Falange Resenha | Westworld

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Vinheta da Mãe SerpenteA produção de Westworld durou mais de dois anos, cercada de mistério. Ninguém sabia muito bem qual seria o resultado da tentativa da HBO de criar um seriado baseado em um filme da década de 70. A temática da série, robôs e faroeste, logo atraiu milhões de espectadores, e o primeiro episódio quebrou o recorde de maior audiência para uma nova série original do canal. Menos de uma semana depois de sua conclusão, Westworld ocupa também a merecida posição de primeira temporada mais vista da HBO. Isso é um feito enorme, considerando que a série Game of Thrones (HBO, 2011-) também pertence ao canal. Mas o que atrai tanta gente?

É claro que a temática futurística, e as discussões sobre os limites da tecnologia, ganharam fôlego nos últimos anos. É o que explica o que também explica o sucesso de séries como Black Mirror (Zeppotron, 2011-2014), agora pertencente à Netflix. A direção técnica da série é também impecável. O universo de Westworld foi construído com atenção aos mínimos detalhes, e o resultado são cenários belíssimos, explorados com tomadas de grandes e pequenos planos, de forma a possibilitar a imersão do espectador no universo do Velho Oeste.

Boa parte da série foi filmada em Utah, e nos desertos do Arizona. Assim, o cenário simula com perfeição a ambientação do Velho Oeste.
Boa parte da série foi filmada em Utah, e nos desertos do Arizona. Assim, o cenário simula com perfeição a ambientação do Velho Oeste.

A atuação, da mesma forma, merece elogios, o que já era esperado de um elenco que conta com Anthony Hopkins, no papel de Dr. Ford, e Ed Harris, no papel do Homem de Preto. E que tem as surpreendentes performances Thandie Newton (Maeve Millay), Jeffrey Wright (Bernard Lowe) e Evan Rachel Wood (Dolores Abernathy). A música, composta por Tamin Djawadi, é baseada em releituras de grandes clássicos do rock e do pop, o que inclui Radiohead, Rolling Stones, Amy Whinehouse e The Animals.

A abertura da série será lembrada em anos por vir, por sua genialidade e poesia.
A abertura da série será lembrada em anos por vir, por sua genialidade e poesia.

Por fim, a supervisão criativa e o controle do roteiro de Jonathan Nolan e Lisa Joy garante fluidez e coerência à trama, com um desenvolvimento de personagens invejável. O nome Nolan ficou mais conhecido após a trilogia do Cavaleiro das Trevas (Warner, 2005-2012), em que Christopher Nolan criou os filmes mais icônicos da franquia Batman. Seu irmão, Jonathan, ajudou na criação dos roteiros destes filmes, e também escreveu o texto original que resultou no filme Amnésia (Memento, Newmarket Films, 2000), além de ter sido parceiro em produções como O Grande Truque (The Prestige, Warner, 2006) e Interestelar (Interstellar, Warner, 2014). Estamos falando, então, de um dos gênios criativos de nossa época.

Todo esses pontos são importantes para explicar o sucesso de Westworld, mas não são suficientes.

A natureza humana

O conceito de Westworld é simples. Em um futuro tão avançado que a humanidade já é capaz de curar qualquer doença, e criar em laboratório qualquer tecido vivo, uma empresa abre um parque temático que promete a quem possa pagar a verdadeira experiência do Velho Oeste. Milionários de todo o mundo, ansiosos por reviver uma das maiores fantasias norte-americanas, se vestem de caubóis e passam semanas seguidas em um território que simula com perfeição o cenário. O parque tem milhares de quilômetros de extensão, e nele é possível encontrar cidades, desertos, planícies, e milhares de figurantes: os anfitriões.

Os anfitriões são os androides que garantem o realismo do parque de diversões Westwortld. Isso porque uma verdadeira experiência do Velho Oeste não estaria completa sem a caçada a bandidos, o roubo a bancos, as brigas de bar, os duelos com pistola, as mortes e os estupros. Os visitantes ganham total liberdade, e podem destruir, da forma que quiserem, tudo o que encontram pela frente. Os anfitriões são construídos com tecidos de verdade, para aumentar o realismo da experiência, assim como possuem uma inteligência artificial precisa. Sua programação, no entanto, os impede de ferir qualquer visitante. E após cada morte violenta, os anfitriões tem sua memória apagada, seus corpos reparados, e são colocados de volta no parque, supostamente sem nenhuma lembrança dos abusos que sofreram em vidas passadas.

Dolores acorda sempre em sua cama, sem sinais dos abusos que sofreu antes de ser reparada. E a ceteza de que os androides não passam de objetos, estimula os visitantes a cometerem toda série de abusos.
Dolores acorda sempre em sua cama, sem sinais dos abusos que sofreu antes de ser reparada. E a certeza de que os androides não passam de objetos estimula os visitantes a cometerem toda série de abusos.

O grande apelo de Westworld se encontra justamente nos androides que servem de personagens para as principais tramas da série. Os avanços nas possibilidades de programação nesse futuro não tão distante permitiram a criação de seres que reagem e pensam de forma extremamente similar aos humanos. O que levanta a questão: o que é ser humano? O que mais instiga o espectador a continuar grudado na tela, e não só acompanhar cada episódio, mas participar de debates ativas nas redes ao longo das semanas, é a pergunta essencial sobre a natureza humana.

O que define os humanos como seres especiais? O que os diferencia de outras espécies? É a inteligência, a consciência, a capacidade de agir com improviso? E se essas características podem ser reproduzidas em robôs, até que ponto é possível considerar que esses novos seres também sofrem, também são dotados de direitos? Até que ponto o abuso dos anfitriões se torna tão cruel quanto o abuso da humanidade? Mais do que uma série, Westworld é um tratado filosófico, que levanta questões éticas profundas de uma forma interativa e direcionada a um grande público.

Paradoxos e ambiguidades

As complicações da trama começam quando uma nova atualização de software dos anfitriões faz com que os androides desenvolvam um subconsciente. Da mesma forma que resquícios de arquivos anteriores nunca deixam um disco rígido, apagar as memórias dos anfitriões não é suficiente para que imagens da violência a que são submetidos desapareçam. Conforme ganham a capacidade de lembrar, os anfitriões começam a questionar sua existência, e a perguntar o que é real ou não em seu mundo, e até que ponto sua programação limita ou não sua experiência com o real.

Um descuido da equipe do parque, uma única gosta de sangue esquecida, pode ser suficiente para desencadear os questionamentos dos anfitriões.
Um descuido da equipe do parque, uma única gosta de sangue esquecida, pode ser suficiente para desencadear os questionamentos dos anfitriões.

Ao contrário de humanos, no entanto, tão aptos a esquecer e confundir, lembranças guardadas em cérebros digitais são claras e vívidas, nos mínimos detalhes. O impacto emocional dessas lembranças, então, se torna mais intenso para os anfitriões. E relembrar é uma experiência tão viva e presente como a experimentação imediata do mundo real. Em resumo, um anfitrião não consegue distinguir com clareza quando está vivendo e quando está lembrando. Essa confusão é repassada de foma sutil ao público, que acaba por participar de um jogo de percepção. A todo instante é necessário perceber as mudanças de vestimenta, ou feridas que surgem ou desaparecem, para se situar melhor na cronologia dos eventos.

Uma simples mudança de roupa significa também uma mudança de tempo cronológico da cena.
Uma simples mudança de roupa significa também uma mudança de tempo cronológico da cena.

Uma cena pode ser uma memória, ou fazer parte do momento presente da série. Um diálogo pode, também, acontecer no presente, ou representar a consciência programada de um anfitrião. Até o último episódio, Westworld mantém a ambiguidade de sua narrativa. E é aos poucos que revela seus mistérios. Cada mistério, no entanto, pode ser descoberto pelo próprio espectador, já que as peças para a solução de cada quebra-cabeça se encontram em episódios anteriores.

Essa construção de roteiro premia a atenção do público, capaz de compreender antes o que só será revelado depois, caso tenha atenção suficiente aos detalhes. A falta de atenção, de tempo ou capacidade, no entanto, não serve para punir ninguém, já que Westworld termina sua primeira temporada esclarecendo todos os mistérios que se propõe a desvendar desde o primeiro episódio. Isso demonstra um controle preciso do roteiro por toda a equipe de produção da série, e torna Westworld uma das experiências mais gratificantes da cultura pop recente.

A segunda temporada de Westworld

A primeira coisa que é necessário perguntar, depois do anúncio de uma segunda temporada da série e: para quê? Seriados ainda sofrem muito com pressões empresariais. E, infelizmente, devido a seu sucesso, muitas vezes séries acabam por ganhar uma sobrevida que desgasta a beleza original da obra. Algo que aconteceu, também este ano, com Stranger Things, da Netflix. Por maior que seja a confiança do trabalho de Jonathan Nolan, Westworld foi brilhantemente escrita para concluir em 10 episódios. Os conflitos já foram explorados, as questões filosóficas explicitadas, o mistério do Labirinto descoberto.

As aparentes pontas soltas não são falhas no roteiro, mas fazem parte da abertura necessária para a compreensão de conceitos como livre-arbítrio, capacidade de escolha, auto conhecimento. Remoer e mastigar os mesmos conceitos e respostas em uma segunda temporada irá diminuir o brilho da obra original. Da mesma forma, abandonar essas questões pela simples continuidade da trama em si também representa uma perda irreparável.

A segunda temporada só sai em 2018, e essa, pelo menos, é uma boa notícia para a continuação de Westworld. Se a necessidade da HBO de aumentar seus ganhos sobre uma marca faz com que a série continue sem grandes razões, ao menos a empresa tem a sensibilidade de dar um tempo maior que o habitual para a equipe criativa se adaptar a essa mudança de roteiro. De minha parte, espero que a segunda temporada de Westworld consiga ser tão empolgante, e desperte tantos questionamentos, quanto a primeira. Por hora, porém, vou manter minha empolgação em cheque, e observar com cautela a continuidade da produção.