Falange Resenha | The Neon Demon (Demônio de Neon)

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Vinheta da Mãe SerpenteA ideia do especial de Mês das Bruxas na Falange é levantar discussões novas sobre filmes já conhecidos, mas também apresentar longas de terror que passaram despercebidos no Brasil. A expectativa, então, é que toda recomendação seja de um filme bom. Bom de uma forma geral, agradável, um entretenimento de qualidade. Esse não é o caso de The Neon Demon, o filme mais polêmico que a Mãe irá recomendar nessa lista. Por que polêmico? The Neon Demon não é um filme para assistir descompromissado, e em grande parte nao possui uma narrativa bem construída. A ideia de um filme de terror nem mesmo aparece antes da primeira hora de filme. Isso, uma hora inteira. Ao mesmo tempo, The Neon Demon é inovador em sua temática, constrói com uma precisão milimétrica as metáforas que propõe, e tem algumas das imagens mais bonitas da história do cinema. Não se trata, então, de um filme que alguém vá gostar ou não de assistir. Mais do que nunca, é preciso entender do que o filme trata para aproveitar melhor a experiência.

Neon Demon e a moda

É fácil entender porque The Neon Demon foi um fracasso completo de bilheteria. Com o dinheiro arrecadado no mundo todo, o filme não conseguiu nem mesmo se pagar. E isso porque possuia um orçamento baixo, de apenas 7 milhões de dólares. No Brasil, por exemplo, o filme chegou a ganhar uma tradução e lançamento oficial em 2016, Demônio de Neon, mas foram poucas as cidades em que foi exibido, e somente em ocasiões pontuais. O motivo principal para esse fiasco é fácil de entender: a narrativa é lenta, previsível, e a virada mais interessante do filme só surge no final, por alguns poucos minutos. Pode-se dizer, então, que The Neon Demon é um filme quase que sem conteúdo algum. Mas essa falha é, simultaneamente, um escolha consciente, e brilhante, do roteirista e diretor Nicolas Winding Refn.

A estória de The Neon Demon segue Jesse, uma jovem de 16 anos que decide se tornar uma modelo, e vai sozinha para Los Angeles. Lá, sua beleza atrai rapidamente a atenção de agências e fotógrafos. Isso, é claro, desperta a inveja e o desejo de outras modelos e profissionais da moda. E o filme todo irá tratar, em um nível superficial, das relações entre pessoas do mercado da moda. Um mundo construído com maquiagem e sorrisos falsos, trocas de favores e relacionamentos efêmeros. Um mundo que poderia ser considerado sem conteúdo.

Imagem do filme The Neon Demon, ou Demônio Neon. A imagem mostrauma jovem em um vestido dourado, em um fundo colorido de vermelho e lilás.
Jesse é interpretada por Ellen Fanning. O elenco conta também com outros grandes nomes, como Keanu Reeves e Jena Malonge. Todas as personagens, no entanto, são superficiais; não por culpa dos atores, mas como forma de reforçar o conceito inicial do filme.

A narrativa de Neon Demon é uma crítica ao próprio cenário que retrata. A moda, as modelos, os fotógrafos. Tudo gira em torno da adoração do belo, sem que nada além das aparências possa ser construído. E a vida segue normal, desde que as imagens sejam belas. E isso é o ponto mais alto do filme: a beleza de suas imagens.

Capa da Vogue

Um dos grandes motivos para que Neon Demon seja um filme lento é sua simulação de ensaios de moda. Na íntegra, cada tomada do longa é pensada como uma sessão de fotos, em que cores e luzes precisam se combinar para criar ilustrações dignas das maiores revistas de moda do mundo. As luzes, de neon e comuns, se constrastam com cenários escuros. As cores vivas das roupas se destacam em meio a paredes neutras. O branco simula ambientes infinitos, onde o corpo das atrizes e modelos ganha todo o foco do enquadramento.

O trabalho de fotografia é tão perfeito na simulação que se torna comum que a câmera pare por longos segundos em cenas específicas, congelando o tempo e transformando Neon Demon em uma exposição de fotografia. Tudo com a crueza do trabalho de modelos, tranformadas em objetos que podem ser manipulados à vontade por agentes e fotógrafos na intenção de alimentar o mercado da moda. E é dessa forma que as cenas mais violentas do filme também são construídas.

Imagem do filme The Neon Demon, ou Demônio Neon. A imagem mostra duas modelos posando em uma casa na frente do mar.
Não é difícil de imaginar as cenas de ‘The Neon Demon’ nas revistas perdidas nos consultórios médicos.

Quando Neon Demon finalmente se revela como um filme de terror, depois de muito tempo, o sangue e a carne enchem os olhos. A exibição da violência tem a mesma atenção aos detalhes que uma capa da Vogue, e se torna uma experiência visual única no cinema. Tudo acompanhado de uma excelente trilha sonora, que se intensifica quanto mais o filme se aproxima de seu desfecho, preenchendo muitas vezes o vazio deixado pela trama rasa. No fim das contas, The Neon Demon segue o lema que entoa em um memorável diálogo: a beleza não é tudo; é a única coisa que existe.

Vale a pena ver o Demônio de Neon?

Se o que se espera do terror é apenas entretenimento, The Neon Demon será um filme difícil de terminar. Mas o longa é um ensaio extremamente interessante sobre o mundo supérfluo, e violento, da moda. Sobre a certeza das modelos de que o corpo é passageiro, e toda beleza está fadada a ser superada por um rosto novo. E, é claro, sobre o extremo em que se pode chegar para preservar uma posição de admiração e poder. Por seu caráter inovador, The Neon Demon merece ser visto; mas é preciso saber que sua estética nem sempre é empolgante, e exige comprometimento do espectador.