Falange Resenha | Yooka-Laylee

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Mãe SerpenteDepois de uma campanha de Kickstarter que teve mais de 73 mil colaboradores, Yooka-Laylee passou por dois longos anos de produção até chegar nas mãos dos jogadores no mundo todo. A ideia de fazer um jogo baseado em um clássico do Nintendo 64 dividiu fãs e críticos. Todo o mundo sempre gostaria de reviver os melhores momentos de décadas anteriores. Mas talvez algumas experiências antigas fiquem melhores como lembrança. Seria o caso da plataforma 3D? E, principalmente, dos collectathons? Afinal, o gênero esteve esquecido pelo grande público desde o início da década de 2000. Boas notícias para os saudosistas: Yooka-Laylee não é só uma carta de amor ao início da era 3D; é também um excelente jogo.

Collectathon: que gênero é esse?

A quinta geração de videogames foi responsável por introduzir o 3D em larga escala aos jogadores. Tanto o Nintendo 64 quanto o PlayStation 1 foram responsáveis por criar novos jeitos de interagir com espaços digitais, e os anos 90 introduziram estilos que servem até hoje de base para a produção de jogos eletrônicos. Um gênero que ficou na década de 90 é o dos collectathon. Além de fases de plataforma em 3D, um collectathon coloca a necessidade de conseguir dezenas de colecionáveis como centro da jogabilidade e narrativa. Esse tipo de jogo surgiu com Mario 64.

Em 1996, os videogames não possuíam muita capacidade de processamento e memória em seus dispositivos. Isso impedia que uma quantidade muito grande de fases em 3D fosse criada no mesmo jogo. Para aumentar o tempo de jogo, e a satisfação do jogador, a solução encontrada foi encher cada fase com dezenas de objetivos. Assim, na tentativa de coletar tudo o que fosse possível, é necessário percorrer a mesma fase ao longo de horas.

Super Mario 64 (Nintendo, 1996) foi um sucesso estrondoso de vendas, e logo inspirou outras séries de plataforma em 3D, como Spyro (Insomniac Games) e Crash Bandicoot (Naughty Dog). Mas a fórmula dos collectathons alcançou seu auge nas mãos da Rare. O estúdio foi responsável pela criação de Banjo-Kazooie, em 1998, Donkey Kong 64, em 1999, e Banjo-Tooie, em 2000. Apesar de problemas em cada um dos títulos, os três foram extremamente importantes para a indústria, e até hoje são considerados grandes clássicos.

Banjo e Kazooie fizeram parte da infância de muita gente. Curiosidade: a música tema do jogo foi gravada utilizando como base um banjo e um kazoo (uma espécie de corneta). Curiosidade 2: a música tema de ‘Yooka-Laylee’ utiliza um ukulele (o instrumento de cordas havaiano).

No início dos anos 2000, os collectathons começaram a perder público, e pouco a pouco desapareceram quase por completo. Além de Mario, séries como Ratchet & Clank (Naughty Dog) sobrevivem até hoje. Mas o último grande título original do gênero foi Psychonauts (Double Fine), em 2005.

Yooka-Laylee, então, marca a tentativa de um gênero inteiro de conquistar um novo público. E a importância da tarefa tem o peso de uma grande equipe. Isso porque a Playtonic é formada pelos grandes nomes da Rare, que abandonaram a empresa para fundar sua própria produtora, Playtonic Games, baseada na glória da plataforma 3D dos anos 90.

Os anos 90 voltaram

A proposta de Yooka-Laylee é ser o Banjo-Kazooie da nova geração. Todos os principais elementos da jogabilidade, por isso, são comuns a ambos os jogos. A partir de um mundo externo, é possível acessar fases temáticas, nas quais é necessário completar missões e minigames para receber um colecionável como recompensa. Esse colecionável serve de moeda de troca para desbloquear novas fases. O processo de procura e coleta continua até que um número suficiente de colecionáveis seja adquirido, e o jogador possa enfrentar o mestre final. Em Banjo-Kazooie, esses colecionáveis eram peças de quebra-cabeça. Em Yooka-Laylee, são páginas de um livro mágico.

Yooka-Laylee
Como apelar ainda mais para o saudosismo? Distribuir um manual digital diagramado de forma idêntica aos antigos manuais de cartuchos. Com direito a explicações da estória, personagens e mesmo algumas dicas!

Um dos avanços de Yooka-Laylee é que o número de páginas necessário para desbloquear cada novo mundo é pequeno. Isso significa que o jogador não precisa de muito esforço para acessar novas áreas, que pela temática podem agradar mais. A barreira do mestre final também é mesmos exigente do que os jogos da década de 90. Em Banjo-Kazooie, era necessário coletar 94 das 100 peças de quebra-cabeça. Em Donkey Kong 64, nada menos que todas as 201 bananas douradas eram necessárias para liberar o final secreto. Yooka-Laylee cobra apenas 100 páginas, das 145 possíveis.

Ao invés de um grande número de fases, Yooka-Laylee aposta em fases maiores e mais complexas. São apenas cinco fases principais, além do mundo externo, mas cada uma delas é imensa, com dezenas de coisas para ver e fazer. Um recurso inédito é a possibilidade de expandir as fases, com o pagamento de páginas extras. A temática de cada fase também combina elementos diversos para aumentar sua variedade. Moodymaze Marsh mistura a área pantanosa com estruturas industriais. Tribalstick Tropics é uma selva com construções de civilizações antigas. O grande destaque é Galleon Galaxy, que mistura o espaço, piratas, um parque de diversões e até possui uma guerra intergaláctica como plano de fundo! Apesar disso, um número menor de fases significa que, caso um jogador não se identifique com um dos cenários, o jogo já perde boa parte de sua diversão, proporcionalmente.

Cada fase possui uma grande variedade de subseções, cada uma construída em torno de um desafio específico. E normalmente é preciso sair do caminho principal para achar o segredos mais bem escondidos, como expansores de vida, de energia, ou mesmo as misteriosas caveiras pirata.

Banjo- Kazooie Yooka-Laylee

Yooka-Laylee faz mais do que se inspirar em Banjo-Kazooie para traçar seus elementos gerais de jogabilidade. O novo jogo é uma cópia do antigo em inúmeros detalhes. Para o bem e para o mal. Existe uma nova versão de Mumbo Jumbo, o shaman capaz de transformar Banjo e Kazooie em animais diferentes para completar tarefas específicas em cada mundo. Yooka-Laylee possui a figura da Dr. Puzz, a cientista com uma máquina manipuladora de DNA, com a exata função de Mumbo.

As transformações da Doutora Puzz mantém o padrão de cores e design das personagens originais, mas oferece novas mecânicas de gameplay.

Além dos colecionáveis principais, o jogador precisar desbloquear novos movimentos, que permitam completar novas missões. Assim como nos jogos anteriores, existe, em cada mundo, um mercador disposto a vender esses movimentos. Trowzer, a serpente charlatona, ocupa, assim o lugar de Bottles. A moeda de troca são penas, o substituto das notas musicais. Há 200 desses colecionáveis por fase, e mais 10 no mundo externo. Mas apenas 470 são necessários para desbloquear todos os golpes e habilidades. Mais uma vez, Yooka-Laylee remove algumas das principais barreiras que afastaram jogadores dos collectathons ao longo dos anos.

Os movimentos adquiridos não são muito originais. Na maior parte, incluem apenas novas versões de pulos duplos, voo, escudo de proteção. Isso não é um ponto negativo, já que essas habilidades foram cuidadosamente desenvolvidas em Banjo-Kazooie para se adequar à necessidades das plataformas em 3D. Ainda mais porque cada animação foi desenvolvida a partir das novas personagens, e a língua de Yooka ou o ultrassom de Laylee se tornam parte da nova roupagem desse movimentos já conhecidos.

Entre as habilidades mais inusitadas, está a capacidade de Yooka de absorver a propriedade de alguns objetos. O camaleão é capaz de brilhar no escuro, andar sobre o fogo, ficar pesado como o chumbo, grudento como o mel e até carregar cargas elétricas.

Se a repetição não incomoda em relação à jogabilidade, pode atrapalhar na relação afetiva entre jogador e protagonistas. Apesar de existirem novas versões das principais personagens de Banjo-Kazooie, a Playtonic teve o cuidado de desenvolver personalidades diferentes para cada uma delas. Exceto Yooka e Laylee. O camaleão e a morcega, em sua forma de falar e em suas interações com NPCs e desafios, são idênticos ao urso e à passarinha. Uma repetição desnecessária, principalmente considerando que tantos outros elementos já foram duplicados.

Outra coisa que deveria ter sido abandonada nos anos 90 é a câmera descontrolada de Yooka-Laylee. Particularmente em ambientes fechados e corredores, a câmera sofre alterações bruscas, que prejudicam a precisão, e torna necessário repetir seções tediosas, pela simples falta de controle. Se esse é um elemento que poderia ser perdoado no início da produção de jogos em 3D, é injustificável manter um recurso desfuncional depois de quase 20 anos de evolução tecnológica. Existe também pouca variação de inimigos. São apenas quatro inimigos básicos em todas as fases, e somente um varia sua aparência de acordo com a temática local.

Agora, eu sei que muita gente odiava as seções de Quiz de Gruntilda. Mas a Mãe, particularmente, sempre gostou. Por isso, o retorno das perguntas e respostas como forma de progressão pode ser uma ótima ou uma péssima notícia.

Perguntas sobre itens, imagens, personagens e sons. A atenção dos jogadores aos detalhes do design e da composição do jogo garantem uma passagem tranquila pelo Quiz do Dr. Quack.

Um eco do passado

Qualquer pessoa que já jogou os collectathon clássicos da Rare não precisa de mais do que algumas notas para reconhecer a composição de Grant Kirkhope, com David Wise e Steve Burke. A trilha sonora original possui dezenas de faixas inéditas, mas que seguem os mesmos princípios estabelecidos no final da década de 90. O uso de instrumentos é variado, com a valorização do sopro e do xilofone. Cada mundo possui um tema próprio, que sofre variações de acordo com a progressão da fase. Locais fechados modificam os tons e os instrumentos principais utilizados; cada ambiente, então, tem uma representação musical específica. Essa é uma forma simples, mas extremamente eficiente, de cativar o jogador em torno de uma mesma melodia, sem que ela se torne demasiadamente repetitiva.

Cada canção de Yooka-Laylee soa como infância para milhares de jogadores, e a nostalgia ajuda também na satisfação imediata com a edição de som do jogo. Mas as composições do jogo também irão agradar aos novatos os novatos, que desconhecem o clássicos que inspiraram o jogo. Principalmente porque a música, em Yooka-Laylee, foge do clichê, e consegue se desenvolver como algo ao mesmo tempo funcional e agradável. Exceto no mestre do terceiro mundo. Playtonic, sério, o que houve? Eu fiz questão de deletar essa faixa da trilha sonora.

E como se uma trilha sonora (quase) perfeita já não fosse suficiente, Yooka-Laylee ainda tem sua própria versão do rap de abertura de Donkey Kong 64.

Metalinguagem e nostalgia

Muito consciente de como é construído para uma base específica de fãs, Yooka-Laylee não tem medo de quebrar a quarta parede com frequência. As personagens mencionam em diversas vezes a temática de fases futuras, a existência de chefões, e até mesmo minigames e missões como elementos de videogames. Uma personagem se destaca nessa tarefa. Dentro de cada uma das fases é possível encontrar Rextro, um dinossauro representante dos antigos jogos de arcade. São cinco jogos diferentes na estória principal, e um total de oito jogos possíveis de serem acessados a partir do menu principal. Esses jogos podem ser selecionados a qualquer instante pelo jogador, e permitem mesmo que até quatro jogadores participem dos desafios simultaneamente. Não chega nem perto da melhor experiência co-op da história, também desenvolvida pela Rare: Conker’s Bad Fur Day (2001). Mas ainda assim é uma homenagem interessante ao início dos jogos eletrônicos, e que pode proporcionar bons momentos com amigos.

Um arena de combate com tempo… arcades eram feitos com recursos simples, mas que podiam render horas seguidas de diversão. E é essa simplicidade que ‘Yooka-Laylee’ tenta resgatar em seus minigames multiplayers.

Existe também a possibilidade de um modo cooperativo dentro do jogo principal. Mas o resultado final é tão insignificante que não é possível saber porque a Playtonic fez tanta propaganda do recurso. Um segundo jogador pode controlar… abelhas. Uma pequena nuvem de abelhas, cujo movimento é limitado pelo raio de visão do jogador principal. E cujas únicas funções são coletar objetos na tela, e deixas inimigos tontos por alguns segundos. Tão insignificante quanto o co-op de Super Mario Galaxy (2007). Excelente estratégia para enganar um irmão mais novo e monopolizar o controle. Nenhuma vantagem maior do que essa.

Segredos e continuações

Assim como Banjo-Kazooie já adiantava a existência de Banjo-Tooie, Yooka-Laylee foi planejado para ter uma continuação. Isso pode ser uma excelente notícia para fãs do gênero, caso o número de vendas seja suficiente para financiar o novo projeto. Pode ser uma péssima notícia, na possibilidade do jogo não agradar um público grande o suficiente. E como Yooka-Laylee é baseado em um gênero considerado ultrapassado por muitos, mesmo que muitas vezes de forma injusta, a estratégia é arriscada.

Uma participação muito especial é justamente a de Shovel Knight, que ganhou um Falange Indie e uma Resenha de sua última expansão, ‘Specter of Torment’, nas últimas semanas.

Além disso, e a expansão da internet acabou com a necessidade de experimentação que os jogadores deveriam ter na década de 90 para descobrir tudo o que a Rare era capaz de esconder em cada jogo. Isso deve diminuir de forma considerável o tempo investido por cada jogador. Yooka-Laylee, infelizmente, não possui muitos segredos. E o único grande segredo que foi encontrado até agora ainda está incompleto. Cuidado com spoilers! Para quem jogou a demo, distribuída para financiadores da campanha de Kickstarter que deu vida ao jogo, é possível encontrar pistas para chegar a uma personagem secreta. Essa personagem, no entanto, tem uma mensagem vaga, que apenas pede paciência aos jogadores, indicando que o segredo tão aguardado desde a demo ainda está por ser implementado no jogo. Pode voltar a ler tranquilo.

Já existe uma grande expectativa quanto a atualizações futuras de Yooka-Laylee, no formato de um DLC. E agora que há também a promessa de novos segredos e de uma continuação, a Playtonic certamente terá muito o que produzir se quiser manter sua palavra. Como a saudosista que é, a Mãe aguarda, ansiosa, que os collectathons voltem a ter um lugar no universo dos videogames contemporâneos. E Yooka-Laylee, apesar das falhas, se mostrou como um excelente começo para esse retorno. Não é à toa que Amethysto, viciado como é na Nintendo, já sumiu com minha cópia do jogo. Acho que é hora da pintura de oncinha voltar para o quarto dele…