Falange Resenha | Uma Razão Para Viver

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Vinheta de BastilleBonjour! Chegou ontem aos cinemas brasileiros – na verdade, apenas a alguns cinemas brasileiros – Uma Razão Para Viver (Breathe), estrelado por Andrew Garfield e Claire Foy. O filme, dirigido por Andy Serkis, conta a estória de Robin Cavendish, um homem que teve poliomielite e surpreendeu o mundo ao conseguir viver com a doença fora de um hospital por mais de três décadas, ao invés dos três meses que os médicos tinham lhe dado. Uma vida que inspirou seu filho, Jonathan Cavendish, que é produtor de Uma Razão Para Viver.

A doença de forma crua

A vida de Robin Cavendish é o que alguns chamariam de perfeita. Ele é jovem e tem boa saúde. O trabalho dele, de mercador de chá, lhe permite ter uma situação confortável e viajar para outros continentes, acompanhado da mulher que ama. Ele está apaixonado e em breve será pai. Isso tudo até passar mal e ser diagnosticado com poliomielite. A doença paralisa do pescoço até os pés, e torna necessário o uso de um respirador para a sobrevivência. A vida de Robin, e consequentemente de sua esposa Diana, muda completamente com a chegada da doença.

Uma Razão Para Viver tem o mérito de dar espaço para a brutalidade da notícia e o desespero que causa. E por mais que o trailer deixe claro que Robin vai estreiar uma nova forma de viver com a doença, o filme mostra que o caminho é longo até que ele consiga. Nos primeiros meses, nada de sair viajando. Na verdade, Robin nem sai de sua cama de hospital. E nem quer. A vontade maior é a de morrer, e ela só não é cumprida porque Diana insiste para que Robin conheça seu filhoJonathan e o veja crescer.

Cada passo do longo caminho que espera Robin é retratado com uma imensa sensibilidade. A esperança está presente em vários momentos da vida de Robin e do filme, porém nunca de forma exacerbada. Muitas vezes, até vem misturada com sentimentos não tão positivos. E como ficar sempre positivo quando se sabe que nunca mais poderá respirar por conta própria e ter a vida livre que costumava ter? E pior ainda, como viver feliz quando se sabe que milhares de outros doentes sobrevivem aprisionados?

Imagem do filme Uma Razão Para Viver (Breathe). Na imagem, o casal de protagonistas, formado por Diana (Claire Foy) e Robin Cavendish (Andrew Garfield).
Diana é a principal fonte de motivação de Robin. É graças a ela que ele encontra força e coragem de viver apesar da paralisia.

Hospital ou prisão?

Depois de sua saída do hospital, a condição de Robin, principalmente psicológica, melhora consideravelmente. No entanto, os médicos não concordavam com essa decisão. Depender de um respirador significa que, se surgir algum problema tão simples quanto uma queda de energia elétrica, a morte é quase certa. Uma Razão Para Viver se posiciona claramente a favor da decisão ser do doente. Quem tem que decidir se prefere ficar na monotonia do hospital ou arriscar sair para tentar ser feliz é a pessoa que sofre. Para Robin, esta decisão tem consequências graves, e ele chega perto da morte algumas vezes. Porém, nunca sentimos arrependimento de sua parte. Pelo contrário, ele está grato por todo o esforço de Diana em cuidar dele para permitir que continuem a viver, juntos, experiências incríveis.

Muitos doentes, não só vítimas de polio, acabam por passar todo ou quase todo seu tempo entre quatro paredes brancas, sem nem ver o céu e encontrando com familiares apenas neste contexto, em que as discussões giram sempre em torno da doença que os aflinge. Será essa a melhor solução?

Um dos momentos mais fortes do filme é justamente quando Robin visita um dos hospitais melhor equipados para cuidar de doentes de polio, na Alemanha. A tecnologia parece avançada, sim, mas o tratamento parece desumano. O que leva Robin a perguntar, mais tarde, por que os doentes são mantidos em prisões. E a comparação é extremamente válida. E é explicada pelo fato de que, na maioria dos países, a questão da saúde fica aos cuidados de pessoas que não precisam dela (da mesma forma que o funcionamento dos ônibus é decidido por quem não anda neles, e a legalidade ou não do aborto é discutida por quem não tem útero). Logo, o que do ponto de vista do médico é um avanço tecnológico pode ser algo que, para o doente, apenas piore seu estado, principalmente psicológico.

Imagem do filme Uma Razão Para Viver (Breathe). Na imagem, o protagonista visita um hospital que trata poliomielite, na Alemanha.
A visita a um hospital alemão que usa tecnologias avançadas para tratar pessoas que sofrem de pólio é chocante, pois o local tem a aparecência de um necrotério.

O limite do suportável

Ao invés de ficar imóvel em uma cama, rodeado por jalecos brancos, Robin consegue, com a ajuda de um amigo e de sua esposa, uma cadeira de rodas na qual está instalado um respirador que pode funcionar durante algumas horas com uma bateria. Desta forma, ele consegue não só sair no quintal, mas também fazer viagens de carro, e até de avião. A cadeira lhe permite resgatar um pouco de sua vida antiga, e lhe proporcionar momentos de alegria com sua família. Um dos objetivos de Robin e seus entes queridos é fazer com que outros pacientes no mundo tenham a oportunidade de viver novamente fora do hospital. Uma necessidade para que a doença não se torne insuportável, mas não uma cura milagrosa.

Pois se o filme tem uma mensagem de esperança, também mantem os pés no chão: assim como tantas outras doenças, polio não tem cura. Isto significa que o estado de Robin não melhora. Pelo contrário, piora. Além do desgate dos pulmões que ocorre normalmente por conta do uso de respirador artificial, a vida ativa de Robin acaba por piorar a situação, e sangramentos intensos se tornam comuns. Chega um momento em que o sofrimento é maior do que as alegrias, e Robin quer se despedir. Neste momento, o filme consegue tratar de eutanasia de uma forma extremamente sensível, dando espaço tanto para o desejo de Robin e quanto para o sofrimento de quem entende sua decisão mas não quer vê-lo partir. (Não é spoiler se é uma biografia!)

Imagem do filme Uma Razão Para Viver (Breathe). Na imagem, a família formada por Diana, Jonathan e Robin Cavendish viaja de carro.
Apesar de todos os incríveis momentos vividos por Robin e sua família, chega o momento em que morrer se torna necessário.

Uma Razão Para Viver, várias razões para assistir

Uma Razão Para Viver trata a doença de forma muito humana, com um protagonista que tem seus altos e baixos. Trata também do amor como uma possível ajuda e motivação para enfrentar as dificuldades. O casal formado por Robin e Diana emociona por ser muito autêntico, e as atuações de Andrew Garfield (um Oscar para este homem, por favor) e Claire Foy são essenciais para isso – os conflitos internos dos personagens e os sentimentos de ambos são perceptíveis muito mais em suas expressões faciais do que em suas falas.

Além de ser tecnicamente perfeito, Uma Razão Para Viver precisa ser elogiado pelo assunto de que trata e pela sua sensibilidade com a doença de uma forma geral. Apesar de se passar nas décadas de 1950, 60 e 70, o filme abre debate para questões sérias que ainda são atuais, como o tratamento de pacientes baseado em isolamento e a falta, em vários países, da escolha de poder morrer quando a vida se torna insuportável.

E como se todos os motivos acimas não fossem suficientes, o longa de Andy Serkis faz algo que muitos filmes não conseguem: não só nos faz passar por diversas emoções diferentes (impossível não chorar em vários momentos), como respeita o tempo necessário para lidarmos com elas.

Imagem do filme Uma Razão Para Viver (Breathe). Na imagem, Robin Cavendish e outros pacientes que sofrem de polio saem do hospital em cadeiras de rodas adaptadas.
Uma das maiores felicidades de Robin é conseguir fazer com que outros doentes possam sair do hospital, graças a cadeiras que têm seu próprio respirador mecânico.