Doutor Estranho | Stan Lee estava lendo As Portas da Percepção!

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náusea vinhetaAntes de mais nada, põe pra tocar:

Então meus camaradas, tá tendo Doutor Estranho pra caralho nesses últimos dias por aqui, né? Teve resenha com e sem spoiler – aqui e aqui – ontem comecei a lista de easter eggs – aqui – e hoje separei um espaço só pra falar da aparição do Stan Lee no filme.

Porra Náusea! Tá faltando assunto?

Pô, pior que não.

E você vai se surpreender com o tanto que uma aparição de seis segundos vai render.

Stan Lee Doctor Strange CameoAs Portas da Percepção

Esse é o título do livro que Stan Lee estava lendo no ônibus. E isso é um easter egg.

Portas da Percepção

De repente você cagou pra isso quando assistiu, de repente você nem leu o título do livro e se leu, não sabia do que se tratava. Aí que uma pessoa já meio carcomida pelo tempo e com algum tempo livre entra.

Sou eu essa pessoa aí.

A Marvel fez muito sucesso – e muito rápido – quando mudou de nome e recomeçou suas atividades, a partir da década de 60. Uma característica da Marvel que ajudou nisso foram os “heróis temáticos” que a editora lançava vez ou outra, sempre de olho no que estava na moda ou se tornava interessante no gosto geral.

Foi assim com o Falcão e o Pantera Negra, dois personagens que pegaram carona no movimento Black Power e na luta dos negros por direitos civis nos Estados Unidos, Luke Cage e Punho de Ferro, inspirados nos filmes Blaxploitation e nos filmes de Kung Fu respectivamente, além do Doutor Estranho, que foi claramente inspirado em

DORGAS, mano!

Não, cara. Quer dizer, mais ou menos. Vamo lá:

O uso de substâncias que alteram a percepção do mundo em volta das pessoas é um hábito humano mais velho que cagar sentado. Sendo que nos anos 60, houve – na minha singela opinião – uma convergência de vários fatores que acabaram moldando aquela década, nas artes de uma maneira geral, mas também no crescimento de movimentos de contracultura.

Portas da Percepção

Tivemos o movimento de música psicodélica, que buscava “traduzir a loucura” ou “produzir alucinações”, o movimento Beatnik, os Hippies e toda uma gama de pessoas interessadas nas religiões orientais, como o Hinduísmo e o Budismo e também na sabedoria dos Xamãs indígenas. Fora a galera que ressuscitou o interesse pelo ocultismo, “magia negra” e afins.

Muita gente interessada em entender os comos e porquês da vida, o universo e tudo mais, buscando uma maneira de enxergar as coisas de outro modo, traduzir os sonhos ou mesmo sonhar acordado. É aí que entraram as

DORGAS, mano

Principalmente o Peiote ou Mescalina – raiz usada pelos índios dos EUA, semelhante ao nosso Santo Daime – e uma parada que poderia definir sozinha aquela geração: o LSD.

Portas da Percepção

A Lysergsäurediethylamid (alemão) ou dietilamida do ácido lisérgico tinha sido descoberta trinta anos antes, mas foi nessa época que caiu no gosto geral, justamente por ajudar toda a galera que listei lá em cima a atingir seus objetivos.

Ela é quase coautora de pelo menos um disco inteiro dos Beatleso Sgt Pepper’s – além de ter sido homenageada na faixa 3, Lucy in the Sky with Diamonds, coisa que John Lennon sempre negou mas, qualé?

Portas da Percepção

E o livro, porra?!

Calma jovem, cheguei.

E foi nesse clima todo que Aldous Huxley escreveu As Portas da Percepção, um livro com cara de tratado científico, que narra a experiência – real – do autor com o uso da Mescalina. Ele se ofereceu como cobaia para experimentar a substância em ambiente controlado e assim ir narrando o que via e sentia para os cientistas.

O título foi tirado de uma citação de Willian Blake, poeta e pintor iluminista inglês. Blake viveu no século XIX. Era libertário, defendia um mundo sem religiões tradicionais e também se interessava pelo misticismo, o que acaba se comunicando com os anos sessenta:

Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.

Resumindo MUITO, Huxley de certa forma articula em cima da citação de Willian Blake, quando menciona que o cérebro humano “trava” nossa percepção total do que acontece a nossa volta, do contrário não poderíamos manter o foco em nada e nos perderíamos em devaneios. Por outro lado, essa “trava cerebral” também nos impede de enxergar além do que julgamos ser o mundo real. E é aí que entram a Mescalina, o LSD e companhia limitada.

Ironicamente, o livro é celebrado tanto pela comunidade pró-drogas, que considera que o livro ajuda a desmistificar um pouco o assunto, quanto pelos mais conservadores, que consideram que o experimento só foi possível porque foi realizado em ambiente controlado e à luz da razão do pensamento científico.

Bom, não vou destrinchar muito o livro porque prefiro que vocês mesmo leiam. Só clicar aqui e pegar uma cópia em PDF. De nada.

Ah! Recomendo também que ignorem o prefácio, porque não posso separar.

Aldous Huxley também escreveu o clássico Admirável Mundo Novo, leitura altamente recomendada.

Então,

É por isso que Stan Lee lendo justamente esse livro é um easter egg. As Portas da Percepção ajudou a dar um rosto aos anos 60, que por sua vez gerou o Doutor Estranho, que é quase um zeitgeist ambulante daquele momento da cultura mundial.

♫ Atravesse para o outro lado! Atravesse para o outro lado! ♫

Ah sim! Se você está ouvindo o áudio que coloquei no início do post e não pescou a referência, é The Doors – ou As Portas.

Portas da Percepção

Uma banda que eu me amarro, comandada pelo cantor e poeta Jim Morrison e que teve seu nome escolhido em homenagem àquela mesma citação do Willian Blake, que deu título ao livro do Huxley. Isso fecha o cliclo e me despeço, porque já já sai o decreto de sexta e tenho que ir fechando tudo por aqui. Bjundas e até segunda, quando coloco no ar a segunda parte da lista de easter eggs do filme do Doutor Estranho.