Festival do Rio 2017 | The Florida Project e os filmes de terça

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Vinheta do Professor LumièreO quinto dia do Festival do Rio de 2017 foi o mais mainstream de todos. É claro que mainstream no evento tem uma conotação bem diferente – designa apenas filmes com atores conhecidos e que provavelmente não serão difíceis de serem encontrados mais tarde em circuito comercial. Filmes como The Florida Project podem até ter algum apelo ao público mais amplo, mas ainda assim passam longe de serem blockbusters.

#18 | Doentes de Amor

Comédia romântica sensação no Festival de Sundance que, desde sua estreia no começo do ano, tem passado por festivais e recebido uma chuva de elogios de praticamente todos. Além disso, o filme já arrecadou mais de dez vezes o seu orçamento e é atualmente um dos independentes mais bem-sucedidos de 2017. Doentes de Amor estreará comercialmente no Brasil amanhã (dia 12), razão pela qual uma crítica completa poderá ser vista aqui no QG da Falange em breve. Mas, para resumir os méritos em poucas palavras: Kumail Nanjiani entende de humor e piadas como poucos de sua geração, e tem uma das melhores atuações do ano – mesmo que esteja interpretando a si mesmo.

#19 | Yonlu

O título menos mainstream do dia é uma tocante dramatização dos últimos meses do cantor e compositor Vinicius Gageiro Marques, que ficou conhecido por seu nome artístico Yonlu. Natural do sul do país, o jovem criativo produziu inúmeros trabalhos musicais inspirados mas encontrou seu fim com apenas 16 anos, quando lidava com depressão e recorreu a fóruns online para aprender como cometer suicídio. O drama não tem nenhuma ambição de ser um documentário, mas uma visão artística do processo criativo de Yonlu e a forma como se via no mundo. As repetidas cenas em que o jovem aparece vestido de astronauta em um gramado deixam claro como ele se sentia enquanto estava entre nós. O maior perigo de uma obra que retrata o suicídio, no entanto, é acabar romantizando o ato. Yonlu sofre do mesmo mal, com destaque para um plano em que um psiquiatra descreve a forma como o menino ameaçou se jogar de um prédio e a cena é facilmente um dos maiores destaques fotográficos do filme. Se você conseguir perdoar o deslize, no entanto, a direção de Hique Montanari tem muito a oferecer com uma linguagem que lembra os melhores trabalhos de Terrence Malick e um domínio bastante claro dos vários cenários da narrativa.

#20 | Terra Selvagem

Poucos filmes no festival são tão mainstream quanto Terra Selvagem, thriller investigativo estrelado por Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, mais conhecidos por seus papéis como Gavião Arqueiro e Feiticeira Escarlate na franquia Vingadores. O filme acompanha uma jovem agente do FBI que é recrutada para investigar um caso de assassinato em uma reserva indígena no Wyoming, no norte dos Estados Unidos. É difícil assistir ao filme sem pensar em obras como Fargo (1996) e Inverno da Alma (Winter’s Bone, 2010), mas o trabalho de Sheridan não deve nada a esses outros filmes renomados. Focada na investigação policial, a trama se desenvolve num ritmo fluido que acumula a tensão para os momentos certos, tal qual Denis Villeneuve em Sicario: Terra de Ninguém (Sicario, 2015). No entanto, o cineasta (e roteirista) se perde um pouco na hora de tratar dos personagens: o que parecia ser um conflito da protagonista logo some da narrativa, e um flashback terrivelmente intrusivo e inútil – pois revela algo que o público já sabia ou havia deduzido – desperdiça o trabalho de dois bons atores cuja participação logo se revela irrelevante para a trama. Nada disso é pior que o erro mais cruel do roteiro, que é ter mulheres e americanos nativos em posição de destaque mas se conformar em seguir a mais do que batida fórmula do “homem branco salva o dia”, que culmina em um determinado personagem caucasiano sendo pintado de herói mesmo que tenha tomado as atitudes mais questionáveis do longa.

#21 | The Florida Project

O cineasta Sean Baker, o mesmo do ótimo Tangerina (Tangerine, 2015), não é exatamente mainstream, mas, no contexto do Festival, seu nome é um dos que atrai mais público. Não por acaso, as sessões de The Florida Project são as em que a lotação máxima das salas de cinema é praticamente garantida. Com essa comédia dramática, Baker não hesita em deixar o público passar muito tempo vendo o mundo através – e na mesma altura – dos olhos de Moonee (Brooklyn Prince), uma menina de seis anos que vive em um motel barato com a mãe e alguns amigos. O tempo que passamos com a menina – cerca de uma hora da projeção – é justificado por dois motivos: Prince é ótima atriz e definitivamente uma das revelações do ano; e quando a perspectiva do filme se amplia e começamos a entender melhor a realidade em que a menina e a mãe se encontram, o tempo que passamos com a criança é fundamental para que entendamos a forma como ela enxerga aquele mundo em que vive. Apesar de se estender um pouco além do que deveria no fim, The Florida Project reforça a competência do trabalho de Baker e o alavanca cada vez mais rápido para o status de um dos melhores de Hollywood.