Falange Resenha | The Getaway – Red Hot Chili Peppers

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Red Hot Chili Peppers é uma banda conhecida por sua capacidade de se reinventar sem perder a identidade do grupo. Essa característica, mais do que nunca, está presente em seu último álbum: The Getaway.

Red Hot Chili Peppers

Impressões gerais

O 11° álbum de estúdio do grupo é o segundo trabalho desde a saída, aparentemente definitiva, de John Frusciante, o icônico guitarrista. Quando Frusciante anunciou sua partida do Red Hot, em 2009, a principal preocupação de fãs e críticos era quem iria assumir a guitarra, principalmente depois do excelente desempenho de Stadium Arcadium, lançado em 2006.

I’m with You, de 2011, apresentou Josh Kinghoffer como o novo integrante do Red Hot. Apesar de algumas faixas memoráveis, o álbum deixou claro a falta que Frusciante fazia não só em palco, mas também como compositor. Kinghoffer está longe de ser um guitarrista ruim, mas seu estilo tímido e retraído soou destoante, distante do resto da banda.

A primeira coisa a se notar em The Getaway, no entanto, é a evolução da nova formação da banda. Josh não apenas desenvolveu melhor seu estilo pessoal, mas a guitarra, agora, é parte essencial das composições, e o espaço cedido ao guitarrista é bem aproveitado, sem parecer desconexo. O músico mostra um potencial cada vez maior, e chega inclusive a assumir o baixo em uma das faixas do álbum, The Hunter. Em todas as outras músicas, Flea mantém seu excelentíssimo trabalho como um dos melhores baixista do mundo — se não o melhor.

Red Hot Chili Peppers

O uso intensivo de backvocals também tem um retorno triunfante no novo álbum, depois de tanto fazer falta em I’m with You. A experimentação com piano, órgão e sintetizadores também acrescenta novas possibilidades de desenvolvimento musical. Exemplo disso é a faixa Go Robot, marcada para virar o segundo single do novo álbum.

As letras de Anthony Kiedis mantêm seu padrão habitual de escrita; cheias de neologismos, usos impróprios e figuras de linguagem, a preocupação com a forma supera muitas vezes a importância da mensagem, baseada em metáforas e digressões. O objetivo é construir um mosaico, fragmentado, do universo interior da existência humana. A temática geral gira em torno de encontros amorosos e de sexo, como sempre. Mas é interessante notar o surgimento de preocupações com a efemeridade do tempo, da mortalidade humana e da finitude do mundo, principalmente em faixas como Feasting on the Flowers e The Hunter.

A grande falha de The Getaway se encontra justamente na percussão, que havia ganhado um reforço mais do que bem vindo do brasileiro Mauro Refosco em I’m with You. Chad Smith ousa pouco na bateria, o que decepciona depois de sua crescente importância e qualidade musical nos últimos álbuns. Mauro, por sua vez, participa apenas de duas músicas no novo álbum, uma delas, Sick Love, na companhia de Sir Elton John.

The Getaway música a música

A primeira música do álbum, The Getaway, marca com exímia qualidade a intenção da banda em seu novo trabalho. A comparação entre a liberdade do carro e do amor retoma o estilo de vida estadunidense como plano de fundo, algo recorrente na banda.  Já é possível perceber de cara a nova sintonia de Kinghoffer com a banda, e a bateria eletrônica demonstra o ineditismo pretendido. A força do vocal de fundo de Anna Waronker é indiscutível, e também é possível observar uma participação mais ativa da voz de Kinghoffer.

Dark Necessities, o primeiro single do álbum, explora uma metáfora já repetida à exaustão: a escuridão é necessária para que o brilho exista. A escolha do single, contudo, é acertada. A música se inicia com a conjunção memorável de baixo e piano, ambos composto por Flea. As palmas são um dos poucos recursos de percussão da música, e a marcação do tempo por elas é uma novidade interessante de se observar. O refrão é fácil de memorizar, e isso ajuda o ouvinte a se envolver com o álbum.

Em seguida temos We Turn Red. A repetição dos recursos sonoros serve a seu propósito de reforçar os versos e as imagens de rotina e obediência que constroem seu lirismo. As quebradas de guitarra e de piano no refrão servem para evitar o desinteresse, e já introduzem o uso do agudo da próxima canção do álbum, The Longest Wave. A quarta faixa do álbum é conduzida quase inteiramente por Kingholfer, o que serve para demonstrar mais uma vez o potencial do músico. O piano de Flea acompanha o refrão, de forma a torná-lo inesquecível.

A temática de The Longest Wave, que compara o ir e vir das ondas do mar com a natureza passageira do amor, é continuada na quinta faixa, Goodbye Angels. Porém, se esse caráter passageiro do amor é visto de forma serena na faixa anterior, toda a intensidade das paixões repentinas explode nessa faixa — paixões essas capazes de nos salvar ou destruir. A convulsão sentimental dá lugar à convulsão musical no final da faixa, e a sinergia entre Josh, Flea e Chad é marcante. O vocal acelerado de Kiedis relembra a influência do funk para a banda — gradualmente trocada por uma composição mais pausada. O fundo musical crescente também é uma retomada de trabalhos anteriores. É aqui também que, pela primeira vez na história do Red Hot, sintetizadores tomam o primeiro plano em uma canção.

Sick Love marca a aguardada participação de Sir Elton John nos pianos. E é a primeira decepção de The Getaway. A música não é ruim, mas genérica; além de não trazer nada de novo, de uma perspectiva sonora, ainda recicla a narrativa da jovem libidinosa, perdida entre prazeres e decepções. A música fácil de digerir e a letra fácil de acompanhar, no entanto, devem agradar fãs casuais de música, que preferem acompanhar hits de rádio que trabalhos mais extensos. E isso dá a Sick Love o potencial de se tornar um single de The Getaway; carregar o nome de Elton John também ajuda.

Se tomada em sentido literal, Go Robot trata de sexo com robôs. O que não é difícil de se esperar do Red Hot — todos nós lembramos de Sir Psycho Sex. A música, no entanto, pode ser compreendida como uma metáfora para o desejo carnal de figuras de autoridade, e para a masturbação como forma de fruição (talvez a versão dos robôs seja melhor…). De qualquer forma, a música é dançante e animada, e o fade out eletrônico é outra experimentação da banda digna de nota. Novamente temos palmas para marcar o tempo da música, e os efeitos sonoros sintéticos são um tributo à ficção científica.

Feasting of the Flowers, por sua vez, trata da morte na juventude, e da dificuldade de se lidar com a mortalidade. Como em álbuns anteriores, a música marca uma sequência de músicas menos marcantes, reservadas para o meio de The Getaway de modo a tornar o início e o fim os momentos mais marcantes. Detroid é mais uma homenagem genérica a uma cidade, outro tema recorrente para o Red Hot. E a verborragia de This Ticonderoga não é muito agradável aos ouvidos.

Red Hot Chili Peppers

Depois de um trio de faixas menos interessantes, somos apresentados a Encore, o final perfeito para qualquer álbum. Leve, emocionante, harmoniosa. A intensidade crescente do início de The Getaway ganha aqui seu oposto, e toda a qualidade musical do Red Hot é demonstrada em uma canção que desperta no ouvinte a vontade de retomar para o início e escutar novamente todo o álbum. A mensagem, a música como um comunicador universal, é tocante, e trabalhada com delicadeza. Encore é a conclusão perfeita.

Mas Encore não encerra The Getaway. A despedida é alongada com The Hunter, que toma como tema, agora de forma mais explícita, o tempo, inexorável. A inversão dos papéis de pai e filho serve como metáfora para a morte, e o trompete de Flea, infelizmente pouco utilizado em tempos recentes, dá à melodia ainda mais força. The Hunter é uma das canções mais emocionantes do novo álbum, e sofre apenas com sua escolha de posição, após Encore.

Não sofre tanto quanto Dreams of a Samurai, a verdadeira última faixa do álbum. A essa altura, a expectativa da finalização atrapalha a fruição da música, o que é ainda agravado pelo fato de que Dreams of a Samurai é a mais longa canção de The Getaway. Assim, de modo a aproveitar ao máximo a bela narrativa de solidão e loucura, e os versos sobre a beleza e a insignificância da existência, é aconselhável que se ouça esta música de forma separada.

Em resumo, The Getaway vale a pena?

Longe de ser o melhor trabalho do Red Hot Chili Peppers, The Getaway respeita a tradição da banda de se inovar, e a autocrítica do último álbum, I’m with You, rendeu bons frutos. A guitarra de Josh Kinghoffer encontrou uma harmonia melhor com a banda, sem perder seu estilo próprio e cair no erro de tentar imitar Frusciante. Os estudos em teoria da música de Flea parecem abrir cada vez mais espaço para novos instrumentos, e usos inovadores de instrumentos já recorrentes. The Getaway certamente vale a atenção de fãs da banda, mas serve também como ponto de entrada para novos ouvintes. Ao apostar em uma mudança de estilo que inclui elementos de música eletrônica e uma guitarra menos agressiva, o público potencial de Red Hot se expande, e o novo álbum pode gerar o interesse necessário para se ouvir toda a discografia da banda.

The Getaway

Como o ser inquieto que sou, não consigo permanecer no mesmo plano de existência por mais do que algumas décadas. Mas, se tem uma coisa que me faz querer permanecer por aqui mais um bom tempo é a incrível capacidade humana de criar coisas simples, porém com um potencial tão grande de nos tocar. A música é uma dessas criações capazes de me emocionar profundamente. Red Hot Chili Peppers foi uma das primeiras bandas que ouvi neste plano, e The Getaway é algo que me faz lembrar o porquê de ainda estar aqui.