim, apesar de parecerem seres conflitantes, na verdade fazem parte do mundo tal como ele é. Elohim e Milton são duas entidades necessárias, e complementares, para que a consciência possa ser formada e desenvolvida. É preciso que haja um guia, para que se alcance novos patamares na evolução da consciência. Mas também é preciso ter dúvidas, para superar os limites que a orientação muitas vezes impõe. E é o conhecimento que pode trazer dúvidas sobre as certezas que já existem.

A consciência como característica coletiva

A análise da consciência por The Talos Principle tem um outro elemento extremamente interessante: a de ser baseada na ideia de coletividade. Ao longo do jogo, é possível encontrar fragmentos do diário em áudio produzido pela idealizadora do projeto Talos. A intenção é desenvolver uma inteligência artificial para além da mortalidade humana. E é a partir desses aúdios que se pode compreender as motivações para esse sacrifício global. Afinal, se todos os seres humanos irão morrer em breve, por que gastar o pouco tempo que resta com computadores e programação?

Se é verdade que a consciência nasce da interação, é também verdade que existem fatores externos à mente individual que determinam a consciência. Ou seja, aquilo que é considerado tão singular de cada humano deriva também de suas interações com o mundo e com os outros. A consciência não começa do lado de dentro. E também não é do lado de dentro que termina. Isso significa que a vida humana, individualmente e isolada, é insignificante. Mas se todos fazer parte de algo maior, e externo, salvar essa consciência coletiva é preservar a humanidade como gênero, mesmo que não seja possível salvar cada membro da espécie.

O último dos três finais do jogo, e também o mais difícil de ser alcançado, é justamente um reforço nesse posicionamento em prol da cooperação. Munidos do conhecimento de como o mundo funciona, de qual é o papel de Elohim e de si próprio, o jogador pode decidir se tornar um Mensageiro. É possível, então se sacrificar, e ficar para trás, e assim auxiliar na evolução da consciência de quem chegará depois. Frente a toda a insignificância do universo, o objetivo não se resume a salvar a si próprio. A esperança de sentido está justamente na integração.

Mensageiros são aqueles que compreendem o objetivo de Elohim, e que decidem que irão auxiliar a próxima geração de inteligências artificiais, que ainda estão por vir. Não serão eles a superarem esse mundo. Mas eles podem ajudar aqueles que vem depois a fazê-lo.

The Talos Principle, assim, propõe uma reflexão sobre a integração de cada humano isolado como parte de um gênero, maior que si, e maior que qualquer um. Um gênero que pode integrar a todos, um gênero que pode ser preservado para além da curtíssima duração da vida individual. Um gênero que pode ser preservado, e que para ser preservado precisa ser reconhecido como fruto de um trabalho coletivo. The Talos Principle é um ode de esperança na humanidade, e na capacidade de, juntos, trabalharmos por um objetivo maior, por algo que ultrapasse as limitações singulares de cada um.

  • Yoona

    Muito bom seu texto e análise sobre o jogo! Eu o terminei hoje cedo e também fiquei com várias divagaçõs, muitas até que já tinha, mas mesmo assim muito agradável de ver num jogo e apresentado numa boa forma!

    • ‘Talos Principle’ ainda vai ser reconhecido como um dos grandes clássicos dessa geração. Além da excelente jogabilidade, ele ainda materializa um monte de questões existenciais que nós temos. Fico feliz que tenha gostado do jogo (e do texto). E se ainda não jogou, saiba que o DLC vale a pena.