Falange Resenha | A Morte da Luz

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Um mundo está morrendo. Não… ele não está morrendo, ele está seguindo seu trajeto incerto, tornando-se cada vez mais inóspito para as pequenas vidas que o habitam. Ele sempre seguirá rodando, rodando. E os outros morrendo, morrendo…

As cidades de inúmeras civilizações estão abandonadas. Worlon, o mundo moribundo, foi um grande espetáculo de poder e tecnologia que agora se encerra em crepúsculo quase eterno, até a noite definitiva retornar. A Morte da Luz (Dying of The Light, no título original) foi o primeiro romance de George R.R. Martin, publicado em 1977. O livro narra a história de Dirk t’Larien, um homem à sombra de si mesmo que viaja para Worlon, um mundo em decadência, quando recebe um chamado do seu antigo amor, Gwen Delvano. Nessa jornada, Dirk se enveredará por conflitos internos e externos, percebendo a fragilidade de seu código moral e de como é tênue a linha entre o tido como certo e o errado.

“[…] Uma atmosfera congelada despertava para a vida paulatinamente, e ventos devastadores uivavam como monstros infantis. Tudo isso os povos dos mundos exteriores encararam e combateram.” (A Morte da Luz, p. 8)

O livro começa com uma narrativa do ponto de vista do próprio planeta, Worlon. O planeta é uma criatura viva, mesmo que nada o habite. É um andarilho sem rumo que, ao se tornar um pouco mais propício à colonização, é apropriado como objeto e palco da megalomania de diversas raças. Seu verão é efêmero, porém. Agora, aqui, com meus tilintantes botões, reflito: Worlon seria uma grande alegoria da própria decadência do protagonista, Dirk. Sua glória está distante no passado, perdida num tempo junto com suas memórias de Gwen Delvano, sua Jenny. Se o planeta passa por um longo crepúsculo, essa também é a vida de Dirk t’Larien, à espera da noite enquanto suas lembranças empoeiram-se e ruem como as cidades abandonadas de Worlon.

George Martin tem o mérito por criar personagens femininas fortes e interessantes, que sobrevivem e tentam viver num contexto patriarcal opressor. Em A Morte da Luz, Martin nos mostra Gwen Delvano, uma ecologista que ainda habita Worlon, envolvida num triângulo abusivo e complexo com Jaan Vickary, seu “marido”, e Garse Janeck, companheiro de clã do mesmo. Apesar de Dirk sempre olhar para Gwen como uma mulher frágil que clamou por sua ajuda, ao desenrolar da história percebemos toda a força e inteligência da personagem, percebemos que ela não é a idealização, nem nunca pôde ser, que Dirk criou sobre a mesma, e percebemos também, acima de tudo,  que a pessoa em mais apuros naquele mundo violento e sem lei é o próprio Dirk.

A Morte da Luz foi o primeiro romance de Martin e já nos revela toda a potência criativa do autor. Worlon é atravessado por inúmeras culturas e línguas, o autor – como fizeram os povos da própria história – criou um mundo, um grande e diverso espetáculo, e o seu background, para uma história que começa em seu fim. Ele criou vida para nos contar apenas suas lembranças e sua decadência. Ler as páginas de A Morte da Luz é sempre estar com a sensação d’um emanharado visceral, tudo é tão frágil e tão latente, e os conflitos nunca cessam. Conflitos entre o que resta dos habitantes de Worlon, e o conflito que os mesmos carregam dentro de si, e nosso protagonista, Dirk t’Larien, é jogado no meio do caos, acreditando ser uma espécie covarde d’um sopro de esperança para perceber que ele não passa de mais um pobre diabo num mundo fadado ao fim.

Martin tem a habilidade de trabalhar bem a ambiguidade da vida, e nessa história pintada na cor do crepúsculo, ele nos posiciona diante de personagens que vão além da eterna dicotomia romântica do bem e do mal, nós – que lemos angustiados suas palavras – temos contestados, juntamente com Dirk, nossos frágeis valores. A ambiguidade perambula entre uma estória de passado e um presente caótico, vagueia entre o belo e o desfigurado, mostra-se no rosto de Bretan Braith.

Bretan Braith. O horror e a beleza, o medo e a calmaria, fujamos de Bretan Braith para nos encontrarmos em Bretan Braith. Vocês vão encontrá-lo, leitores, e não vão se esquecer.

Somos lançados num abismo ao ler A Morte da Luz, somos forçados a olhar a complexidade de cada ser perturbado que ainda habita um Worlon moribundo. Deparamo-nos com páginas que carregam uma história de beleza triste, páginas que falam do definhar e da morte.

Não há mais ninguém para ouvir a canção suicida de Kryne Lamiya.