Festival do Rio 2017 | As Boas Maneiras e os filmes de domingo

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Vinheta do Professor LumièreOlá, queridas e queridos membros da Falange. Por acontecer no domingo, o terceiro dia do Festival do Rio de 2017 é um dos mais concorridos, razão pela qual diversos filmes tiveram sessões lotadas. Ótimo para o cinema, ruim para os cinéfilos que precisam reorganizar a agenda quando não conseguem assistir ao filme que queriam. Esperto como sou, comecei o dia nas salas de cinema mais distantes – onde poucos se dispõem a ir – e comprei antecipadamente os ingressos dos filmes da noite, que se esgotaram em pouquíssimas horas. Essa foi a melhor decisão que tomei, porque sair do Festival do Rio sem ter assistido a As Boas Maneiras é praticamente a mesma coisa que não ter ido. Mas primeiro vamos aos filmes que o antecederam.

#10 | Pop Aye

Filme tailandês que conta a história de Thana (Thanet Warakulnukroh), um arquiteto renomado em crise de meia-idade. Ele joga tudo pro alto quando encontra na rua Pop Aye, um elefante que fez parte da sua infância. Thana, então, se compromete a levar o elefante de volta para a sua cidade natal. A diretora Kirsten Tan não economiza nos shots do elefante e entrega todos os ângulos possíveis que o espectador espera ver do animal. Mas por mais que Pop Aye roube a cena, o mais interessante do filme são as figuras que surgem durante a jornada do arquiteto: um mendigo com um sonho simples, a própria esposa de Thana e uma travesti que entra e sai de cena sem que o roteiro ou a direção faça nenhum alarde sobre sua presença. Todos os personagens perdidos e melancólicos acabam sendo lembrados de viver a vida devido à presença de Pop Aye, que representa as situações inusitadas e exóticas que a vida pode proporcionar.

#11 | Ar Sagrado

O cineasta egípcio Shady Srour é habilidoso em deixar claro, logo nas primeiras cenas, a forma como o protagonista Adam (Tarek Copti) está exausto e cansado de ter que enxergar a vida através do prisma de copo meio cheio ou meio vazio. Não é à toa que ele começa o filme em um intenso engarrafamento onde descobre a gravidez da esposa – uma notícia boa em um momento estressante, mote que acaba sendo repetido constantemente ao longo da comédia. Portanto, quando Adam decide começar a levar a melhor sobre a vida de uma forma nada honesta (mesmo que ele acredite – ou se convença – de que está fazendo a coisa honesta), a decisão não surpreende. Apesar de divertido, o roteiro de Srour nunca explora o próprio potencial – a esposa de Adam, que fala abertamente sobre sexualidade, é esquecida pelo roteiro – e uma cena em particular, em que um desentendimento no trânsito escala para um caos generalizado, é de uma excelência cômica e inusitada que Srour jamais consegue alcançar novamente. Por mais engraçado que seja ver Adam enganar os cristãos com o seu Ar Sagrado engarrafado, e depois entrar em conflito com os líderes religiosos locais, os conflitos nunca atingem o tom cômico ou surpreendente da cena mais memorável do longa.

#12 | Tom of Finland

Cinebiografia de um ilustrador finlandês que, após testemunhar os horrores da Segunda Guerra Mundial, se recusa a viver com medo e acuado – mesmo que ser aberto sobre sua homossexualidade possa resultar em sua própria morte. É surpreendente acompanhar esse tipo de história, pois, se em 2017 a ideia de dois homens andarem de mãos dadas pode ser um convite à violência gratuita, na década de 50, na Finlândia ultraconservadora, o espectador sente um medo constante por Touko (Pekka Strang), que antes de se tornar o Tom of Finland do título se atirava em aventuras muito perigosas para dar vazão à sua sexualidade. Um dos aspectos mais notáveis do filme é a montagem de Harri Ylönen, que faz pequenos saltos temporais e alguns flashbacks mas não confunde o espectador, mesmo que a linha do tempo do filme não fique muito clara. Durante boa parte da projeção, inclusive, o filme não soa episódico, um defeito comum de cinebiografias que cobrem um longo período de tempo. A parte triste é que o diretor Dome Karukoski permite que esse defeito se manifeste nos últimos 20 minutos do filme, em que um espaço de tempo muito longo é vislumbrado em várias sequências de poucos minutos. Mas isso não invalida os acertos da obra e da incrível história do ilustrador destemido – e um pouco pervertido.

#13 | As Boas Maneiras

Eu entrei na sessão de As Boas Maneiras sem saber absolutamente nada sobre o filme. E se você quiser ser surpreendido, recomendo que faça o mesmo, porque o filme dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra tem surpresas de sobra do começo ao fim. Essa review não vai ter spoilers, mas, se não quiser saber nada, recomendo que pare de ler aqui mesmo. Porque As Boas Maneiras foi onde nenhum filme nacional jamais foi. Temos filmes de terror, sim, mas o longa ousa de uma forma que ainda não tínhamos ousado. Rojas e Dutra não hesitam em se jogar no macabro e diferente – o primeiro indício disso é a forma fabulesca – e fabulosa – como o céu e o horizonte de São Paulo foram transformados em paisagens coloridas e vívidas. Além disso, a história de uma mulher que engravida de um lobisomem traz ecos de O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968) e não hesita em se libertar das amarras da própria narrativa: uma sequência animada que surge de repente é um dos elementos mais inspirados do longa. Dividido em dois atos bem distintos, As Boas Maneiras se entrega a um exercício que beira o experimental na segunda parte, o que, compreensivelmente, resulta em uma enxurrada de acertos e erros que dependem do quanto a plateia está imersa na história. Isso é tudo que posso dizer sem dar spoilers. Por mais que nem tudo em As Boas Maneiras funcione, os acertos são muitos e a sessão provavelmente foi a mais divertida do Festival, uma vez que todos na plateia não se incomodaram de ver até onde aquela trama iria e ninguém – ninguém – saiu do filme indiferente.