Falange Resenha | Yonder: The Cloud Catcher Chronicles

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vinheta Mãe Serpente BastilleJá faz tempo que a grande indústria de videogame aposta no realismo da morte de inimigos para atrair jogadores. Grandes títulos quase sempre envolvem combates, e quanto mais sangue e explosões, melhor. A Mãe está longe de fazer uma crítica à violência em videogames. Ela é até mesmo essencial para alguns jogos. Mas a tendência é tão perceptível que um título que promete excluir por completo inimigos ganha destaque imediato. Yonder: The Cloud Catcher Chronicles é o primeiro jogo do estúdio australiano Prideful Sloth. Inspirado em séries como The Legend of Zelda, o objetivo do estúdio é criar uma experiência imersiva de exploração. Igualmente inspirado por séries como Harvest Moon, a ideia atual é permitir ao jogador construir, plantar, criar e utilizar o universo de Yonder como uma folha em branco. Mas, se em grande parte Yonder alcança o objetivo de uma experiência tranquila e relaxante, algumas escolhas de design tiram o brilho de certos aspectos do jogo.

Bonjour! Bastille, aqui. Sei, videogame normalmente é assunto da Mãe. Mas gostei tanto deste que vale uma pequena participação nesta resenha. Então, irei fazer algumas observações, sempre no formato de parágrafos azuis. Primeiro, preciso ressaltar que Yonder dá ao jogador a liberdade de criar ao invés de destruir. O fato de não existirem inimigos torna o jogo muito relaxante, e dá a possibilidade de focar em todas as ações positivas que o jogo oferece, que permitem que seu personagem conheça outros seres, aprenda, construa e conserte.

De tirar o fôlego

A primeira coisa que Yonder apresenta ao jogador é seu visual. Seguindo uma mensagem enigmática de sua mãe, o personagem do jogo (homem ou mulher, à escolha), começa sua jornada rumo à ilha de Gemea. A misteriosa ilha é envolta em mistério, e depois de uma tempestade e um naufrágio, o jogador é apresentado, com uma passagem panorâmica, para a paisagem de Gemea. Cada uma das oito áreas da ilha tem sua própria fauna e flora, e além da mudança entre o dia e a noite, efeitos climáticos como chuva e neve também ajudam a dar vida a Yonder.

Visualmente, Yonder me agradou muito: as paisagens são bonitas e a aparência dos personagens humanos e animais é adorável – todos os animais descobertos ao longo do jogo são tão bonitos e fofos que dá vontade de adotar todos. Sem falar da passagem do tempo e das estações, que acontecem de uma forma bem sutil e natural; realista, apesar do gráfico não ser. Outra coisa que ajuda na sensação de relaxamento é a música, que muda levemente dependendo do momento do dia e do ambiente em que o personagem se encontra. As transições são tão leves que são quase imperceptíveis, mas contribuem muito – junto com os efeitos sonoros próprios a cada estação – para a imersão. Mas uma coisa que pode incomodar em Yonder é a luz, que, por ser muito estourada, dá uma impressão de que o cenário em volta é meio embaçado. Como isso ocorre apenas com luz natural, à noite esse problema desaparece, junto do sol.

Apesar da beleza dos cenários, e de como os personagens são modelados, muitas vezes os menus e indicativos poluem a tela. Existe um relógio, um minimapa e uma caixa que mostra a missão e o checklist dos materiais necessários para completá-la. Todos elementos úteis, mas que não podem ser desativados, mesmo quando se tornam desnecessários conforme o jogo avança e o jogador cria um senso de direção de acordo com a paisagem. O deslocamento da personagem principal também incomoda, por não ser fluido. Caminhar em superfícies desregulares ou saltar sobre pedras demonstra que o modelo da personagem é fixo, ao invés de ter partes móveis que simulem com maior precisão movimentos humanos.

A personagem do jogo Yonder The Cloud Catcher Chronicles plana em um guarda-chuva
A segurança é tão garantida que mesmo se jogar de lugares altos não mata a personagem. Com um guarda-chuva colorido, a personagem plana até estar em segurança. Mas observe como os menus podem incomodar a visão…

Explorando Yonder

Em relação à jogabilidade, Yonder parte da ideia principal de que o mundo todo é cheio de recursos, que podem ser explorados para cumprir missões. Conforme adquire novas ferramentas, o jogador pode quebrar pedras, extrair minerais, plantar árvores, pescar, cortar grama. São muitas as opções disponíveis, e cada uma dessas ações tem como recompensa um material específico. Flores, ferro, peixes. Todas as missões do jogo, então, são baseadas na procura e coleta de materiais específicos, que possam ajudar um dos NPCs de Gemea, ou que sirvam para construir novas passagens para outras áreas do mapa, como pontes de madeira.

Algo muito apreciável no jogo é a conexão e o respeito com a natureza. Até as ações destrutíveis acabam por ter um efeito benéfico. Cortar árvores dá madeira para construir diversas coisas, e sempre há a possibilidade de plantar uma semente para que outra árvore cresça no lugar. Pescar é uma forma de alimentar pessoas que trabalham em sua fazenda. O objetivo em si não é destruir, e sim melhorar os locais. Há até uma taxa que indica o quão saudável cada lugar é, dependendo, entre outras métricas, da quantidade de árvores que possui. Essa taxa também aumenta à medida que o jogador ajuda as pessoas dos vilarejos, melhore a qualidade de suas fazendas e encontre os espíritos – criaturas pacíficas que convivem com a humanidade e ajudam a limpar as Trevas.

As regiões de Trevas representam o único perigo visível dentro de Yonder. Na estória do jogo, por um motivo desconhecido, Trevas estão se espalhando na ilha de Gemea. Cada região de Trevas funciona como uma barreira, e para alcançar determinados lugares, ou cumprir determinados objetivos, é preciso limpar essas regiões. Cada barreira de Trevas exige um número específico de espíritos de luz para ser limpa. Por isso, encontrar espíritos se torna a principal tarefa, já que impede muitas outras de serem realizadas. O conceito é interessante, mas, algumas vezes, obriga o jogador a percorrer o mapa por horas, sem saber ao certo onde encontrar o que procura. Não há nenhuma indicação dentro do jogo que dê pistas. Basta apenas revirar cada canto do mapa. E não é só com espíritos que a tarefa pode se tornar monótona.

A torre Apanhadora de sonhos, cerne da estória do jogo indie Yonder The Cloud Catcher Chronicles
A estória de ‘Yonder’ gira em torno do Apanhador de Sonhos, a construção misteriosa que faz a ligação entre o mundo dos humanos e o mundo dos espíritos, e, desde um misterioso incidente, espalha Trevas por Gemea.

Recursos e fazendas

Além da exploração, Yonder gira em torno da construção de fazendas, para gerar recursos específicos a partir de plantações e adoção de animais. Infelizmente, o excesso de barreiras e a dificuldade de deslocamento do jogo atrapalha na concretização dessa mecânica. Para construir os prédios de sua fazenda, que te permitem adotar animais ou plantar vegetais específicos, é necessário adquirir o manual de instrução de cada item. Esses manuais estão vinculados a Profissões específicas. Para conseguir se tornar um mestre dentro de uma profissão, e conseguir todas as receitas, no entanto, é necessário criar itens de menor importância; esses itens, por sua vez, utilizam recursos raros que, às vezes, estão associados a outras Profissões.

Além disso, enquanto boa parte de seus recursos pode ser encontrada na natureza, alguns só podem ser trocados com mercadores específicos, e não são infinitos. É necessário esperar alguns dias para que o mercador reabasteça seus estoques. A ideia de limitar recursos, sem dar ao jogador nenhuma outra forma de encontrá-los, é um entrave grande ao longo da aventura. Para aproveitar o recurso das fazendas, e ter a liberdade de construir coisas básicas, é necessário ir de um ponto a outro do mapa repetidas vezes, enquanto as missões principais e as missões de cada Profissão são cumpridas. E sem um sistema eficiente de viagem rápida, as ações, que poderiam ser relaxantes, se tornam enfadonhas.

Apesar desses problemas de recursos e da dificuldade de se locomover, é sempre uma alegria construir uma nova fazenda ou melhorar uma já existente. Nas fazendas, é possível construir abrigos de tamanhos diferentes – para animais de portes diferentes – e guardar itens em um baú – já que o espaço da mochila que o protagonista carrega é muito limitado. E, é claro, as fazendas podem acolher os animais que o jogador encontrar no jogo e quiser adotar. Esses animais são inspirados em espécies existentes, com pequenas modificações. Alces, raposas, coelhos, alpacas, e até… unicórnios são facilmente encontrados.

Um dos animais do jogo indie Yonder The Cloud Catcher Chronicles
Apesar de problemas, a gente precisa admitir que os animais são extremamente fofos.

Quando encontrado na natureza, é possível fazer com que um animal siga o jogador por um certo tempo, em troca de sua comida predileta. Para adotá-lo, basta então oferecer a comida desejada até chegar em alguma fazenda. Uma vez que foi adotado, o animal fica boa parte do tempo em seu abrigo – por mais que a fazenda não seja totalmente cercada. E também pode ser acariciado ou ser levado em algum passeio. Além disso, cada espécie fornece algum tipo de recurso (leite no caso das alces, argila para as raposas etc).

Relaxamento e limitações

Para resumir, Yonder: The Cloud Catcher Chronicles, constrói um mundo bonito para olhos e ouvidos, e convida o jogador a explorar seus campos sem a necessidade de cumprir missões específicas, por mais que missões existam. Por outro lado, é difícil desviar do caminho imposto pelas missões, já que a exploração despreocupada exige recursos que são limitados e não podem ser facilmente obtidos. Yonder é um projeto ambicioso, que se propõe a equilibrar o incentivo à aventura com a vontade do jogador de construir coisas por conta própria. Nem sempre esse equilíbrio é alcançado, o que introduz frustação em um jogo que era para ser simplesmente relaxante.

Apesar disso, a beleza e a tranquilidade de Yonder conseguem, muitas vezes, superar suas barreiras e limitações. Isso, junto ao fato de Yonder seguir o caminho oposto da indústria de explosões e mortes, faz com que o jogo mereça atenção.

Apesar dos problemas sobrecitados, Yonder cumpre sua função de jogo relaxante cujo objetivo é explorar e se conectar com a natureza. No fim das contas, a beleza dos cenários, a atenção particular dada aos animais, o cuidado com o clima e as estações do ano e a música agradável que acompanha o jogo superam as dificuldades em se cumprir algumas missões.

Gameplay da Mãe | Yonder:The Cloud Catcher Chronicles

Jogo novo tem que ter gameplay de teste. Os primeiros 40 minutos de Yonder permitem conhecer melhor os cenários do jogo, e algumas das suas principais mecânicas. Não deixe de se inscrever no canal de YouTube da Falange para receber as novidades em primeira mão.