Falange Resenha | The OA

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Mãe Serpente
A mais nova série original da Netflix, The OA, foi produzida em quase segredo completo. Depois de anunciar uma produção de mistério e ficção científica, o canal passou quase um ano sem divulgar informações. O primeiro trailer saiu apenas uma semana antes do lançamento oficial da temporada completa, e contava com uma premissa interessante. A série trata do reaparecimento de uma jovem, sete anos depois de seu suposto sequestro. Quando retorna para casa, Prairie Johnson, interpretada por Brit Marling – que também é co-criadora da série –, tem estranhas cicatrizes nas costas. E o mais surpreendente: ela deixou de ser cega. Apesar do interesse inicial que The OA pode despertar, seu resultado final está longe de ser muito positivo.

Roupagem nova, estratégia batida

Um dos principais problemas de The OA está justamente no roteiro, um dos elementos mais centrais a qualquer série de sucesso. Isso porque a equipe criativa se propôs a construir duas tramas paralelas, que se desenrolam em conjunto ao longo dos episódios. Primeiro temos a estória da menina cega, em sua readaptação à vida cotidiana depois de anos em cativeiro. Ao mesmo tempo, Prairie, agora autodenominada OA, conta a estória de seus sete anos de cárcere a um grupo inusitado de personagens clichês do colegial estadunidense. Essas personagens pretendem servir como ponto de descrença, e de alguma forma cativar o pública, que também suspeita que o que OA conta não é a verdade. Essa é uma técnica conhecida, utilizada, por exemplo, no renomado Forrest Gump – O contador de histórias (Forrest Gump, Paramount, 1994).

Todas as noites, OA conta um pouco de seu passado misterioso para seu grupo de cinco escolhidos.

Apesar de ter bons precedentes, em The OA essa técnica se torna um incômodo. Isso porque o espectador não tem espaço suficiente para a descrença. As temáticas e acontecimentos da série são tão absurdos e esotéricos que não permitem um meio termo. Ou se desconsidera o que OA conta como a mais tresloucada fantasia, ou se aceita de cara que a menina é o Anjo Original (“Original Angel”… que nome mal pensado). E com o gancho angelical surgem também premonições, viagens ao além, portais dimensionais, poderes de cura… Com tantos elementos fantásticos, mesmo os criadores parecem se perder, e o que ora é o alem vida, logo se torna um planeta alienígena. Não, nada faz muito sentido.

E antes que se faça a comparação entre a série e Forrest Gump, e se aponte que é mais difícil lidar com o fantástico que necessariamente habita a ficção científica, vale lembrar de outro filme fantástico que consegue fazer com sucesso o que The OA não consegue controlar. K-Pax – O caminho da luz (K-Pax, Universal, 2001), lida com o mesmo princípio de descrença, misturando a potencial loucura da protagonista com a existência de alienígenas. E até o último segundo da narrativa resta uma dúvida sutil, uma área cinzenta onde a imaginação pode florescer. Não é à toa que essa foi a indicação do Náusea no nosso Falangecast sobre filmes de ET. Mas, na pretensão de nascer grande, The OA perde a sutileza que poderia tornar sua estória instigante, e logo cai na monotonia de um suposto mistério que se estende além da conta.

Um elenco sabotado

A péssima direção criativa acabou por reduzir o enorme potencial de um elenco que se esforça para convencer. Apesar de excelentes atrizes e atores, as cenas confusas e os diálogos sofríveis muitas vezes causam desânimo, por interromperem relações humanas que poderiam ser melhor exploradas. O esoterismo sem foco, assim, atrapalha a possibilidade de vínculos maiores serem criados entre as personagens, e quando ligações emotivas desfilam pela tela, parecem vazias de sentido, e inusitadas. Isso é mais perceptível no caso da protagonista, OA, responsável também por ser a narradora de um dos eixos narrativos. Ao invés de contar com a liberdade de uma performance natural, cada linha de diálogo que sai dos lábios de Brit Marling parece ter sido tirada na íntegra de um livro de auto-ajuda. Ou pior, de um livro de Paulo Coelho!

Apenas para mencionar alguns elementos, Prairie é sequestrada pelo doutor Hunter Hap, um cientista obcecado com a morte, brilhantemente interpretado por Jason Isaacs. Ao longo de seus experimentos, que consistem em consecutivos afogamentos e ressurreições de seus prisioneiros, Hap descobre que o além, onde seus prisioneiros contatam entidades angelicais, faz parte dos anéis de Júpiter. E com cada novo afogamento, seus prisioneiros ficam mais próximos de aprender todos os passos da dança sagrada que pode abrir um portal no espaço tempo e possibilitar sua fuga. É muita loucura para um único elenco sustentar sem suporte narrativo, não importa o quão bom ele seja.

A dança celestial de ‘The OA’… Era para ser algo sério e dramático, mas a junção da coreografia com momentos dramáticos, como o tiroteio em uma escola, torna o processo estranho e mal colocado.

O elenco não é o único elemento positivo constantemente sabotado pela equipe de produção. The OA conta com tomadas belíssimas, uma fotografia impecável, e movimentos de câmera claros e precisos. Tecnicamente, a série se destaca. Mas isso não é suficiente para competir com o restante do catálogo da Netflix, que cada vez mais demonstra um cuidado minucioso com suas produções originais. Principalmente em um ano em que vimos surgir um já clássico da ficção científica no canal: Stranger Things. (E isso sem mencionar Westworld, da rival HBO.)

Se ainda não está convencido do excesso de elementos e de esoterismo, saiba que, quando criança, a personagem da OA se chamava Nina, e foge da máfia russa para os Estados Unidos depois de sobreviver à tentativa de assassinato que a deixa cega.

The OA | Vale a pena assistir?

Estaria sendo injusto se dissesse que a série é de todo ruim. Mas de forma alguma é possível afirmar que The OA seja boa. Com um desempenho regular, é provável que a série se torne um sucesso dentro de um grupo específico, alinhado com a temática da autoajuda. Para a grande maioria do público, no entanto, a série pode passar despercebida em meio a tantas boas opções simultâneas, e é provável que a investida não dure muito tempo, mesmo que os planos de uma segunda temporada já tenham sido (desnecessariamente) confirmados. Uma pena, visto que, com um controle criativo mais seguro, e com mais atenção ao roteiro, The OA poderia aproveitar melhor seus pontos fortes. Infelizmente, a escolha foi por fazer chocar o público, e forçar um mistério vago por meio da sobreposição de acontecimentos desconexos.