Festival do Rio 2017 | Kimi no Na Wa e os filmes de quarta

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Vinheta do Professor LumièreO sexto dia do Festival do Rio de 2017 já tinha uma trapaça programada. A razão é simples: eu tinha me programado para assistir à animação japonesa Kimi no Na Wa, que teve sessões exclusivas em poucas salas de cinema do Brasil. Ainda assim, mesmo que Kimi no Nawa não estivesse nos planos, eu teria fortes motivos para desistir do dia no Festival, que, apesar de um início consistente com 120 Batimentos por Minutos, depois acabou se revelando o mais fraco até aqui.

#22 | 120 Batimentos Por Minuto

O dia começou bastante bem com o drama do diretor Robin Campillo. Se Me Chame Pelo Seu Nome conquistou o público por investir na sutileza e nas nuances tanto dos personagens quanto da trama, 120 Batimentos é o equivalente francês do famoso “pé na porta e tapa na cara”. O filme acompanha um grupo de ativistas que luta visceralmente pelos direitos das vítimas da epidemia de AIDS que assolou o planeta no fim da década de 80 e início da de 90. O roteiro de Campillo e Philippe Mangeot é eficiente em mostrar o dia a dia da organização ativista Act Up e todas as decisões que são tomadas e debatidas em grupo (os estalidos de dedos logo se tornam um ótimo recurso do roteiro). O entrosamento do elenco é fundamental para que longas discussões numa sala de reuniões funcionem e, felizmente, o casting tem talento de sobra para que as cenas sejam fluidas a ponto de me fazer desejar que o filme todo acontecesse ali. No entanto, o peso das quase 2h30 de duração surge quando a narrativa passa a se concentrar no drama de um único personagem em vez do grupo, como havia sido estabelecido desde o começo. O drama é real e comovente, mas não acrescenta nada ao filme exceto melodrama, já que sua mensagem tinha sido passada desde a primeira hora.

#23 | Medeia

Medeia só tem dois méritos: é curto (73 minutos) e tem uma cena de parto que talvez seja a mais angustiante – ou pelo menos uma das mais angustiantes – da história do Cinema. O drama acompanha Maria José, uma jovem adulta que joga rugby, estuda, tem um melhor amigo e está prestes a começar um novo relacionamento. Mas tudo isso é irrelevante, pois ela tem um segredo: está grávida de alguns meses e não quer contar para ninguém. As razões pelas quais Maria escolhe esconder a gravidez jamais ficam claras – e se o espectador inventar um motivo terrível qualquer por conta própria, ele provavelmente se encaixaria na lógica da trama. O problema é que na falta de uma razão concreta para a protagonista esconder a gravidez com tanto afinco, não é possível se conectar com ela, compreender suas decisões e tampouco imaginar os conflitos que se passam em sua cabeça – já que ela jamais expressa o que quer que a atormente. Assim, as duas sequências mais tensas do filme – o parto já mencionado e um caso de atropelamento – perdem todo o impacto que teriam se o público estivesse investido na história.

#24 | Bio

A regra mais básica do Cinema é simples: mostre, não conte. É por isso que, na maioria dos filmes, quando um personagem decide contar alguma história, ele tem a ajuda de algum recurso visual. Existem casos sem recursos, é claro, mas se você vai quebrar uma das regras elementares do Cinema, você precisa estar preparado para fazê-la funcionar através da subversão. Bio não consegue fazer isso nem de longe. A proposta do diretor Carlos Gerbase é contar através de 39 depoimentos a vida de um personagem que jamais aparece. Esses depoimentos são contados em forma de mockumentary mas o roteiro falha miseravelmente em dois aspectos: não se aproveita de ser uma ficção para explorar o potencial cômico que o formato pode proporcionar (como visto em comédias para a TV como The Office e Modern Family) e não tem absolutamente nenhuma carga dramática. Em resumo, Bio é literalmente a dramatização do tédio que você sente quando vê diversas pessoas falando sobre alguém que você não conhece e não tem o mínimo interesse em conhecer. Como se não fosse o bastante, Gerbase ainda se sente confortável em propagar o machismo em diversas formas – meninas na flor da idade ficam nuas sem o menor propósito e em cenas aleatórias (mais para o final, então…); uma subtrama do roteiro inclui uma massagista tântrica que não consegue resistir ao protagonista e acaba tendo um relacionamento com ele e a cereja do bolo: uma mulher que se sente lisonjeada com as cantadas do protagonista, 50 anos mais velho que ela. Gerbase tem compreensão nula da lógica de uma piada, e isso fica claro nas pífias (e raríssimas, graças a deus) tentativas de humor ao longo da projeção. O que figuras como Maitê Proença, Maria Fernanda Cândido, Marco Ricca e outros estão fazendo ali, jamais conseguirei explicar.

#25 | Kimi no Na Wa

A animação japonesa Kimi no Na Wa, ou Your Name, não faz parte dos filmes no circuito, mas não estaria muito fora de lugar caso fosse incluída no catálogo do Festival. É por isso que a coloco aqui, como se fosse mais um filme que assisti no evento. Felizmente, o filme não me deixou tão sem fé no cinema quanto o imbecil Bio, mas Kimi no Na Wa entregou nada além do que se esperava – uma linda direção de arte. Só. Se um filme fosse julgado apenas por sua fotografia, Kimi no Na Wa (que se tornou o quarto filme mais bem sucedido na História do Japão) seria facilmente o melhor longa do ano. A direção de arte é de tirar o fôlego, e conferir o trabalho na tela grande é fundamental para se ter uma ideia da importância da escala na trama, que conta com dezenas de planos belíssimos que estou ansioso para revisitar. No entanto, a trama deixa muito a desejar: uma menina do interior do Japão troca ocasionalmente de corpo com um garoto da cidade e os dois vão aos poucos se acostumando a viver a vida um do outro. O roteiro de Makoto Shinkai vai até os shonens e shoujos (histórias voltadas para o público pré-adolescente japonês) e pega os maiores clichês dos dois subgêneros – o que pode explicar os mais de 350 milhões arrecadados. No entanto, Shinkai perde bastante tempo com gags de troca de corpo e, quando chega a hora de levar a história para o próximo nível, tudo fica muito corrido. Além disso, Shinkai decide incluir um elemento narrativo na história que é usado de forma tão pavorosa que gera mais perguntas do que respostas.