Festival do Rio 2017 | Prevenge e os filmes de sexta

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Vinheta do Professor LumièreNo oitavo dia do Festival do Rio 2017, os filmes assistidos trouxeram uma conexão curiosa: todos eram protagonizados por figuras com personalidades fortes e que foram marginalizadas em algum momento – por acidente ou voluntariamente. Além disso, não pude deixar de incluir um filme de terror para que a sexta-feira 13 não passasse despercebida. Não me arrependi: Prevenge foi um dos melhores filmes dos 33 que assisti nos últimos oito dias.

#30 | O Animal Cordial

Um restaurante que atende clientes de classe média está perto do fim do expediente. Enquanto todos respeitam frágeis regras de etiqueta social, o estabelecimento é invadido por dois assaltantes armados que forçam um choque cultural: pessoas de diversas origens vivendo o mesmo trauma. Se O Animal Cordial se limitasse à sua própria sinopse, a trama já seria interessante o suficiente. Afinal, só de acompanhar a forma como os personagens mais diversos reagem a uma situação de pânico já valeria a pena. No entanto, o roteiro e a direção de Gabriela Amaral Almeida segue uma direção completamente diferente do que se espera. Isso não é necessariamente ruim, uma vez que as surpresas são muito bem-vindas. Mas todas elas dependem do quanto o público está comprando a história – e, acredite, o filme desafia o espectador constantemente. Isso é ótimo, mas acaba sacrificando o desenvolvimento dos personagens, uma vez que, por não conhecê-los, fica difícil se importar com o destino de qualquer um deles.

#31 | Kim Dotcom: Agarrado na Web

Quando comecei a assistir ao documentário, eu não fazia ideia de quem era Kim Dotcom e, é claro, me surpreendi ao descobrir que ele teve uma grande influência na minha vida. Afinal, quem não baixou episódios de série ou filmes durante o início do século XXI. É praticamente impossível encontrar um usuário da internet que não tenha acessado o MegaUpload pelo menos uma vez na vida. É comum – especialmente para quem era adolescente na época – não pensar que o MegaUpload era uma empresa que estava rendendo ao seu dono milhões de dólares através de compartilhamento ilegal de material com copyright. A discussão que o documentário Kim Dotcom: Agarrado na Web propõe é uma das mais pertinentes da era da internet: quem deve ser responsabilizado pelo conteúdo que os usuários guardam ou compartilham? Essa pergunta já deu dor de cabeça para empresas como a Apple e o Google. Mas, no caso de Kim Dotcom, sua principal briga foi com as indústrias cinematográfica e fonográfica, que, despreparadas para lidar com o potencial da internet (inclusive ignorando o fato de que o compartilhamento de arquivos aumentou a venda de ingressos para diversos filmes e shows devido à propaganda boca-a-boca), atacaram o bilionário alemão com todas as armas que puderam utilizar. O documentário de Annie Goldson acerta em não pintar Kim Dotcom como vítima – a origem de sua fortuna é muito cinzenta e surgiu numa época que não havia legislação para a internet –, mas não hesita em apontar o dedo para as megaempresas que deveriam estar preparadas para mudanças abruptas no mercado onde atuam.

#32 | Tschick

Maik (Tristan Göbel) é um menino de 14 anos sem qualquer referência adulta. Sua mãe, apesar de amorosa, é alcoólatra e vive entrando e saindo de clínicas de reabilitação. Seu pai pouco se importa com ele, e quando anuncia que vai se ausentar por duas semanas, o garoto acaba aceitando acompanhar Tschick (Anand Batblieg), seu colega da escola que veio da Rússia e que não fez nenhum amigo pois todos o consideram um marginal. Conformado com a fama, Tschick rouba um carro e leva Maik na maior aventura de sua vida. A comédia de Fatih Akin consegue manter um tom leve por focar nos dois adolescentes despreocupados, mas a fotografia com tons cinzentos nunca deixa o espectador esquecer que os meninos terão que lidar com muitos problemas durante toda a vida. Não por acaso, as cores só ficam mais claras quando a dupla se afasta de tudo e de todos, e a química entre os dois ótimos atores só se fortalece, transformando o espectador em um animado cúmplice dos pequenos crimes dos dois.

#33 | Prevenge

Os melhores filmes de terror são aqueles que têm alguma coisa a oferecer para o público além de sustos. Se for olhado por esse ângulo, inclusive, Prevenge nem pode ser considerado um integrante do gênero. Na trama de Prevenge, Ruth (Alice Lowe) está grávida de sete meses e viaja pela cidade onde vive assassinando homens a mando de sua filha, que lhe dá ordens telepaticamente e a pune com contrações severas quando ela não obedece. Como em diversos filmes metafóricos, uma das diversões é tentar descobrir as razões porque a criança deseja que a mãe mate homens específicos. Enquanto isso, o longa de Lowe aproveita para fazer comentários pertinentes sobre a forma como as mulheres são tratadas corriqueiramente pelos homens. O único problema do filme é incluir um diálogo desnecessário perto do fim em que Ruth “explica” por que fez tudo que fez – algo que fica óbvio para o espectador à medida que a história se desenrola. Apesar disso, a trama não deixa de ser divertida de acompanhar, e a ótima cena final irá permanecer em minha memória por um bom tempo.