Falange Resenha | Vida

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Mãe SerpenteA ficção científica é desafiadora. Por lidar com a barreira da ficção e da realidade, filmes do gênero costumam garantir seu sucesso a partir do inusitado. Seja com narrativas que incluam conceitos científicos recém popularizados, como o maravilhoso Interestelar (Interstellar, 2014), ou com aquelas que explorem a inovação tecnológica do cinema para representar novas realidades, como o superestimado Gravidade (Gravity, 2013). Vida (Life), que estreia na próxima quinta-feira, segue por um caminho oposto, e arriscado: resgatar uma velha fórmula da categoria. No filme, a descoberta de vida extraterrestre ocasiona um confronto imediato entre um grupo de tripulantes espaciais e uma criatura mortal, na tentativa de salvar a Terra de contato (e destruição) com seres de outro planeta. Nada novo sob o sol. Mas isso não significa que Vida seja apenas uma cópia sem identidade. Muito pelo contrário.

Um novo Alien?

A comparação imediata com Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, não pode deixar de ser feita. Em ambos os filmes, o cenário é essencial para a trama. Dentro de uma estação espacial, um grupo de tripulantes precisa sobreviver enquanto uma criatura mortal percorre as câmaras e corredores. Esse ambiente simula uma situação de isolamento que contribui para a tensão da trama.

Apesar da semelhança geral, Vida também possui diferenças marcantes em relação ao clássico de 1979. Enquanto Ridley Scott dá preferência para cortes de câmera mais secos, Daniel Espinosa utiliza com frequência pequenos planos-sequência. E enquanto a Nostromo é construída com elementos metálicos, a Estação Espacial Internacional possui tons brancos e a ampla iluminação. Essas escolhas estão diretamente relacionadas com o design de criatura de cada filme.

Além do branco, o azul compõe os cenários mais serenos, enquanto o amarelo indica áreas de segurança. O vermelho só surge quando a situação já saiu de controle.

O xenomorfo de Alien é um ser cheio de protuberâncias, dentes e garras, que se mescla ao ambiente enquanto caça suas presas. Calvin, ao contrário, é um ser simples e flexível, capaz de passar por frestas e deslizar de forma fluida pelas câmaras sem gravidade. Sua mobilidade e adaptabilidade é mais aterrorizante que sua aparência. Mesmo porque o estímulo de Calvin em perseguir e matar a equipe da Estação Espacial é tão facilmente reconhecível.

O xenomorfo foi criado para ser um inimigo clássico. Brutal, violento, com instinto assassino. Um xenoformo não mata por sobrevivência, mas persegue suas presas pelo prazer de matar. Calvin, ao contrário, é a representação exata da vida. E a vida não existe sem destruição. Se alimentar é um ato de destruição, e todos os seres que não produzem nutrientes por conta própria precisam consumir outros seres para sobreviver. Em um nível social, a disputa por recursos, que garantam a sobrevivência humana, é o que estimula guerras e conflitos. Calvin não é a personificação de um mal. É a representação da vida em sua natureza mais básica. Um criatura que se adapta pouco a pouco à sua realidade imediata, com o simples intuito de permanecer viva. Comer, respirar, se reproduzir. Vida.

Calvin é extremamente fofo pouco depois de nascer… mas crianças crescem tão rápido!

Mais do que monstros

Os paralelos entre a descoberta de Calvin e a vida humana também ajudam Vida a ressaltar tudo o que faz do filme único. Não é à toa que tanto do cotidiano de cada habitante da Estação Espacial seja mostrado em detalhes. Enquanto a criatura unicelular cresce e complexifica suas estruturas, antes mesmo do ataque começar, o espectador é apresentado a cada um dos membros da tripulação. É possível compreender as motivações de cada um deles. E o fato de possuir uma preocupação com o desenvolvimento de personagens já destaca Vida da maior parte dos filmes de horror ou ficção científica. Claro que a qualidade de todo o elenco contribui muito para esse efeito. Além do maravilhoso Jake Gyllenhaal, de obras fantásticas como O Abutre (Nightcrawler, 2014), Vida conta também com o talento de Ariyon Bakare, Olga Dihovichnaya e Deadpool Ryan Reynolds.

Janelas, portas e outras partes da Estação Espacial servem, com frequência, como molduras para as diversas cenas do filme. O domínio do cenário pela câmera é uma das características marcantes da estética de ‘Vida’.

É interessante apontar também a escolha de uma equipe diversificada. E não só por contar com mulheres, um negro e um asiático, mesmo com um número pequeno de atores. A estação em que se desenrola a narrativa é de forma explícita colocada como fruto de uma parceria internacional. As nacionalidades dos tripulantes, por isso, é variada. Contamos com uma russa, dois ingleses, um japonês e um sírio-americano. O que abre espaço também para a questão da guerra e dos imigrantes, de maneira sutil e delicada. O maior benefício dessa abordagem é fugir do lugar comum dos Estados Unidos como centro de qualquer evento espacial. A universalização é essencial para que Calvin se torne realmente uma ameaça para a espécie humana, e não só para um país.

Recursos de ponta

O uso de câmera de Vida é conduzido de forma a aproveitar ao máximo as possibilidades que o cenário da Estação Espacial proporciona. O fato de que toda a trama se passa em um único ambiente poderia causar uma repetição desagradável ao espectador, principalmente àqueles cada vez mais acostumados com o ritmo acelerado dos blockbusters contemporâneos. A ausência da gravidade, no entanto, possibilita que a câmara passeie pelo cenário a partir de ângulos inusitados, e não são raras as cenas em que as personagens preencham a tela a partir de perspectivas diversas. O que inclui cenas de cabeça para baixo, ou laterais.

Os efeitos especiais também ajudam a construir a verossimilhança da ambientação. Além de modelagens digitais extremamente texturizadas e críveis, o uso de 3D aproveita ao máximo a existência do brilho distante de estrelas, ou partículas e objetos flutuantes. A forma como o brilho do sol reflete na estação, ou no planeta, logo abaixo, também é extremamente bem trabalhada. Logo antes do plano-sequência que apresenta o cenário, no início do filme, o espectador assiste a um nascer do sol gradual, visto de fora da Terra. Isso é suficiente para que se perceba o cuidado que a produção de Vida teve com fotografia e iluminação.

No cinema é ainda mais bonito.

Mais do mesmo?

Apesar de todos os elementos dignos de nota, e de uma composição mais que competente da direção, é preciso apontar, de novo, que Vida não representa nenhuma inovação para o gênero da ficção. Quem espera grandes surpresas pode se decepcionar com o filme. A condução da trama é bem realizada, mas mesmo seu final é previsível, utilizando um dos dois fechamentos mais clássicos ao gênero. Isso não deve desanimar ninguém de assistir Vida nos cinemas, local onde a qualidade estética será melhor aproveitada. Mas é sempre bom dar certeza do que se pode encontrar ou não depois de superada a barreira do preço do ingresso.