Falange Resenha | Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

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Vinheta Bastille
Bonjour! Na próxima quinta-feira, dia 10 de agosto, sai o mais novo filme do diretor Luc Besson. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets) é adaptado da série de quadrinhos Valérian et Laureline, que conta as viagens de dois agentes espaço-temporal. Eu e Adelfa tivemos a oportunidade de assistir ao filme, então iremos compartilhar nossas impressões.

O cinema de Besson e a influência de Valerian

Besson é conhecido no mundo do cinema pela obra O Quinto Elemento (The Fifth Element, 1997), mas também é responsável por O Profissional (Léon, 1994), Imensidão Azul (Le Grand Bleu, 1988) e, mais recentemente, Arthur e os Minimoys (Arthur et les Minimoys, 2006) e Lucy (2014). Enquanto o cinema francês costuma oferecer dramas cotidianos, a proposta de Luc Besson se afasta disso, com filmes de ação, ficção científica e a criação de mundos diferentes do nosso. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é exatamente isso.

Os quadrinhos originais, iniciados na década de 60, são os mais importântes da ficção científica em quadrinhos na França, e se tornaram referência no mundo. O universo rico de Valerian chegou até a inspirar cenários, personagens e cenas da franquia Star Wars – o que explica por que, em vários momentos, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas lembra Guerra nas Estrelas. Há também aspectos parecidos com O Quinto Elemento. Pelo fato de ambos os filmes terem o mesmo diretor e roteirista, claro, mas também porque Jean-Claude Mézières, ilustrador dos quadrinhos de Valerian, desenhou vários cenários do Quinto Elemento. De forma mais moderada, a estação Alpha de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas lembra um pouco Luganenhum, a estação espacial dos filmes dos Guardiões da Galáxia (2014 e 2017).

A trama

O início do filme conta, de forma simples e criativa, a evolução até o século 28 da estação espacial Alpha, inicialmente ocupada por terráqueos, mas que ao longo dos séculos cresceu para acolher seres e o conhecimento de diversos planetas. Assim, Alpha chega a atingir o número de 17 milhões de habitantes e ganha o nome de Cidade dos Mil Planetas. Essa apresentação de Alpha dá lugar à introdução dos protagonistas Valerian e Laureline que, após um sonho estranho de Valerian com um planeta paradisíaco, são chamados para uma missão de resgate de um “replicador” – que se revela ser uma pequena criatura adorável, capaz de, ao engolir uma pérola, criar dezenas de pérolas iguais.

Melo, o replicador, criatura de 'Valerian e a Cidade dos Mil Planetas', o filme de Luc Besson adaptado dos quadrinhos de Valerian e Laureline.
Melo, o replicador.

Ao longo do filme, se descobre mais sobre o replicador, sua função e sua ligação com o planeta do sonho de Valerian, Mül. Um planeta que já desapareceu e está registrado como ausente de vida. A destruição de Mül, mostrada no início do filme, não foi acidental, e a tarefa de Valerian e Laureline se torna esclarecer o contexto do desaparecimento do planeta e desmascarar o responsável por isso.

Vale dizer que o vilão do filme, apesar de não muito marcante, é bem construído. Ele não possui intenções necessariamente malvadas, apenas cometeu um erro egoísta e, desde então, se vê obrigado a fazer de tudo para que a verdade não seja descoberta. Os meios são muito errados, mas o fim é manter a posição de importância da raça dele – que ele considera como superior às outras – no universo.

A beleza visual

A primeira coisa que se observa depois de poucos minutos de filme é sua beleza. Os cenários lindíssimos cheios de detalhes recebem criaturas muito bem modeladas ou maquiadas. Menção especial aos habitantes do planeta Mül, antropomorfos cujo corpo interage com a natureza, principalmente com pérolas, o que dá vida à sua pele. Além disso, o 3D ressalta muito a profundidade dos cenários, principalmente quando é mostrada uma visão ampla do espaço sideral. A alta qualidade do 3D provavelmente é ligada ao fato do filme ser o primeiro feito para um novo tipo de salas de cinema – ICE, Imersive Cinema Experience – com telas nas laterais da sala, para uma imersão maior.

Os habitantes do planeta Mül, em 'Valerian e a Cidade dos Mil Planetas', o filme de Luc Besson adaptado dos quadrinhos de Valerian e Laureline.
O planeta Mül é realmente paradisíaco: água clara, construções bonitas e harmonia com a natureza.

O filme não só tem cenários lindos como conta com cortes e transições muito bem pensadas – lembro especialmente de uma cena que termina com alguém falando que alguma situação “does not smell good” (não cheira bem) e a cena seguinte começa com personagens caindo no lixo. A câmera é usada de vários ângulos diferentes, de forma a termos uma noção muito precisa de como é cada lugar mostrado. Em Big Market, um mercado virtual gigante em que duas dimensões se sobrepõem, a alternação entre as dimensões acontece repetidas vezes, fazendo com que o espectador entenda a complexidade do lugar e até possa ficar confuso da mesma forma que ficaria se estivesse ali.

Como experiência visual e imersiva, então, Valerian é um dos filmes mais interessantes que vi recentemente. Porém, outros elementos vêm para fazer com que o filme não seja tão bom como poderia.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas seria melhor sem Valerian e Laureline?

Valerian é chato. Laureline é chata. Os dois juntos são insuportáveis. Parece que toda a atenção do filme foi tão focada em construir cenários e seres visualmente chamativos que não sobrou nada para os protagonistas terráqueos. Primeiro, a atuação deixa a desejar. Dane DeHaan nem é ruim, mas também não surpreende. Quanto a Cara Delevingne, seu repertório limitado a 5 expressões faciais diferentes não é suficiente para dar vida a uma personagem marcante.

O pior ainda é a relação entre Valerian e Laureline, que é de uma simplicidade irritante. Valerian é apaixonado por Laureline, que se recusa a entrar em um relacionamento com ele por não querer ser apenas mais uma na coleção de conquistas dele. Cada cena dos dois precisa ressaltar essa situação à exaustão, dando lugar a repetidas discussões de relacionamento. Algo sobre que não vou me estender, mas que a colega Adelfa desenvolve melhor abaixo.

O resto do elenco salva o filme, com atuações não-caricatas (ao contrário do Quinto Elemento, por exemplo). Porém, poucos personagens são realmente marcantes, em grande parte por culpa de diálogos mal escritos. Preciso aqui destacar a presença de Rihanna no filme. Como eu, vocês podem ter se perguntado “o que a Rihanna vem fazer nesse filme?”. No fim das contas, a personagem interpretada pela cantora apresenta mais profundidade do que os protagonistas. E não se trata apenas de uma aparição cameo, já que sua personagem acaba por ser bem importante para o desenrolar da trama. Outros personagens carismáticos são os Doghan Daguis, um trio de aliens que coleta e revende informações e funcionam como se fosse um cérebro em três corpos diferentes.

Os Doghan Daguis, criaturas de 'Valerian e a Cidade dos Mil Planetas', o filme de Luc Besson adaptado dos quadrinhos de Valerian e Laureline.
Os Doghan Daguis sempre completam as frases uns dos outros como se fossem um, e cada um deles possui diferentes partes das informações valiosas que eles obtêm.

Vale a pena assistir a Valerian?

Os protagonistas do filme atrapalham muito a experiência, e o final de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é decepcionante. Isto porque o filme subestima o espectador ao explicar de forma muito direta e linear os acontecimentos que levaram à destruição de Mül. E também por causa de mudanças de opinião repentinas dos personagens, que parecem acontecer apenas para que o filme termine da forma que foi pré-definida. Apesar disso tudo, a qualidade técnica do filme e o universo que ele apresenta são impressionantes e merecem atenção.

Adelfa tem algumas coisas para falar sobre o filme, então passo a palavra para ela. À bientôt, falangeir@s!

 

Então, sementinhas, o filme é super lindo, lindo mesmo, mas não compensa a relação chata dos protagonistas. Toda interação de Valerian e Laureline é baseada na famosa DR chata, praticamente todo o tempo. Não seria um problema tão perceptível se fossem casos pontuais, mas todo esse rolo instável entre eles é reforçado pelos acontecimentos na história.

Por exemplo, Valerian e Laureline são separados mais de uma vez (aliás, um tanto) e essa situação ocorre em outras missões secundárias que não tinham bem relação com o arco principal. Um sempre tenta resgatar o outro e nesse processo a DR dos dois se intensifica. Mas aí você pensa: mas a briga constante dos dois não era para ser engraçado? Bem, poderia ser engraçado sim, se eles fossem já um casal desde o início do filme. O problema é que, diferente dos quadrinhos, eles não começam a trama já numa relação, e sim, ficam o tempo todo nesse “vou, não vou”. Resumindo: os dois não são engraçados.

Valerian e Laureline, protagonistas de 'Valerian e a Cidade dos Mil Planetas', o filme de Luc Besson adaptado dos quadrinhos.
Até o fim do filme, a relação entre Valerian e Laureline é ambigua e baseada em aproximação e afastamento.

 

Além disso, nessas missões secundárias são inseridos personagens que, como toda a missão, não possuem relação com o arco principal. Personagens muito mais legais do que os protagonistas, como Bubble (interpretado pela Rihanna), por exemplo. Sim, gostei mais da Rihanna como Bubble no filme do que Cara Delevingne no papel de Laureline. Isso mesmo, me julguem e beijinhos!