Festival do Rio 2017 | Patti Cake$ e os filmes de quinta

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Vinheta do Professor Lumière
O sétimo dia do Festival do Rio 2017 foi um dos mais ecléticos. Isso é um dos maiores méritos do evento, pois proporciona ao público que veja o mundo através dos olhos de diversas pessoas de etnias e realidades diferentes. Ao longo de um dia inteiro, passei pela periferia de New Jersey, onde a adorável Patti Cake$ tira inspiração para escrever suas rimas; entendi um pouco da angústia de J, uma pessoa não-binária que tenta encontrar seu lugar no mundo; vislumbrei como os cambojanos abordam uma história de ação e tive um relato em primeira mão da época da ditadura no Brasil. O slogan “aqui você vê o mundo” nunca soou tão coerente quanto hoje.

#26 | They

J. é uma pessoa não-binária que está prestes a entrar na puberdade. Isso significa que, após alguns anos tomando inibidores de hormônio, J. terá que decidir junto de seu médico que tipo de aparência física irá assumir. É desnecessário dizer que personagens não-binários são bastante escassos no cinema, dado que a desinformação e o preconceito ainda são grandes. No entanto, o roteiro de Anahita Ghazvinizadeh não está interessado em esclarecer nenhuma dúvida do público, o que evita um didatismo desnecessário. Ao mesmo tempo, as angústias de J. (Rhys Fehrenbacker) são todas retratadas de forma bem sutil em um filme que é delicado, cuidadoso e acolhedor, uma vez que todos os personagens ao redor de J. não se importam nem remotamente com sua escolha, e reagem da mesma forma caso vejam J. de vestido ou de calça jeans. Apesar de uma discussão sobre o tema ser importante, Ghazvinizadeh (em sua estreia na direção) só está interessada em acompanhar J., o que nem de longe é um demérito do filme, cuja palavra de ordem parece ser delicadeza – e isso a diretora iraniana faz muito bem.

#27 | Fuga!

Quatro policiais ficam encarregados de transportar um prisioneiro que está na mira da máfia feminina cambojana e adentram o presídio de segurança máxima em que ele está hospedado. No entanto, uma rebelião de grandes proporções começa, e o grupo terá de lutar para conseguir sair do local infestado de criminosos violentos. À primeira vista, Fuga! parece uma tentativa de reproduzir o ótimo Operação Invasão – e é mesmo. O longa de Jimmy Henderson também aposta em coreografias de artes marciais para que seu grupo de protagonistas derrube criminoso após criminoso. O problema aqui é que as lutas não são nem de longe tão divertidas quanto as do filme da Indonésia. Pior, as coreografias não são bem trabalhadas, a ponto de ser possível enxergar que os atores não estavam batendo uns nos outros de verdade. A maquiagem também é tenebrosa, com feridas de esfaqueamento sendo representadas por manchas vermelhas que nem passam a ilusão de perfuração. As atuações também não vão gerar nenhum prêmio ao elenco – destaque especial para o canibal que fica esfregando a barriga e flexionando os maxilares quando vê uma pessoa. O trabalho de mixagem de som também é bastante infeliz, atribuindo o mesmo barulho para socos, golpes de cassetete e até facadas (?). Mas tudo isso poderia ser ignorado caso Henderson abraçasse o amadorismo do projeto e se divertisse com o material (razão pela qual incluiu os erros de filmagem nos créditos finais – sempre um sinal de insegurança). No entanto, o filme tenta se levar a sério e acaba falhando miseravelmente, pois as risadas do público são involuntárias e o que poderia ser uma experiência divertida se torna apenas mais um filme de ação esquecível.

#28 | Pastor Cláudio

O documentário de Beth Formaggini coloca Eduardo Passos (psicólogo) frente a frente com Cláudio Guerra, ex-militar que, durante a ditadura no Brasil, foi encarregado de assassinar e sumir com os corpos de diversos militantes da esquerda em várias partes do país. Mesmo que tenha pouquíssimos recursos visuais, o documentário encontra algumas formas de transcender a conversa entre os dois homens – e a decisão de colocar a silhueta de Guerra contra as imagens de suas vítimas foi a mais inteligente de Formaggini. No entanto, tanto ela quanto o público sabem que o foco é a conversa, razão pela qual o filme não traz nada além disso. O resultado é bem o que se espera: as torturas e assassinatos eram cometidos de forma criminosa (as recompensas pelos assassinatos eram entregues aos militares como presentes ou dinheiro que eram registrados com documentos falsos) e por aqueles que se achavam no direito de decidir quem vive e quem morre. O filme também é inteligente ao não conferir nenhuma simpatia ao arrependimento de Guerra, uma vez que o público (e boa parte da sociedade) é incapaz de perdoar uma figura que fala das atrocidades que cometia enquanto segura uma bíblia nas mãos. Guerra esclarece o assassinato de Zuzu Angel, a forma como os militares se uniam para planejar seus crimes e faz um alerta assustador (mas não surpreendente) sobre o fato de que as figuras que tiveram o poder nas mãos continuam nos bastidores.

#29 | Patti Cake$

A primeira cena de Patti Cake$ me fez pensar que eu estava diante de um dos meus favoritos do Festival. Eu estava certo. O filme começa com uma espécie de clipe musical que sugere que Patricia (Danielle Macdonald) é uma rapper de talento e, à medida que o filme avança, só fica mais clara a habilidade da menina em fazer rimas improvisadas. Tanto Patti quanto seu amigo Jheri (Siddhart Dhananjay) sabem que são artistas de imenso talento, mas os dois precisam coviver com a noção de que estão presos na periferia de New Jersey e a fama e o reconhecimento podem estar muito distante de suas realidades. Além das ótimas músicas escritas pelo diretor e roteirista Geremy Jasper, Patti Cake$ traz ainda uma gama de ótimos personagens – a avó mal humorada que faz uma das piadas com acrônimo mais engraçadas do filme, o músico satanista com frases inusitadas, e a mãe de Patti (Bridget Everett), uma figura trágica mas com uma assombrosa potência vocal que entrega uma atuação tão incrível quanto a de Macdonald.