Festival do Rio 2017 | Henfil e os filmes de sexta

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange. Aqui quem fala é o Professor Lumière, seu correspondente de Cinema que encarou o desafio de assistir no mínimo três filmes por dia durante o Festival do Rio de 2017. A tarefa não é difícil, mas exige algumas correrias entre os cinemas da cidade e, ao fim de cada dia, um diário com curtas impressões sobre tudo que foi assistido será postado aqui, então fiquem de olho! O filme de abertura do Festival foi A Forma da Água, de que a Mãe já falou bastante aqui. O destaque do dia para mim, então, será outro: o documentário Henfil, de Angela Zoé.

Vamos considerar neste diário o primeiro dia do Festival aquele em que milhares de sessões foram abertas ao público, à crítica e à imprensa no dia 6 de outubro. Foi dada a largada e, se os quatro primeiros filmes servirem de termômetro para o que a curadoria preparou, podemos estar diante de uma das melhores seleções de filmes do Festival.

#2 | Gabriel e a Montanha

Baseado em uma história real, o drama acompanha Gabriel (João Pedro Zappa), um jovem que decide viajar pela África durante um ano para aprender sobre como é tratada e implantada a educação em países pobres. Bastante sensível, o filme deve muito à performance de Zappa, que transforma Gabriel em uma figura amável e incapaz de provocar a ira em qualquer pessoa que cruze seu caminho. Isso é bom em dois sentidos: o público não se incomoda de passar as duas horas do filme ao lado dele e, por mais imprudente que tenha sido o comportamento que o levou a um destino trágico (revelado na sinopse oficial e logo na primeira cena), ficar apreensivo à medida que a história se aproxima do fim e todos percebem que está chegando a hora de dizer adeus.

#3 | Me Chame Pelo Seu Nome

Sensação no Festival de Sundance e já considerado um dos melhores filmes do ano, Me Chame Pelo Seu Nome parece ter qualidades invisíveis aos olhos do Professor Lumière. Ambientado na década de 80, ele acompanha Elio (Timothée Chalamet) na descoberta do primeiro amor, que surge na figura de um homem quase 20 anos mais velho, o confiante Oliver (Armie Hammer). Dado a época em que se passa, é compreensível que a relação dos dois sofra de uma hesitação que atrasa bastante o ritmo do filme. No entanto, a ambientação pouco faz para explorar a barreira entre os dois personagens. Em Carol (2015), por exemplo, as personagens lidavam com o peso de um amor proibido e esse peso era quase visível na tela. Aqui, o calor e as cores saturadas do sul da França –aliados à hostilidade nula que qualquer um dos dois personagens sofrem – apenas sugerem que mais de uma hora da metragem do drama é apenas um problema de comunicação entre os personagens, que inclusive é resolvido bem rapidamente quando a dupla decide falar sobre o assunto. No entanto, um comovente monólogo brilhantemente interpretado por Michael Stuhlbarg no fim do filme é difícil de ser esquecido.

#4 | Vende-se Esta Moto

É curioso ver em um espaço de tempo o ator João Pedro Zappa protagonizando um filme em que ele só quer distância do Brasil (Gabriel e a Montanha) e outro em que seu personagem nem sequer cogita a possibilidade de abandonar sua terra natal. A beleza de Vende-se Esta Moto está em subverter a forma com que uma história retrata os membros de comunidades: como pessoas comuns de sonhos, ambições, filosofias e frustrações, cujas vidas não é pautada pelos crimes e violência – tudo que vemos sobre eles na TV. A criminalidade, inclusive, não é utilizada nem como subtrama aqui. Em vez disso, o roteiro de Marcus Faustini e Luana Pinheiro conta uma história de amor (um tanto às avessas) e encontra a poesia verbal e visual em elementos bastante corriqueiros – do corredor da favela que mostra casinhas amontoadas entre fios que se entrecruzam diante do céu até um quarto sem nenhum acabamento mas com uma luz que sugere a visão e a expectativa de um novo membro da família naquele cômodo. Só é uma pena que Faustini não tenha se jogado um pouco mais nos simbolismos, pois o surgimento e permanência de uma figura que pode ser vista como a Morte em determinado momento se destaca como um dos momentos mais poderosos do filme.

Imagem do filme Vende-se Esta Moto, parte da seleção do Festival do Rio 2017.

#5 | Henfil

O melhor filme do dia é um documentário que conta a história de Henfil, cartunista que driblou a censura e tinha tolerância zero àqueles que demonstravam qualquer nível de afinidade com a ditadura. É assombroso acompanhar a história de Henfil e perceber que basicamente toda crítica que o ativista fazia ao país e à forma que estava sendo conduzido se aplica aos dias de hoje. Além disso, o filme evidencia a urgência com que a arte e, principalmente, o humor pode conferir a diversos temas que não são ajudados pelo silêncio. Tudo isso ganha contornos leves através da marcante personalidade de Henfil, que, mostrada através de diversos vídeos de Super 8, revelam que ele era uma figura de respostas rápidas, inteligentes e frequentemente hilariantes. Destaque especial para a analogia genial que o cartunista faz com os brasileiros e as baratas. A direção de Angela Zoé é muito eficiente em criar um retrato conciso de Henfil e fazer uma ponte com o trabalho da equipe que criou animações para o filme, além das excelentes entrevistas com amigos e parentes próximos.

E esse foi o primeiro dia no Festival do Rio. Hora de ir acordar a Mãe lá no sofá do Náusea para encararmos o Dia 2. Até lá!