Festival do Rio 2017 | Aos Teus Olhos e os filmes de segunda

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Vinheta do Professor LumièreÉ difícil assistir a um número elevado de filmes no Festival do Rio de 2017 e sair ileso de todos eles. No meio de tantas produções de tantos países e visões diferentes, é inevitável que algumas das visões não se alinhem com as suas – ou que certos filmes sejam simplesmente ruins mesmo. Que eu só tenha encontrado o primeiro ruim no quarto dia do evento diz muito sobre a curadoria em relação a anos anteriores, em que a proporção de filmes ruins para cada bom parecia ser consideravelmente maior. Hoje comecei mal (mas nem tanto) com Cadáveres Bronzeados, mas terminar o dia com o maravilhoso Aos Teus Olhos foi justamente o antídoto que eu precisava para me sentir bem novamente.

#14 | Cadáveres Bronzeados

Não que o filme seja de todo ruim. A premissa é bastante boa: um grupo de ladrões de barras de ouro encontra o esconderijo perfeito para sua mercadoria, mas encontram no lugar artistas em meio a um trabalho inusitado e três pessoas aleatórias que acabam se vendo no meio de um conflito brutal quando a polícia chega para deter os bandidos. A estrutura do filme é seu maior mérito: as idas e voltas no tempo que permitem acompanhar um acontecimento de vários pontos de vista diferentes – e que mudam a impressão do espectador a cada nova revelação – diverte bastante. Mas os diretores Hélène Cattet e Bruno Forzani preferem apostar mais no shock factor (violência e nudez se misturam constantemente) do que numa trama minimamente coerente. A escolha de closes extremos que mostram apenas os olhos ou a boca dos personagens não permite que a geografia do único cenário fique clara para o público. Portanto, quando eles se deslocam, é difícil saber quem está em que lugar e indo em que direção – o que seria fundamental para que o público ficasse apreensivo e temesse pelo destino de todos os envolvidos.

#15 | Investigando o Paraíso

Quando um determinado sacerdote faz uma pregação na qual sugere que 72 virgens esperam os homens muçulmanos no paraíso, uma jornalista decide sair para as ruas do país para questionar as pessoas como elas imaginam que seja esse paraíso e quais seriam suas inconsistências. Não seria surpresa e muito menos um spoiler dizer que, quando forçados a pensar sobre o que determinadas afirmações religiosas significam, os fiéis se veem sem respostas que inevitavelmente culminam em “porque Deus/Alah é sábio e não devemos questionar suas decisões”. É ao mesmo tempo cômico e trágico ver as pessoas tentarem explicar por que os homens merecem 72 virgens no paraíso e as mulheres nada. Se as perguntas não fossem tão específicas para o Corão, inclusive, o documentário poderia ser facilmente reproduzido em outros países, já que inconsistências não são exclusividade do islamismo. O único problema do documentário é que sua estrutura (a jornalista Nedjma mostra o vídeo da pregação para intelectuais e espera suas reações e respostas) acaba sendo repetida à exaustão, e lá pela décima vez que uma pessoa mais elucidada surge para dizer basicamente a mesma coisa que outras nove já disseram, o interesse acaba se dissipando.

#16 | Terra-Mãe

O documentário acompanha a rotina de uma das maternidades mais movimentadas do planeta, lugar onde cerca de 150 mães ficam internadas por dia. A diretora Ramona S. Diaz sabe que tem imagens poderosas nas mãos, então deixa que elas falem por si só – não há narração, entrevista ou outros elementos de documentários tradicionais aqui. Em vez disso, a cineasta simplesmente posicionou suas câmeras e deixou que elas registrassem o turbilhão de emoções que se chocam na maternidade: a alegria e a emoção de se testemunhar a chegada de uma nova vida; o olhar de desesperança das enfermeiras e assistentes sociais que sabem que a ignorância e falta de informação fazem com que a maioria das mães internadas já tenha mais que quatro filhos antes mesmo de completarem 25 anos de idade; o desespero de meninas recém-saídas da adolescência que mal sabem lidar com a própria gravidez; a engenhosa forma que os filipinos encontraram de contornar o problema de falta de incubadoras; a divertida enfermeira que é praticamente uma MC da maternidade e muitos outros elementos que fazem do documentário uma experiência emocionante.

#17 | Aos Teus Olhos

A lotação de uma sala sempre indica o nível de expectativa que cerca um filme no Festival, e a de Aos Teus Olhos estava cheia. A sinopse é simples: Rubens (Daniel de Oliveira), um instrutor de natação infantil, é acusado de ter beijado um seus aluninhos. Mas a resolução não é nem de longe tão simples. Com ecos do drama dinamarquês A Caça, o drama faz uma crítica intensa ao imediatismo da internet: o caso de Rubens ganha proporções colossais quando um responsável mal-intencionado decide divulgar a história nas redes sociais – e, a partir daí, a diretora Carolina Jabor e o roteirista Lucas Paraizo evidenciam a terrível tendência dos usuários de internet assumirem o papel de juiz, júri e carrasco em questão de segundos e com a menor quantidade de evidências possível. Consciente de que ninguém é 100% bom ou ruim, Daniel de Oliveira faz uma composição de um personagem bastante interessante em Aos Teus Olhos: o Rubens dele não é necessariamente um cara de quem boa parte dos espectadores gostaria de ser amigo. Apesar disso, ele é competente ao trabalhar uma relação com as crianças que indica que ele provavelmente é inocente, e o espectador é forçado a considerar que, mesmo que o protagonista seja uma figura não muito respeitável, ele – e nenhum de nós, na verdade – não merece ser julgado prematuramente e sem uma investigação adequada. Uma lição importante de Aos Teus Olhos.

Imagem do filme Aos Teus Olhos, parte do Festival do Rio de 2017. A imagem mostra um homem com trço nu inclinado para dentro de uma porta, enquanto sua imagem é refletida em um espelho.