Festival do Rio 2017 | Os Meyerowitz e os filmes de sábado

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Vinheta do Professor LumièreTodo filme é uma obra de arte. Por mais que diversos estúdios tenham encontrado uma forma de monetizar a sétima arte, isso não invalida o fato de que todas elas são uma expressão de seus artistas – mesmo que o filme seja terrível. Os filmes do penúltimo dia do Festival do Rio 2017 são quase metalinguísticos por serem sobre a Arte. Enquanto Maudie contou como a arte pode libertar, Manifesto reclamou dos rumos que ela toma. Já Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (já disponível no catálogo da Netflix) mostrou como a apreciação pode causar um certo pedantismo. O curta-metragem Sal, no entanto, é um exemplo perfeito de como a arte pode ser mal utilizada.

#34 | Manifesto

Produzido em 2015, Manifesto logo chamou a atenção por sua proposta: colocar a atriz australiana Cate Blanchett para interpretar 13 papéis diferentes. Em cada um deles, ela ecoa palavras de diversos artistas famosos e faz diversos protestos e críticas em nome da Arte. Nós estamos falando de uma atriz que foi indicada ao Oscar por ter interpretado Bob Dylan, então era seguro pensar que Blanchett tiraria de letra a tarefa de viver 13 personagens distintos num mesmo filme. E ela realmente tira, e suas performances contribuem muito para que os manifestos não soem caricatos. No entanto, toda a indignação dos personagens com os caminhos que a Arte está seguindo e como parecemos estar perdendo nossa criatividade começa a soar repetitivo já no terceiro personagem – e pensar que viriam mais dez depois disso não contribui em nada para a apreciação. Ironicamente, o longa de Julian Rosefeldt tem muito mais impacto quando não há nenhum dos personagens em cena. A narração em off de Blanchett é muito mais evocativa e coerente do que as divagações de todas as personagens que interpreta.

#35 | Maudie

Por mais interessante que seja a história de Maud – uma mulher cuja artrite a impediu de levar uma vida normal durante muitos anos antes de se tornar uma artista renomada –, o filme opta por tomar o caminho mais fácil e lugar-comum das cinebiografias e, como uma receita de bolo, é bastante fácil prever o que irá acontecer em cada ato do longa. A performance de Sally Hawkings tem muitas semelhanças com a de Eddie Redmayne em A Teoria de Tudo, no sentido de que sua composição se interessa mais pelos fatores externos da personagem do que com o que se passa em sua cabeça. A diretora Aisling Walsh também retrata Maud como vítima do começo ao fim do filme, o que essencialmente transforma os demais personagens – sua família, principalmente – em vilões unidimensionais que nem ganham tempo de tela suficiente para que possam ganhar um mínimo de complexidade. O erro mais grave do filme, no entanto, é jamais reconhecer os atos de machismo cometidos pelo marido de Maud, que acabam esquecidos pelo roteiro e “justificados” pelo fato de que, mais tarde, ele se apaixonou de verdade por ela. Isso tudo não impede a história de ser minimamente interessante e ter bons elementos (como a excelente fotografia de Guy Godfree), mas o que poderia render uma excelente história se conformou em ser apenas mais uma cinebiografia entre tantas.

#36 | Sal

A Arte tem o poder de dissecar um tema à exaustão, explorar os personagens, entrar em suas cabeças e tentar compreender suas motivações. Nada disso é feito em Sal, curta-metragem que utiliza o método mais imbecil para abordar um dos temas mais complexos que existem. Infelizmente, revelar que tema é esse é o maior spoiler do filme, já que o roteiro – escrito por DUAS pessoas – decide que seria mais legal ter 14 minutos e meio de um suspense artificial e ter um “final surpresa” do que revelar de cara do que se trata e trabalhar os personagens. A trama acompanha Márcio (Guilherme Rodio) e Sérgio (Eucir de Souza), dois caras que se encontram em um apartamento para realizarem uma fantasia estranha. A fantasia realmente é estranha (pra dizer o mínimo), mas em vez de explorar o que leva uma pessoa a fazer aquelas coisas e o estado mental em que se encontram na hora de finalmente realizá-lo, os roteiristas Claudia Cabral e Marcos Barbosa preferem fazer 14 minutos diálogos que são variações de “vamos fazer?” “vamos.” “tem certeza?” repetidas à exaustão. Um texto que surge no fim do curta ainda revela que se trata de uma história real – ou seja, mais um motivo para tentar explorar a mente daqueles personagens. Mas não. O que ganhamos em vez disso foi um roteiro pobre e uma direção que por vezes beira o amador (destaque para um momento de conflito físico entre os personagens) e a sensação de que talvez uma matéria de jornal teria um texto mais rico do o que foi apresentado.

#37 | Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

As melhores performances de Adam Sandler – e sim, elas existem – são aquelas em que o diretor consegue reconhecer seu talento para viver personagens divertidos mas um pouco melancólicos, que parecem correr o risco de transitar no caminho da depressão. Baumbach sabia disso ao colocá-lo no elenco de Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, comédia que acompanha Danny (Sandler), Matthew (Bem Stiller) e Jean (Elizabeth Marvel), três irmãos que tentam viver à sombra do pai, o artista famoso Harold (Dustin Hoffman). Não por acaso, a atuação de Sandler em Os Meyerowitz, foi elogiadíssima do Festival de Cannes, junto com todo o resto do elenco, que ainda conta com Emma Thompson, Adam Driver e Candice Bergen. O entrosamento do elenco é o ponto mais alto de Os Meyerowitz, que aposta em suas performances para criar um clima de ressentimento por um passado que jamais vemos. Hoffman está ótimo como um homem tão acostumado a ser ouvido sem interrupções que raramente escuta o que outros dizem, o que proporciona alguns dos momentos mais engraçados do filme. Ao mesmo tempo, Baumbach é eficiente em jamais deixar de lado o clima melancólico que remete à forma como cada um dos filhos de Harold foi criado – e como isso os transformou em adultos esquisitos e que são pouco interessados em Arte.