Festival do Rio 2017 | Zama e os filmes de sábado

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange. Mais um dia de Festival do Rio 2017 significa mais um dia de experiências que só o evento proporciona. Por um feliz acaso, os filmes do dia tratam todos sobre experiências pessoais que forçam o público a se colocar no lugar do outro. Um deles, inclusive, nem se importa com o lugar que estamos, pois lembra especificamente aos brasileiros que temos irmãos distantes com quem raramente fazemos contato. O destaque do dia é Zama, de Lucrecia Martel, mas foi uma escolha difícil.

#6 | Tailor

Tal qual os filmes da Pixar (que sempre vêm acompanhados de um curta-metragem que enriquece a experiência no cinema) o Festival do Rio muitas vezes inclui curtas-metragens na mesma sessão de diversos filmes. Isso pode gerar descobertas agradáveis como Tailor. Estrelado, escrito, dirigido, produzido, montado e finalizado por pessoas trans, o documentário dá voz à transexualidade e mostra diversos aspectos da vida de diferentes homens e mulheres que resolveram fazer a transição. O curta relata experiências que o público imagina que aconteça, relacionadas a preconceito e discriminação. Mas, além disso, o filme também mostra outros problemas que quem não vive a realidade trans nem consegue conceber, como a dificuldade de encontrar remédios e os conflitos vividos por quem se sente desconfortável com o próprio corpo. Tudo isso é contado através da visão de Orlando Tailor, um cartunista muito talentoso que compartilha experiências de diversas pessoas em sua página na internet.

#7 | Detroit em Rebelião

Em seus filmes anteriores (Guerra ao Terror, 2010; A Hora Mais Escura, 2013) a diretora Kathryn Bigelow conseguiu imprimir doses intensas de tensão que deixavam qualquer espectador na ponta  da cadeira. Com Detroit em Rebelião ela repete a fórmula mas, dessa vez, de uma forma bem mais cruel. Se as terríveis situações dos filmes anteriores tinham contornos de escapismo – as tramas se passavam no Iraque, realidade distante da maioria do público –, dessa vez a cineasta enfia o dedo em uma ferida aberta da sociedade e constrói uma das sequências mais angustiantes do ano. Os detalhes serão dissecados em uma crítica completa aqui no site, já que o filme estreia comercialmente no dia 12 de outubro e há muito – muito mesmo – a se falar sobre ele.

#8 | Karingana – Licença Para Contar

O documentário de Monica Monteiro é uma linda análise sobre como a arte influencia a arte e sobre como a falta de barreiras entre os países falantes de língua portuguesa nos aproxima. O filme leva a cantora Maria Bethânia a Moçambique, local em que os escritores e poetas Mia Couto e José Agualusa conversam sobre como a música da brasileira influenciou em seus escritos. Deste encontro brota um show de Bethânia em que ela canta e declama poemas e histórias de diversos autores, inclusive do próprio irmão. Dificilmente se fala no mérito da fotografia em documentários, que raramente é o foco, mas o trabalho de Luis Abramo aqui é espetacular e captura o que há de mais belo em Moçambique. O único ponto negativo do filme é que, no começo é sugerido que as poesias serão declamadas por diversos moçambicanos, e isso acaba ocorrendo apenas uma vez. Por mais inspiradas que sejam as declamações de Bethânia, isso se traduz em um trabalho preguiçoso de direção, em que cerca de metade do filme consiste em duas ou três câmeras pegando ângulos diferentes do show da cantora. Não por acaso, as pouquíssimas sequências em que Monteiro decide mesclar a voz de Bethânia com outras imagens funcionam melhor do que algumas das declamações.

#9 | Zama

Apesar da trama de Zama não ser tão interessante – um oficial da Coroa Espanhola aguarda uma carta que irá autorizá-lo a sair de um local em que não gosta de viver e se frustra com a espera – a direção de Lucrecia Martel é perturbadora no sentido de revelar aspectos da época não muito comuns em longas-metragens. Quando se fala em escravidão, diversos filmes deixam bastante claro que quem tinha escravos era mau e vilanesco, ou utiliza o ponto de vista dos negros para que o público vislumbre uma porcentagem do que o povo sofreu nas mãos dos brancos. Martel, no entanto, escolhe uma abordagem diferente – e muito mais cruel. Os escravos do filme estão sempre em uma de três situações: no fundo do cenário, de costas para a câmera ou com as cabeças fora do plano, uma clara metáfora para a relevância que eles têm na vida de seus “donos”. Ironicamente, a escrava que ganha mais destaque e é vista em primeiro plano é muda, ou seja, não tem voz. Zama retrata a escravidão exatamente como as pessoas brancas a viam na época: de forma corriqueira. E se não é perturbador o suficiente ver os negros vivenciarem situações de violência e humilhação com frequência, Martel ainda faz questão de que o público jamais esqueça de sua presença, como uma longa e incômoda sequência em que dois brancos conversam sobre banalidades e o barulho de um escravo abanando-os permanece ao longo de toda a conversa, mesmo com o negro fora da cena. A segunda metade do filme traz ainda uma participação bastante especial que muda drástica e inesperadamente os rumos da trama.