Festival do Rio 2017 | Rastros e os filmes de domingo

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Vinheta do Professor LumièreQuando o Festival do Rio de 2017 começou, dez dias parecia um tempo curto para se correr atrás dos mais de 200 filmes selecionados pela curadoria. Realmente é, mas os diversos horários e locais em que os filmes são exibidos dão aos frequentadores a sensação de que não conseguirão assistir a nem 10% do que gostariam. É impossível assistir a tudo (razão pela qual os mais experientes evitam os filmes que não serão difíceis de encontrar depois), mas vamos assistindo aos poucos e, quando nos damos conta, Rastros é o 40º filme assistido e nem percebemos. Aos queridos membros da Falange que me acompanharam todos esses dias, um imenso obrigado e nos vemos na maratona do Festival 2018!

#38 | Pequena Grande Vida

Conceitos que sejam diferentes de tudo que se vê corriqueiramente nos cinemas são sempre bem-vindos. Quando estimulam o pensamento crítico, melhor ainda. O novo filme de Alexander Payne (que estreia comercialmente em janeiro) pode até não explorar todo o potencial de seu argumento, mas ainda assim ajuda a perpetuar a importância de longas com ideias inovadores. A trama é simples: cientistas noruegueses conseguem encontrar uma forma de encolher os humanos para que tenham pouco mais de 12 cm de altura. Isso reduz drasticamente o custo de vida e os impactos dos humanos no ecossistema do planeta – mas o encolhimento é irreversível. O primeiro ato da comédia é bastante inventivo e cheio de elementos que estimulam de forma leve a filosofia do público. No entanto, o roteiro de Payne e Jim Taylor se perde completamente no segundo ato dando espaço a uma trama que não leva o filme a lugar algum. Pior, todos os personagens que poderiam ter um arco dramático interessante (os personagens de Neil Patrick Harris e Laura Dern são desperdiçados em uma ponta esquecível) são abandonados pelo roteiro para dar lugar a outros que não têm nada a acrescentar – por mais que todos amem Cristoph Waltz, seu personagem nada contribui para a trama. No fim do filme, resta a ideia de que esse tipo de história ficaria muito melhor nas mãos de figuras como Michel Gondry ou Charlie Kaufman – mestres em pegar um conceito filosófico e explorar todo o seu potencial.

#39 | A Festa

Juntar personagens em um ambiente do qual não podem sair é sempre um exercício narrativo interessante, pois permite a construção de diálogos e conflitos que podem levar o público do riso às lágrimas, dependendo da qualidade do roteiro e do elenco. Talvez o melhor exemplo de como essa fórmula é utilizada à perfeição é a comédia francesa Qual o Nome do Bebê?, que cineastas como Roman Polanski tentaram reproduzir, sem sucesso. A diretora e roteirista Sally Potter compreende a importância de um elenco que não permita que a trama em um único cenário se torne enfadonha – razão pela qual selecionou figuras como Patricia Clarkson, Timothy Spall, Kristin Scott Thomas, Bruno Ganz, Cillian Murphy, Cherry Jones e Emily Mortimer. No entanto, a duração do filme (70 minutos) talvez seja seu ponto mais fraco, já que a narrativa se beneficiaria de uma exploração mais detalhada de seus integrantes. Não que o roteiro não tenha seus defeitos: incluir uma subtrama logo na primeira cena que teoricamente deveria instigar a curiosidade do público é uma decisão ruim, já que acaba não dando em lugar nenhum. Mas o talento do elenco para interpretar a decaída de seus personagens é tão grande que um tempo a mais ajudaria a tornar os momentos em que todos entram em conflito mais críveis. A única personagem que realmente funciona do começo ao fim é April (Clarkson) que, confortável na posição de alívio cômico, entra e sai de cena com as melhores frases do filme e não é submetida à mudança brusca que os demais personagens sofrem.

#40 | Rastros

Duszeiko (Agnieszka Mandat) é uma professora de inglês substituta que mora perto da fronteira entre a Polônia e a República Checa. Apegada aos animais, ela tenta evitar a todo o custo a caça esportiva de bichos na área, sem sucesso. Quando suas duas cachorras somem, ela entra em desespero pois acha que algo ou alguém está cometendo assassinatos no local. Ela só é ouvida pela polícia quando pessoas começam a ser assassinadas também. Rastros, O vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, faz uma crítica bastante óbvia à forma como tratamos os animais, e utiliza isso como um excelente pano de fundo para uma trama de investigação e mistério. A excelente fotografia de Jolanta Dylewska e Rafal Paradowski só enriquece o trabalho da diretora Agnieszka Holland, que frequentemente coloca Duszeiko como um ponto branco na imensidão fria e enevoada da Polônia, o que ilustra seu isolamento e a forma como ela carece de ajuda em sua empreitada. Além disso, o design de produção não hesita em recriar carcaças bastante realistas de animais mortos para deixar bastante explícita a mensagem que o roteiro de Olga Tokarczuk e Holland deseja passar. Um ótimo último filme para um ótimo evento. Rastros é o filme selecionado para representar a Polônia no Oscar, o que significa que, caso fique entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, ganhará ampla distribuição no Brasil e em outros países. Dedos cruzados!